Campanha visa reduzir suicídios desencadeados pela guerra no Sudão do Sul

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Especialistas em saúde mental acreditam que o impacto negativo na saúde mental dos civis afetados pelo conflito no Sudão do Sul tem sido devastador. Estima-se que 2 milhões de pessoas tenham fugido para países vizinhos e 1,9 milhão tenham sido internamente deslocados.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e parceiros estão desenvolvendo um plano de ação conjunto para prevenir a ocorrência de suicídios entre a população do país, detectando pessoas que estejam sob maior risco e construindo um sistema de referência.

Pessoas deslocadas internamente durante distribuição de alimentos no local de proteção de civis da ONU em Malakal, Sudão do Sul. Foto: OIM/Bannon

Pessoas deslocadas internamente durante distribuição de alimentos no local de proteção de civis da ONU em Malakal, Sudão do Sul. Foto: OIM/Bannon

James relembra cada detalhe de sua fuga. A noite estava totalmente escura. Ele empurrava sua bicicleta carregada com os pertences da família. Sua esposa, carregando os três filhos pequenos, caminhava ao seu lado. Foi no final de 2014, e os combates na cidade de Malakal, a segunda maior do Sudão do Sul, já duravam dias.

Soldados bêbados atacavam homens, mulheres e crianças. As casas eram saqueadas. As mulheres, estupradas. Os corpos permaneciam intocados onde tinham caído. Quatro anos depois, James, agora aos 32 anos, ainda sente medo. Ele fugiu para a unidade das Nações Unidas de Proteção de Civis, a poucos quilômetros de Malakal, onde recebeu alimentação básica e lonas de plástico.

“Passamos dois dias sem água”, disse James. “As crianças choravam. Estava muito quente. Eu não sabia como ajudar minha família”.

A unidade das Nações Unidas de Proteção de Civis de Malakal, estabelecida em dezembro de 2013, abriga 24 mil civis em uma cidade superlotada, sem árvores e feita de lonas e ferro. A temperatura chega a 43° graus. As ruas são feitas de terra e se transformam em um mar de lama durante a estação chuvosa. O local é cercado por aterros e fios.

Os capacetes-azuis, os soldados das Forças de Manutenção da Paz das Nações Unidas, são responsáveis pela vigília dos portões. A unidade pode ser um refúgio, portanto, um lugar seguro, mas para muitos é também uma prisão voluntária. De pé no barranco, James pode ver sua cidade natal na margem leste do Nilo Branco.

Desde 2014, Malakal foi invadida por exércitos inimigos pelo menos doze vezes. Se James retornar, ele sabe que correrá o risco de ser preso, recrutado ou morto pelo exército.

Nos meses após sua chegada, ele ficou tomado pela ansiedade. Como muitos sudaneses do sul, sua família foi dilacerada pela guerra civil. Não consegue entrar em contato com uma irmã em Juba, capital do Sudão do Sul, três irmãos se juntaram às forças armadas e outro irmão foi preso. Confinado no abrigo, ele não conseguiu achar um emprego.

“Minha mãe começou a beber cada vez mais, e continuou me pedindo dinheiro”, disse. “Mas eu não conseguia nem alimentar minha própria família. Briguei com minha esposa e ela se mudou. Ela não estava feliz.”

“Eu me culpava pela situação e comecei a beber. Fui detido por brigar, espancado e jogado na cadeia. Eu estava tão sozinho. Foi quando eu decidi cometer suicídio.”

Naquele dia, James que tinha passado o dia todo bebendo em casa, tentou se matar. Ele foi resgatado por um amigo que, preocupado com o estado mental de James, morou com ele durante um mês. Outro amigo emprestou-lhe dinheiro para começar um pequeno negócio de carpintaria. Ele parou de beber e se reconciliou com a esposa.

A tentativa de suicídio de James reflete uma crise maior, não somente em Malakal, mas no país todo. Especialistas em saúde mental acreditam que o impacto negativo na saúde mental dos civis afetados pelo conflito no Sudão do Sul tem sido devastador. Estima-se que 2 milhões de pessoas tenham fugido para países vizinhos e 1,9 milhão tenham sido internamente deslocados. Todavia, não existem dados oficiais confiáveis. As forças de paz da ONU abrigam mais de 202 mil pessoas em seis diferentes unidades de Proteção de Civis.

Em 2016, as Nações Unidas e seus parceiros começaram a coletar dados na unidade de proteção de civis de Malakal e identificou quatro casos de suicídio. Em 2017, foram contabilizadas 34 tentativas de suicídio, muitas durante o período do Natal.

Destes casos, 16 eram mulheres e 16, homens. A maioria estava na faixa dos 20 anos. Até o momento, em 2018, houve 23 tentativas, mas apenas uma pessoa, um homem de 40 anos, conseguiu se matar. A clínica da unidade de proteção de civis possui dois psiquiatras.

“O suicídio é apenas a ponta do iceberg”, disse Mytro Nersisian, um psicólogo da Organização Internacional para as Migrações (OIM). “É como as pessoas lidam com o estresse e o sofrimento. É um aflição que se acumula”.

Os horrores da guerra civil são apenas um dos muitos fatores que contribuem para isso. Muitas pessoas se sentem sem raízes e lutam para recuperar a identidade perdida, que é ampliada pela depressão e pela ansiedade. Os homens não conseguem prover recursos para suas famílias. A infância termina mais cedo e o futuro está nublado pelas incertezas. O álcool caseiro está facilmente disponível, o que aumenta as chances de violência e abusos domésticos.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e parceiros estão desenvolvendo um plano de ação conjunto para prevenir a ocorrência de suicídios, detectando pessoas que estão sob maior risco e construindo um sistema de referência. Reconhece-se que a proteção física não é suficiente e existe uma necessidade de ajudar a criar meios de subsistência.

“As pessoas devem ser capazes de viver com dignidade”, disse o psicólogo Koen Sevenantes. “Mas a saúde mental não é algo que você instala e funciona. Restaurar a dignidade demanda tempo”.

Uma campanha de conscientização intitulada “Operação Esperança” se concentra em como as pessoas podem mudar a maneira como vivem e como enxergam suas próprias vidas. A estação de rádio Nile FM transmite uma mistura de pop árabe e batidas congolesas intercaladas com mensagens positivas. Competições de futebol e performances de dança tradicionais são usadas para divulgar e incentivar maneiras alternativas de lidar com os problemas. O objetivo é estimular os jovens e torná-los mais resilientes.

Quatro anos após a tentativa de suicídio, James fala em como desenvolver habilidades de sobrevivências no dia-a-dia. Ele é líder em sua igreja e semanalmente apresenta-se em um teatro ao lar livre, no qual interpreta um homem desempregado, cheio de dívidas e com problemas conjugais com sua esposa. Um amigo o ajudou a conseguir o emprego. Após a performance, os atores se juntam à plateia para perguntar sobre o que aprenderam.

“A mensagem é ser paciente”, disse James. “A paciência é a chave para resolver todos os problemas. Mas você não deve tentar resolver seus problemas sozinho. Sempre os compartilhe com as pessoas da sua comunidade”.


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