Buscando uma cura para o HIV: centro de pesquisa belga estuda recuperação viral

Em 2009, o pesquisador belga Linos Vandekerckhove fundou o laboratório HIV Cure Research Center Ghent. Recentemente, sua equipe concluiu um estudo com 11 pessoas vivendo com HIV. Essa análise envolveu a pausa da terapia antirretroviral para que os cientistas pudessem observar a recuperação viral. Leia reportagem do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS).

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Quando era criança, o belga Linos Vandekerckhove amava Biologia. Quando cresceu, lhe pareceu uma escolha evidente cursar Medicina. Depois de dois anos atuando como médico em seu país, em 2001 ele teve a chance de passar um ano na África do Sul.

“Lá estava eu, no olho do furacão, onde na maioria dos dias uma pessoa vinha à clínica e morria em 48 horas devido a uma doença relacionada à AIDS”, disse ele.

O médico voltou abalado para a Bélgica. “Foi realmente chocante para mim, porque na Europa o tratamento estava prontamente disponível. Senti que algumas pessoas pagavam um preço muito alto.”

Sem querer voltar ao hospital em que trabalhava anteriormente, Vandekerckhove optou por atuar por alguns dias da semana em um laboratório de virologia do HIV. Depois de concluir seu doutorado, ele queria continuar pesquisando o HIV, e ingressou no Hospital Universitário de Ghent. Após alguns anos trabalhando com pacientes, ele finalmente teve mais tempo para dedicar à pesquisa.

Em 2009, deu início ao seu próprio laboratório, o HIV Cure Research Center Ghent, e um ano depois passou cinco meses em São Francisco (Estados Unidos) para se familiarizar com as pesquisas sobre a cura. Recentemente, sua equipe concluiu um estudo com 11 pessoas vivendo com HIV. Esse estudo envolveu a pausa da terapia antirretroviral para que os cientistas pudessem observar a recuperação viral.

“Um comitê de ética teve que validar o estudo e, é claro, organizamos um fórum de pacientes para analisar os fatores de estresse associados ao afastamento de pessoas e os testes subsequentes”, disse Vandekerckhove.

Sua equipe garantiu que os procedimentos fossem minimamente invasivos e realizados em um dia, para que os voluntários pudessem voltar ao trabalho após dois dias. Para minimizar qualquer interrupção adicional, os assistentes técnicos foram à casa de cada pessoa para coletar regularmente amostras de sangue. “Queríamos envolver os voluntários o máximo possível e mostrar nosso apoio, de A a Z”, disse ele.

Dois padrões surgiram na pesquisa. A recuperação viral, que levou de 15 a 36 dias, ocorre aleatoriamente. A equipe encontrou mais de 200 eventos independentes de recuperação, do intestino aos gânglios linfáticos, “em praticamente todos os lugares onde as células imunológicas estão presentes”.

A equipe de Vandekerckhove também descobriu que, dependendo de onde o vírus se recuperou em uma parte do corpo, pode evoluir com sua própria composição individual, como um código de barras ou uma impressão digital. Os pesquisadores descobriram vírus diferentes, mostrando que eles não são todos iguais, isolados, que emergiram de um reservatório, mas sim vários eventos reemergentes.

“Analisamos 30 códigos de barras por tipo de célula e cerca de 400 códigos de barras por pessoa”, disse ele. “Nosso estudo revelou que ter um medicamento que visa apenas os linfonodos está errado. Mostrou que você precisa se concentrar em muitos órgãos, não apenas em um”, disse Vandekerckhove.

O consultor científico do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), Peter Godfrey-Faussett, cumprimentou o instituto pelos achados. “Um trabalho tão detalhado melhora nossa compreensão dos reservatórios onde o HIV” se esconde “enquanto o tratamento suprime o vírus no sangue”, disse ele.

Na opinião dele, a pesquisa destaca os muitos desafios do vírus, uma vez que o HIV pode se recuperar de uma ampla variedade de reservatórios. “É por isso que uma compreensão clara da natureza dos reservatórios é tão importante para encontrar uma cura.”

Vandekerckhove continua sendo positivo, lembrando que a terapia genética costumava ser ficção científica, mas agora é uma realidade. “Precisamos trazer o mundo da pesquisa para o mundo dos pacientes”, disse ele. Na sua opinião, a cura é uma das muitas facetas do HIV.

O belga Jonathan Bossaer concorda. Há dez anos, ele ficou muito doente na África do Sul e logo descobriu que havia contraído HIV. Depois de muitos anos se sentindo perdido, a morte de um amigo o fez perceber que precisava mudar.

“Consegui me libertar da frustração e vergonha com a qual vivia há quase oito anos e me soltar”, disse Bossaer. Ele fundou uma instituição de caridade para aumentar a conscientização sobre o estigma do HIV. “O Positively Alive tem três objetivos principais: educar as pessoas sobre o HIV, normalizar o HIV e ajudar a acabar com o HIV por meio do levantamento de recursos”, explicou.

Metade dos recursos é destinada a um orfanato sul-africano e a outra metade ao centro de pesquisa de Vandekerckhove. “Acabar com a epidemia de HIV e AIDS é um enorme desafio, e a pesquisa para uma cura e uma vacina precisa do nosso total apoio”, disse ele.

Depois de uma pequena pausa, Bossaer disse: “a luta está longe de terminar, mas estamos no caminho certo”.