Campanha digital conta a estória de uma família de refugiados

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A estória de uma família fictícia fugindo de uma zona de conflito até conseguir refúgio em outro país mobilizou a atenção dos seguidores do perfil ONU Brasil no Facebook nos últimos 21 dias.

Para promover uma contagem regressiva pela paz, o Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) elaborou uma campanha digital narrada por Anna, personagem de 11 anos.

Desde o dia 1º até 21 de setembro – Dia Internacional da Paz –, a campanha #21DiasPelaPaz contou a saga de uma família de refugiados. Confira aqui.

#21DiasPelaPAZ

A estória de uma família fictícia fugindo de uma zona de conflito até conseguir refúgio em outro país mobilizou a atenção dos seguidores do perfil ONU Brasil no Facebook nos últimos 21 dias. Atendendo a um chamado do secretário-geral da ONU, António Guterres, para promover uma contagem regressiva pela paz, o Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) elaborou uma campanha digital narrada por Anna, personagem de 11 anos.

Desde o dia 1º até 21 de setembro – Dia Internacional da Paz –, a campanha #21DiasPelaPaz contou aos poucos a saga de uma família de refugiados. O material alcançou mais de 153 mil pessoas no período.

O diretor do UNIC Rio, Maurizio Giuliano, lembrou que o mundo não está em paz, com diversos conflitos no Oriente Médio e África e armamento nuclear na península coreana. “O Dia Internacional da Paz é uma expressão da nossa ambição conjunta, dos povos e dos governos do mundo, de alcançar um mundo livre da guerra, da violência, da discriminação e da pobreza. Existe um círculo vicioso entre guerra e pobreza, entre violência e marginalização, que deve acabar”, afirmou.

Confira, abaixo, a estória completa de Anna, Maria, João e Nina:

#21DiasPelaPAZ – Dia 1

Oi, meu nome é Anna. Na minha família somos quatro: Mamãe, que se chama Maria. Meu irmão mais velho, João. Minha irmã do meio, Nina. E eu. João tem 19 anos, Nina tem 16 e eu já tenho 11. Papai desapareceu há 7 meses mas mamãe não quer falar sobre isso. No nosso país tem muita gente desaparecida, muita gente mesmo. Mamãe falou que temos uma guerra há 2 anos e por isso as pessoas ficam sumindo. Ontem uma vizinhas contou que um grupo armado estava vindo para nossa cidade, que fica perto da capital. Então ela e o marido decidiram ir para a casa de um parente, em outra cidade. Mamãe ficou muito nervosa e eu fiquei com medo. Ela chamou meus irmãos pra conversar mas não me deixou ouvir. Acho que eles querem decidir se vamos embora, que nem a vizinha. Tomara que não. Eu gosto muito da minha cama.

#21DiasPelaPAZ – Dia 2

Hoje Nina me falou que não vamos embora e que tudo vai ficar bem. Mas na volta da escola vimos dois carros lotados de homens armados passando na avenida principal. Quando chegamos em casa, João contou que eles haviam ocupado um armazém abandonado no centro, mas não atacaram ninguém. Todos nós relaxamos um pouco, parece que eles não queriam machucar ninguém mesmo. Ainda bem que mamãe decidiu ficar.

#21DiasPelaPAZ – Dia 3

Faz duas semanas que o grupo armado chegou aqui e agora as coisas estão piorando. Eles querem que as pessoas paguem umas taxas e ameaçam a todos com armas enormes. João contou que estava na feira quando 3 homens chegaram e começaram a recolher o dinheiro de todo mundo. João escapou. Mas um homem que se recusou a pagar foi arrastado até o carro. João disse que ele estava sangrando. Mais tarde, vi mamãe pegando dinheiro na caixinha de emergência. Ela parecia estar chorando, mas sorriu quando me viu.

#21DiasPelaPAZ – Dia 4

João chegou em casa chorando muito hoje. Ele estava com as mãos raladas. Parece que agora o grupo armado quer que todos se juntem a eles, principalmente meninos como meu irmão. Ele caiu ao fugir correndo quando os homens o viram na rua. O filho da vizinha foi levado à força porque disse que nunca faria parte dessa guerra sangrenta. Hoje o corpo dele apareceu em um riacho aqui perto. Não me deixaram ver. Mamãe ficou muito, muito triste. Ela e João dormiram juntos nessa noite.

#21DiasPelaPAZ – Dia 5

Nina me acordou muito cedo hoje porque João decidiu ir embora. Ele estava com medo de colocar nossas vidas em risco por causa dos homens armados. Nina fez um café da manhã reforçado, mas ele não conseguiu comer. Mamãe ficou o tempo inteiro rezando enquanto guardava algumas comidas pra ele numa mochila. Tudo parecia muito triste, como se nunca mais fôssemos encontrá-lo. Nina acha que logo iremos para a mesma cidade dele. Chorei muito quando ele fechou a porta.

