Brasil e OMS discutem estratégias para controle de epidemias e eliminação de doenças

O Ministério da Saúde, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciaram na segunda-feira (2) um workshop para discutir o uso de tecnologias inovadoras e o papel das redes de laboratórios no apoio ao controle de epidemias e eliminação de doenças.

O evento, que ocorreu até terça-feira (3) no âmbito da 16ª Mostra Nacional de Experiências Bem-Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (Expoepi), também debateu a questão da vigilância e ações de saúde para migrantes, incluindo experiências de Brasil e Equador.

Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, chikungunya e zika. Foto: Agência Brasil

Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, chikungunya e zika. Foto: Agência Brasil

O Ministério da Saúde, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciaram na segunda-feira (2) um workshop para discutir o uso de tecnologias inovadoras e o papel das redes de laboratórios no apoio ao controle de epidemias e eliminação de doenças.

O evento, que ocorreu até terça-feira (3) no âmbito da 16ª Mostra Nacional de Experiências Bem-Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (Expoepi), também debateu a questão da vigilância e ações de saúde para migrantes, incluindo experiências de Brasil e Equador.

Segundo a representante da OPAS e da OMS no Brasil, Socorro Gross, é preciso um trabalho conjunto nos três níveis – nacional, regional e internacional –, incluindo as fronteiras, para alcançar a eliminação de doenças.

“Esta região das Américas tem muitas capacidades. Com inovação, com compartilhamento de experiências, com a capacidade de se adaptar, nós podemos eliminar doenças que causam muita dor a nossas populações, principalmente as mais vulneráveis”, afirmou.

Júlio Croda, diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde do Brasil, destacou que o país representa uma experiência importante para a região.

“Muito do que acontece aqui [nas Américas] acontece primeiro no Brasil. Em todas as grandes epidemias que ocorreram nos últimos dez anos, sempre o Brasil teve um papel importante, inclusive sendo o primeiro país a reportar um aumento expressivo do número de casos”, disse.

Para ele, a troca de conhecimentos com os Estados vizinhos é fundamental para aumentar a interação e desenvolvimento de projetos, como o de vacinação nas fronteiras.

Durante o workshop, o chefe da Unidade de Gestão da Informação em Saúde e Avaliação de Risco da OPAS, Enrique Perez, apresentou o uso de tecnologias inovadoras para controle de epidemias, como a plataforma Epidemic Intelligence from Open Sources (EIOS).

Essa ferramenta busca minimizar o impacto de riscos por meio de ações para detecção precoce, fortalecimento de capacidades nacionais e subnacionais e promoção de ações de vigilância.

“O sistema trabalha com sites oficiais de diversas instituições, os RSS de notícias, grupos moderados de especialistas, mídias sociais, entre outros. Depois, pega toda essa informação, filtra e faz uma categorização das ameaças. No fim, você tem a informação para prever rapidamente o sinal de uma potencial epidemia”, detalhou.

Outro tema abordado no evento foi o papel das redes de laboratórios no apoio ao controle de epidemias, a nível mundial, nas Américas e no Brasil.

Para Pierre Formenty, gerente da Rede de Laboratórios de Patógenos Emergentes e Perigosos (EDPLN, na sigla em inglês) da OMS, ter um laboratório em campo durante um surto é bastante útil tanto para se fazer diagnósticos quanto para propor diagnósticos diferenciais, especialmente em situações onde ocorre um aumento de casos de chikungunya e dengue ao mesmo tempo ou diferente febres hemorrágicas virais como ebola ou lassa, por exemplo.

“Estamos trabalhando no fortalecimento da capacidade de testagem e apoiando testes de vacinas, testes clínicos terapêuticos de RCT, bem como facilitando a produção, distribuição e pré-posicionamento de reagentes. Nossa perspectiva é desenvolver uma rede regional de laboratórios em todas as regiões”, afirmou o gerente da EDPLN, que funciona em coordenação como a Rede Mundial de Alerta e Resposta a Surtos (GOARN, na sigla em inglês).

Nesse sentido, Jairo Méndez, assessor regional para Doenças Virais da OPAS, traçou um panorama das redes laboratoriais atualmente em funcionamento nas Américas.

Ele citou o caso do Brasil, que já tem uma rede laboratorial muito forte e, para se fortalecer ainda mais, teve uma equipe de patologistas treinados em diagnóstico de arbovírus em um laboratório de referência na Colômbia, com apoio da OPAS.

“Também foi muito exitosa neste ano a resposta a um surto de arenavírus na Bolívia. Inicialmente, se pensava que eram casos de dengue. Nós então ativamos nosso centro colaborador em Atlanta (Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos – CDC) e em menos de uma semana já tínhamos resultados preliminares dizendo que que se tratava de arenavírus”, afirmou.

Segundo Jairo Méndez, para construir capacidade no país, também foi feita uma missão na Bolívia, liderada pela OPAS, com o Instituto Nacional de Enfermedades Virales Humanas da Argentina e o CDC para ajudar na investigação de campo e implementar as técnicas para detecção de arenavírus.

O coordenador geral de Laboratórios de Saúde Pública do Ministério da Saúde do Brasil, André Luiz de Abreu, abordou, entre outros temas, a construção de um Laboratório Nacional de Contenção Nível 4 (NB4) – o nível máximo de biossegurança.

De acordo com ele, isso passa primeiro pelo aperfeiçoamento da capacidade laboratorial do país atualmente. “É preciso estruturar toda a rede para dar o suporte que esse laboratório NB4 precisa ter para que não se torne subutilizado ou mal utilizado”.

Vigilância e migração

O workshop também tratou de questões relacionadas aos fluxos migratórios nas Américas. Segundo o diretor do Departamento de Emergências em Saúde da OPAS, Ciro Ugarte, mais de 4,5 milhões de pessoas migraram da Venezuela. Destes, 3,8 milhões se deslocaram para países da América Latina e do Caribe, particularmente Colômbia, Peru, Equador, Argentina, Chile, Panamá, Brasil e Trinidad e Tobago.

Ugarte mencionou exemplos de colaboração da OPAS a esses países, destacando os avanços na elaboração de um Plano Regional de Migração e Saúde. “O objetivo é apoiar a integração das necessidades de saúde dos migrantes nas políticas, estratégias e programas nacionais de saúde, não apenas para proteger a saúde dessa população, mas também a da população anfitriã”.

De acordo com Marcus Quito, assessor técnico que atua nas ações humanitárias da Operação Acolhida pelo Ministério da Saúde do Brasil, os migrantes venezuelanos passam por um posto de triagem ao entrarem no país pelo estado de Roraima.

“Nesse processo se busca entender qual a motivação, os documentos e a situação imunitária dessas pessoas. São prestados serviços e oferecidas as vacinas presentes no calendário nacional, para equiparar essas pessoas à situação imunitária da população do Brasil. Nós tivemos, de janeiro a julho deste ano, 62 mil pessoas vacinadas, com 11 mil atendimentos.”

A especialista em melhoria contínua da vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde Pública do Equador, Jackeline Pinos, informou que a maioria dos migrantes que se direcionaram ao país também eram da Venezuela.

Os principais problemas de saúde identificados foram cáries e infecções agudas das vias respiratórias superiores. “Fizemos capacitações para resposta rápida a surtos e investimentos importantes em talentos humanos, vacinas adicionais, mobilização de equipes e equipamentos para a cadeia de frio (processo para garantir adequado armazenamento e transporte de vacinas)”.