Brasil é modelo para implementação do Protocolo de Montreal, diz especialista do PNUD

O Brasil pode ser considerado modelo para os demais países da América Latina quando se refere à implementação do Protocolo de Montreal, acordo em vigor desde 1989 que tem como objetivo eliminar a produção e o consumo de substâncias que destroem a Camada de Ozônio. A avaliação é do especialista sênior em espumas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Miguel Quintero.

Miguel Quintero, consultor internacional especialista em espumas de poliuretano do PNUD. Foto: PNUD

Miguel Quintero, consultor internacional especialista em espumas de poliuretano do PNUD. Foto: PNUD

O Brasil pode ser considerado modelo para os demais países da América Latina quando se refere à implementação do Protocolo de Montreal, acordo em vigor desde 1989 que tem como objetivo eliminar a produção e o consumo de substâncias que destroem a Camada de Ozônio. A avaliação é do especialista sênior em espumas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Miguel Quintero.

Em 2010, o Brasil deixou de utilizar totalmente o CFC, substância com maior potência de destruição do ozônio. A partir de então, por meio do Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs (PBH), o país passou a focar na eliminação dos HCFCs em território nacional, também prejudiciais e utilizados pelas indústrias em substituição ao CFC.

Implementado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e tendo o PNUD como agência líder, o programa atua com o setor privado para encontrar alternativas aos HCFCs, principalmente no setor de espumas e de refrigeração. No país, há 1,7 mil companhias que produzem espumas de poliuretano, e a meta do programa é chegar a todas elas para eliminar o uso do produto até 2020.

O Brasil foi um dos primeiros países latino-americanos a aprovar programas para a eliminação dessa substância, apresentando, em 2015, suas estratégias de eliminação ao Comitê Executivo do Fundo Multilateral (detentor dos recursos do Protocolo de Montreal). Esse programa contempla a eliminação da importação do HCFC-141b no Brasil a partir de janeiro de 2020.

Bacharel em engenharia química pela Universidade Nacional da Colômbia, Quintero é, desde 2008, membro do grupo de conselheiros do Banco Mundial no setor de espumas.

Leia abaixo a entrevista.

PNUD: Qual é a relação entre a produção de espumas de poliuretano e a destruição do ozônio?
Miguel Quintero: Na década de 1980, especificamente entre 1985 e 1987, descobriu-se que as substâncias que danificavam a Camada de Ozônio eram os CFCs, os clorofluorcarbonos. Então, o primeiro passo foi investigar quais eram os usos dos clorofluorcarbonos. Uma de suas aplicações mais importantes, especificamente do CFC-11, era como agente de expansão para a produção de espumas de poliuretano. Nesse momento, utilizava-se o CFC-11 para produzir espumas flexíveis, na produção de colchões; para as espumas rígidas, utilizados como isolamento térmico nas geladeiras, refrigeradores e câmeras frigoríficas, principalmente.

PNUD: Como foi a eliminação dos CFCs?
Quintero: O Protocolo de Montreal, desde 1987 (quando foi aprovado), criou um cronograma para eliminar o CFC-11. Uma primeira conversão foi passar do CFC a substâncias que, embora também provocassem a destruição da Camada de Ozônio, não a afetavam tanto. Esse é o caso do HCFC-141b. O Brasil cumpriu muito bem essa etapa de eliminação [do CFC], e a produção de espumas passou a utilizar o HCFC-141b no lugar do CCF-11 e, em alguns casos, os hidrocarbonetos, como o ciclopentano. Agora, estamos em outra etapa, que é a de eliminação total dos HCFCs. O Brasil e a Colômbia foram os dois primeiros países na América Latina a aprovar programas para a eliminação dessas substâncias, apresentando, em novembro de 2015, suas estratégias de eliminação ao Comitê Executivo do Fundo Multilateral (detentor dos recursos do Protocolo de Montreal). Esse programa contempla a eliminação da importação do HCFC-141b no Brasil a partir de janeiro de 2020, ação muito importante no contexto do continente.

PNUD: Como está a implementação do Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs, o PBH?
Quintero: A primeira etapa do programa corresponde ao congelamento do uso dos HCFCs em 2013, com linha base de 2009 e 2010, e a redução de 10% em 2015. Nessa primeira etapa, o Brasil abordou a eliminação do HCFC-141b em duas grandes aplicações: de pele integral e na produção de espumas rígidas para painéis contínuos. Estamos finalizando essa primeira etapa. Agora, precisamos abordar todo o resto do mercado brasileiro. Se a primeira etapa cobriu uma boa quantidade de empresas, na segunda, abordaremos todas as empresas do Brasil. No país, há 1,7 mil companhias que produzem espumas de poliuretano, e a ideia é chegar a todas elas para eliminar o uso do produto até 2020.

PNUD: Qual é o maior desafio para a implementação do programa no Brasil?
Quintero: O primeiro desafio que tivemos foi formar uma equipe de trabalho local que gerenciasse todo esse projeto. Felizmente, por meio da implementação da Etapa 1, conseguimos formar uma equipe de trabalho muito fortalecida no Brasil, que tem a melhor capacidade, as melhores qualificações para implementar a Etapa 2. Essa segunda etapa tem um desafio particular que é chegar a muitas companhias pequenas e cuja capacidade tecnológica é limitada. E como vamos chegar a essas companhias? Por meio das casas de sistema, os fornecedores das substâncias que fazem a espuma. Aí está o maior desafio: fazer com que todas essas empresas se integrem ao projeto e consigamos implementá-lo coordenadamente.

PNUD: Quais são as opções tecnológicas ao HCFC-141b disponíveis no mercado atualmente?
Quintero: No mundo, as opções tecnológicas mais utilizadas são os hidrocarbonetos, particularmente o ciclopentano, misturas de ciclopentano e isopentano e também o n-pentano. Mesmo os hidrocarbonetos não causando danos à Camada de Ozônio e apresentando um baixo potencial de aquecimento global, apresentam um problema, requerem condições de segurança muito alta para evitar explosões. Isso exige investimentos elevados. Essa solução é válida para grandes indústrias, mas, para pequenas indústrias, é muito restrita, pela disciplina operacional precária e também pelo investimento que é preciso ser feito. Outras tecnologias existentes e que estão sendo utilizadas nos países desenvolvidos são hidrofluorolefinas, os HFOs. Adicionalmente a essas, estão o formiato de metila, o metilal e a água, todas interessantes para o programa. No PBH, as companhias tiveram a liberdade de escolher a tecnologia que acreditavam ser a mais adequada para suas conversões. Por essa razão, todas essas tecnologias serão utilizadas aqui no país.

PNUD: O consumidor percebe a substituição do HCFC no produto final?
Quintero: O objetivo é que não perceba. O HCFC é um pequeno ingrediente da espuma de poliuretano. Na espuma rígida de poliuretano, por exemplo, o HCFC-141b representa cerca de 10%. Então, a ideia é fazer a conversão com essas opções tecnológicas, fazendo com que as propriedades das espumas não mudem, e não ocorram, por exemplo, limitações no isolamento térmico. Cabe uma observação: a espuma rígida de poliuretano é muito importante também para o combate ao aquecimento global porque é a base para o isolamento térmico, ou seja, a base para o uso de menos energia para refrigeração e ar condicionado. Se não tivermos uma boa espuma, utilizaremos muito mais energia, o que afetará muito mais o aquecimento global do clima. Acredito, ainda, que é muito importante entender que o Brasil é a primeira economia da América Latina e que as nações da região veem o país como um modelo. Penso que, no Protocolo de Montreal, o Brasil cumpre com muita eficiência esse papel.