#21DiasPelaPAZ – Dia 6

Hoje foi um dia ruim. Estava com mamãe e Nina na praça quando dois carros carros pararam e homens armados arrastaram 3 meninas. Uma delas conseguiu sair correndo mas acabou levando um tiro nas costas. Na hora mamãe me puxou e corremos em direção a um beco. Nos escondemos dentro de uma lixeira por muitas horas. Eu e Nina choramos muito, pois as meninas são da nossa escola. Mamãe ficou calada e séria o tempo todo, com medo que nos ouvissem.

#21DiasPelaPAZ – Dia 7

Ficamos alguns dias trancadas dentro de casa, com medo de sair. O grupo armado sequestrou várias meninas mas não sei o que eles fazem com elas depois. Quando a comida acabou, mamãe decidiu se juntar aos vizinhos e fugimos para a cidade onde meu irmão estava se escondendo. Eles tinham uma caminhonete e nós fomos na caçamba pois os homens fiscalizam os carros que deixam a cidade e pegam as mulheres solteiras. Arrumamos mochilas com roupas e lanches, porque mamãe falou que não sabe onde ficaremos. Partimos no meio da noite. Nem deu pra ver minha casa ficando menor, como acontece no cinema. Estava abafado e apertado, mal dava para respirar.

#21DiasPelaPAZ – Dia 8

Passamos por um bloqueio do grupo armado na estrada e ficamos um bom tempo parados. Nas primeiras horas da manhã, conseguimos chegar à cidade e saímos da caçamba para os bancos do carro. Encontramos meu irmão num casebre abandonado e lotado de pessoas que fugiam da guerra. João falou que todos estavam fugindo de novo porque apareceu outro grupo armado. Eu estava tão feliz de ver meu irmão João que não prestei atenção no resto da conversa.

#21DiasPelaPAZ – Dia 9

Mamãe me contou que iríamos pro país vizinho, que não estava em guerra. Nossos vizinhos decidiram seguir para a casa de parentes e nos deram carona até a saída da cidade, onde pegamos um táxi até a fronteira. Tinha muita gente e uma fila imensa de carros. Descemos do táxi e mamãe segurou minha mão com força. Depois de algum tempo, eu já estava tão cansada que comecei a chorar, então Nina achou um lugar para sentarmos enquanto mamãe e João continuaram procurando uma saída. Esperamos 2 dias, comendo frutas e biscoitos e dormindo na rua. Na última noite, Nina foi ao banheiro atrás de uns arbustos. Eu vi quando um soldado a seguiu. Quando ela voltou, estava com a blusa rasgada e um arranhão na bochecha esquerda. Não entendi o que aconteceu, mas mamãe chorou muito e dormiu abraçando nós duas. João disse que não iria dormir.

#21DiasPelaPAZ – Dia 10

Mamãe resolveu dar parte do nosso dinheiro para os soldados da fronteira e conseguimos atravessar. Andamos algumas horas até uma cidade. Seguimos umas pessoas até um abrigo para “refugiados”, mas não entendi direito essa palavra. O lugar era horrível. Úmido, abafado e abarrotado de pessoas. Os banheiros fediam muito. João e mamãe saíam todo dia para arranjar comida e água, mas nunca voltavam com muita coisa. Pelo menos tinha luz e Nina carregava os celulares. À noite fazia muito frio e nós só tínhamos dois cobertores. Eu rezava todo dia para ir embora dali.

#21DiasPelaPAZ – Dia 11

Comecei a sentir muita febre e fraqueza, sem conseguir ficar em pé e com dor nas pernas. No segundo dia comecei a sentir muita dificuldade para respirar, como se houvesse uma teia nos meus pulmões. A partir daí, tudo ficou confuso, porque eu dormia o tempo todo. Um dia acordei com mamãe e João brigando. Acho que João queria partir logo do abrigo mas mamãe disse que eu não aguentaria. Eles se revezavam cuidando de mim e procurando remédios, comida e água. Não sei quantos dias fiquei assim mas pareceu uma eternidade.

#21DiasPelaPAZ – Dia 12

Eu estava um pouco mais forte quando começamos a ouvir que os fugitivos do meu país estavam sendo presos e mandados de volta. João e Nina ficaram muito nervosos mas mamãe ainda não queria arriscar partir. Soubemos que muitas pessoas de outro abrigo foram levadas por policiais. Por que estavam fazendo isso, eles não sabiam da guerra? Decidimos partir.

#21DiasPelaPAZ – Dia 13

Mamãe achou um “contrabandista” – um motorista para nos levar para um outro país bem grande, onde teríamos mais chance de nos adaptar e sermos bem recebidos. Mamãe falou que vamos de carro primeiro e depois atravessamos o mar até nosso destino final. Agora, já gastamos quase todo o dinheiro da nossa reserva, e se as coisas derem errado não teremos como tentar de novo. Minha tosse continuava piorando, mas a febre já não estava tão alta.

