Bióloga que ajudou a reflorestar Ruanda após genocídio é premiada pela ONU

Rose Mukankomeje, uma das ganhadoras do prêmio “Heróis da Floresta”

Diante do cenário do pós-guerra e de uma grande tragédia pessoal, a bióloga ruandesa Rose Mukankomeje conseguiu mobilizar compatriotas para proteger os recursos naturais de seu país e, no processo, restaurar comunidades devastadas pelo conflito. Por isso, ela é uma das ganhadoras do prêmio “Heróis da Floresta”, oferecido pelas Nações Unidas.

Mukankomeje não pôde participar da premiação, realizada dia 10 de abril em em Istambul, na Turquia. Ela teve de permanecer em Ruanda para uma série de eventos em memória do genocídio de 1994. Naquele ano, cerca de 1 milhão de pessoas – a maioria da etnia Tutsis – foram massacradas por milícias Hutus e Forças do governo em apenas 100 dias.

Ela estudava na na Europa quando o genocídio aconteceu e, ao retornar para Ruanda, descobriu que seus pais e irmãos haviam sido mortos. Na busca por outros parentes, Mukankomeje percorreu vários orfanatos e acabou virando mãe solteira de 24 filhos adotivos.

“O país sofreu muito”, disse Mukankomeje, falando de sua casa em Kigali, capital de Ruanda, para o Centro de Notícias da ONU. “Após o genocídio, a estrutura social do país foi completamente destruída.”

Segundo ela, as florestas do país, lugar para onde muitas pessoas fugiram e se esconderam durante o período de genocídio, também foram completamente destruídas.

Em 2011, o Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA) lançou uma avaliação pós-conflito de Ruanda. O documento diz que o genocídio e os embates que precederam os assassinatos causaram “significativos” impactos ambientais que vão se estender por muitos anos.

“O principal dano foi causado pelo deslocamento em massa da população e a reacomodação das pessoas que retornaram ao país. Houve perdas irreversíveis, incluindo reduções consideráveis na área de parques nacionais, florestas e outros tipos de cobertura vegetal, bem como a invasão de pântanos”, afirmou o relatório, que propôs um pacote com cerca de 90 projetos para ajudar o país a acelerar sua agenda de desenvolvimento sustentável.

Foto: ONU/J. Isaac

Também em 2011, Ruanda recebeu um prêmio apoiado pela ONU condecorando sua avançada política florestal. O país é um dos três da África Central e Ocidental que conseguiram alcançar uma importante reversão na tendência de queda da cobertura florestal. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), patrocinadora do prêmio, Ruanda está no caminho certo para atingir sua meta de 30% de cobertura florestal da área total do território até 2020.

Mukankomeje dedicou sua vida à proteção e restauração de florestas em Ruanda. Atualmente ela é Diretora-Geral de Gestão de Meio Ambiente do país.

Uma de suas iniciativas mais bem sucedidas é a conscientização pública para a gestão ambiental através do Umuganda – um projeto comunitário no qual todo mundo passa um dia por mês cuidando do meio ambiente e plantando árvores. É uma solução que garante que o crescimento das florestas em Ruanda apoie os meios de subsistência e beneficie as pessoas pobres que moram em áreas rurais.

Mukankomeje credita o sucesso ambiental de Ruanda à paixão do seu povo. “Essa paixão se transforma em visão. Essa visão é traduzida em política. Então, a política é traduzida em programas. Ao mesmo tempo, as pessoas estão empenhadas em fazer a diferença. Precisamos ajudar as nossas comunidades, mas o ambiente também sofreu muito por causa do conflito.”