Brasileiro lembra impacto ‘imensurável’ do trabalho da ONU em prol dos refugiados

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

O brasileiro Hugo Reichenberger trabalha há dez anos para a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Com as cores e o uniforme da instituição, o profissional humanitário já atuou em oito países.

Em depoimento para a instituição, o brasileiro explica as motivações que o levaram a trabalhar para ONU. Hugo lembra que sempre foi bem recebido em assentamentos de refugiados — independentemente de etnia e religião, todos os deslocados queriam conhecer quem era o funcionário do país do futebol.

Hugo em um campo para deslocados internos na República Centro-Africana. Foto: ACNUR

Hugo em um campo para deslocados internos na República Centro-Africana. Foto: ACNUR

O brasileiro Hugo Reichenberger trabalha há dez anos para a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Com as cores e o uniforme da instituição, o profissional humanitário já atuou em oito países, levando assistência para populações forçadas a abandonar suas comunidades. Ele é um dos mais de 11 mil funcionários do organismo internacional, a maioria dos quais trabalha em campo.

Atualmente, Hugo ocupa o cargo de oficial de Relações Externas do ACNUR na Ucrânia, onde um conflito sectário no leste deixou mais de 1,5 milhão de pessoas deslocadas.

Em depoimento para a instituição, o brasileiro explica as motivações que o levaram a trabalhar para ONU. O profissional lembra que sempre foi bem recebido em assentamentos de refugiados por conta de sua nacionalidade — independentemente de etnia e religião, todos os deslocados queriam conhecer quem era o funcionário do país do futebol.

Confira abaixo o relato:

“Quando era pequeno, minha família se mudou do Brasil, pois meu pai iniciou uma carreira internacional. Foi assim que vivi minha infância e adolescência na Ásia, Oceania e Europa, mas sempre retornando ao Brasil, principalmente para estudar e trabalhar. Desde pequeno, eu sonhava em ser diplomata. Mas fiquei confuso quando, em 2004, surgiu a oportunidade de atuar numa ONG de proteção aos direitos das crianças e adolescentes. Assim, me apaixonei pelo trabalho de direitos humanos e como ele pode transformar e empoderar pessoas que mais precisam.

Por muito tempo, tive dúvida entre
ser diplomata e trabalhar com questões
sociais e direitos humanos, até que
descobri a atuação humanitária da ONU pelo mundo.

Mas sempre estive próximo da causa do refúgio. Aos sete anos de idade, me lembro quando minha família e eu fomos evacuados de Manila, capital das Filipinas, sob o som de tiros e bombas durante um golpe militar, quando vivíamos lá. Aos dez anos, na Suíça, falando português na escola com meus irmãos, éramos confundidos com refugiados da Iugoslávia pelos coleguinhas suíços – o país recebeu grande número de refugiados desta guerra. Acabei fazendo grandes amizades com os refugiados na escola, aprendendo muito com as histórias que eles contaram. Essas experiências me aproximaram muito da causa do ACNUR, a causa dos refugiados.

Ao longo desses dez anos com o ACNUR, já atuei no Brasil, na Argélia, em Burkina Faso, na República Centro-Africana, no Chade, em Mianmar, na sede em Genebra e, agora, vivo na Ucrânia, onde trabalho com Relações Externas. O meu trabalho consiste em levar embaixadas e visitas diplomáticas para visitar o leste da Ucrânia e arrecadar recursos para o ACNUR junto aos Governos e missões diplomáticas. O ACNUR recebe financiamentos tantos de pessoas físicas como de Governos. Graças a este apoio, é possível continuar seu trabalho de proteção e ajuda humanitária no leste da Ucrânia. Aqui na Ucrânia, há mais de 1,5 milhão de deslocados internos. Muitos deles vivem no meio da guerra e ouvem diariamente sons de morteiros, bombas e tiros.

Fico extremamente feliz quando vejo
o impacto positivo, imensurável, do ACNUR
na vida das pessoas deslocadas.

A parte mais gratificante do meu trabalho atual com o ACNUR é poder facilitar o contato entre diplomatas – que tem poder de influenciar políticas internacionais – com pessoas que estão vivendo diariamente os efeitos devastadores e terríveis da guerra no leste da Ucrânia. Este contato entre esses dois “mundos” é extremamente importante, pois leva esperança para as pessoas que estão sofrendo os efeitos da guerra. Fico extremamente feliz quando vejo o impacto positivo, imensurável, do ACNUR na vida das pessoas deslocadas. No ACNUR, tive muitos desses “momentos” memoráveis.

Em 2012, participei de uma operação de realocação de refugiados do Mali, que estavam presos na fronteira do país com Burkina Faso. Viajamos por mais de 200 quilômetros no deserto até o norte, com caminhões para transportar grupos de 500 pessoas até um campo de refugiados. No campo, o ACNUR providenciava abrigo, água, assistência e comida e também resgatava outros refugiados que estavam próximos ao conflito. Me lembro até hoje do alívio no olhar dessas pessoas, a maioria mulheres e crianças, quando chegamos para levá-los para um lugar mais seguro.

Vimos de perto o efeito de discursos
e práticas de ódio, discriminação e racismo,
e como isso pode afetar a vida de milhares
de pessoas de um dia para o outro.

Outro momento inesquecível foi no Chade, onde trabalhei com reassentamento nos campos de refugiados dos Darfuris que fugiram do Sudão. O reassentamento é uma espécie de “migração humanitária” facilitada por países desenvolvidos como os Estados Unidos, países nórdicos europeus e até o Brasil. As famílias são cuidadosamente selecionadas pela ONU junto com os países que recebem esses refugiados. A minha alegria era ter a oportunidade de presenciar a partida de várias famílias dos campos no meio do deserto para serem reassentadas em países desenvolvidos. As partidas eram sempre extremamente emocionantes.

Outra coisa que sempre muito me emocionou no meu trabalho com o ACNUR é a forma como sempre fui tão bem recebido pelas comunidades de deslocados com qual eu trabalhei, pelo fato de ser brasileiro. Na República Centro-Africana, eu era bem recebido tanto pelos deslocados muçulmanos, quanto pelos deslocados cristãos, ambos os lados apaixonados por nosso futebol e admiradores de nosso país multirracial e tolerante.

Mas nem sempre é fácil. No dia 25 de agosto de 2017, vivi a situação mais difícil da minha vida profissional. Eu trabalhava na fronteira de Mianmar e Bangladesh, do lado do Mianmar. Neste dia, iniciou-se um conflito e perseguição aos rohingya, que rapidamente escalou-se ao nosso redor. Hoje, são mais de 730 mil refugiados rohingya que fugiram para Bangladesh. Vimos de perto o efeito de discursos e práticas de ódio, discriminação e racismo, e como isso pode afetar a vida de milhares de pessoas de um dia para o outro.


Mais notícias de:

Comente

comentários