#21DiasPelaPAZ – Dia 14

O carro atrasou e ficamos esperando no frio. Tinha umas 30 pessoas e nos apertamos no compartimento de carga de um caminhão pequeno. Estava muito desconfortável, ficamos espremidos. Viajamos por muitas horas e depois o caminhão parou. Ficamos muitas outras horas trancados e ninguém abria as portas para nós. Fiquei com muito medo, estava escuro. Como puderam nos esquecer aqui? Havia crianças chorando e adultos rezando. Alguns homens tentaram arrombar a porta, mas não conseguiram. Comecei a me sentir mal de novo e não entendia mais o que estava acontecendo, não conseguia ficar acordada muito tempo.

#21DiasPelaPAZ – Dia 15

Não sei quanto tempo se passou, mas depois de muito tempo nos levaram até o destino combinado. Chegamos em um campo para refugiados, onde nos deram uma tenda e roupas limpas. Uma médica estrangeira cuidou de mim usando um celular com tradutor. Ela me deu xarope e comprimidos. A médica falou que deveríamos esperar pelo cadastramento no campo para conseguir um transporte seguro até o país que escolhemos. Mamãe não queria esperar. E também já estava paga a viagem de barco. Eu só queria chegar logo.

#21DiasPelaPAZ – Dia 16

No ponto de encontro para a travessia, nos deram dois coletes laranjas: para mim e para Nina. Éramos 11 pessoas, e o contrabandista não foi. João e um outro homem pilotaram o bote. No começo não tinha muitas ondas e o céu estava claro. Depois o mar ficou agitado e o motor não era forte para passar as ondas. Jogamos algumas malas no mar, incluindo a da mamãe. Depois de horas com muito medo e frio, o motor do bote parou. João disse que tinha acabado a gasolina. Algumas pessoas pularam para ir nadando até a praia porque o barco estava voltando pra mar aberto. Eu tossia muito.

#21DiasPelaPAZ – Dia 17

Deixamos nossas mochilas no barco e tentamos a sorte. Mamãe, João e Nina se revezaram me puxando e o colete ajudou bastante. Eu só me concentrei em não engolir água. Depois do que pareceu uma eternidade, chegamos à praia. Pessoas que falavam muitas línguas diferentes nos deram cobertores térmicos, água, sopa e roupas secas para mim. Depois nos levaram para um abrigo temporário, onde aguardamos a documentação de refúgio. Agora entendi o que isto significa. Dizem que vou poder voltar para a escola.

#21DiasPelaPAZ – Dia 18

Não entendo o que os voluntários do abrigo falam. Ainda bem que João e Nina falam inglês. Eu vou estudar para aprender mais rápido. Dormimos em camas de verdade pela primeira vez desde que saímos de casa. Sonhei com papai e nossas vidas antes da guerra. Um médico me acordou com muitos remédios e me mandou ficar na cama. Achei bom ficar deitada o dia todo. Mamãe saiu cedo para cuidar dos documentos. Ganhamos roupas, sapatos, comidas e até brinquedos. Conheci várias crianças no abrigo, de vários lugares do mundo. Nós não conseguimos conversar, mas elas parecem legais.

#21DiasPelaPAZ – Dia 19

Já faz uma semana que estamos no nosso novo país. Eu melhorei bastante e dei uma volta. O país é bonito e ensolarado, com muitos prédios altos e praças enormes. Eles falam umas palavras esquisitas mas todos parecem se esforçar para nos ajudar. Mas um dia um homem brigou com meu irmão no metrô.

#21DiasPelaPAZ – Dia 20

Hoje é meu aniversário. Estou fazendo 12 anos. Meu presente é tomar o último remédio. Também ganhei uma amiga que fala a mesma língua que eu. Mamãe contou que recebemos nossa documentação de refugiados! Muitos presentes no mesmo dia! João e Nina fizeram um bolo e os voluntários cantaram parabéns naquela língua esquisita. Na hora de assoprar as velas, fiz um pedido mas não contei pra ninguém. Quero que todas as guerras do mundo acabem. O bolo estava uma delícia. Foi o dia mais feliz da minha vida desde que saí de casa.

#21DiasPelaPAZ – Dia 21

Amanhã será o meu primeiro dia de aula na escola nova. Estou com um pouco de medo, mas Nina e minha amiga do abrigo também estudarão lá. João está trabalhando numa fábrica. Mamãe está vendendo comida. Estamos aprendendo a língua local numa ONG perto de casa. A vida está mais fácil. Será que terei que esperar até o ano que vem pro meu pedido de aniversário se realizar?


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