Banco Mundial: Brasil faz primeiro diagnóstico de políticas de gestão de risco do setor agropecuário

O documento, a ser entregue ao Governo em março de 2015, apresenta recomendações e prioridades para uma melhor gestão dos riscos de um setor cuja safra foi de 194,5 milhões de toneladas em 2014, 3,3% maior do que a de 2013.

América Latina e Ásia serão responsáveis por mais de 75% da produção agrícola mundial na próxima década Marcello Casal Jr./ABr.

América Latina e Ásia serão responsáveis por mais de 75% da produção agrícola mundial na próxima década
Marcello Casal Jr./ABr.

Enquanto o mundo joga no lixo entre um quarto e um terço da comida que produz, 870 milhões de pessoas – mais de quatro vezes a população brasileira – acorda e vai dormir sem saber o que e quando vai comer.

Levando-se em conta que a população global chegará a 9 bilhões em 2050, como garantir comida a tanta gente, e ainda por cima a preços acessíveis? “É impossível vencer o problema da insegurança alimentar se não investirmos na América Latina para promover exportações e ajudar a alimentar o mundo”, comenta o gerente regional de agricultura do Banco Mundial, Laurent Msellati.

Quando fala em investimentos, ele não se refere só às técnicas para aumentar a produtividade, mas também ao conhecimento para enfrentar os principais riscos como secas, cheias e outros fenômenos climáticos extremos e cada vez mais frequentes, pragas e até os altos e baixos da economia global.

Tudo isso é importante sobretudo para o maior produtor de alimentos da região, o Brasil, que em breve vai concluir seu primeiro diagnóstico das políticas e programas de gestão de risco do setor agropecuário.

O documento, a ser entregue ao Governo em março de 2015, apresenta recomendações e prioridades para uma melhor gestão dos riscos de um setor cuja safra foi de 194,5 milhões de toneladas em 2014, 3,3% maior do que a de 2013, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Técnicos do Banco Mundial, do Ministério da Agricultura (MAPA) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) analisaram 7 mil questionários respondidos em todo o Brasil. Os riscos relacionados com a infraestrutura e logística do setor agropecuário, além das secas cada vez mais graves em todo o país, são as maiores preocupações dos atores do setor.

Foram feitas também consultas com especialistas de Universidades e do setor público e privado em gestão dos diferentes riscos, comparando os resultados do questionário com os resultados de estudos científicos e avaliações de impacto.


Ação rápida para prevenir riscos

“Conhecer os riscos à agricultura é importante para garantir o acesso à alimentação da população mais vulnerável e evitar que a economia seja impactada. Só no estado de São Paulo (que tem a maior participação na produção agrícola do país), uma queda de 10% na produção custaria mais de 4 bilhões de reais (cerca de 1,5 bilhões de dólares) em receitas fiscais”, explica Msellati.

Em compensação, se começar a agir rapidamente para prevenir riscos, o país tem muito a ganhar: um dólar investido em mitigação de riscos como desastres naturais economiza sete em ações de resposta.

Diagnósticos como o que o Brasil está concluindo vêm sendo feitos em menor escala em alguns dos estados – como Bahia e Paraíba, no nordeste – e em outros países latino-americanos, como o Paraguai.

Para mitigar os efeitos negativos, o documento recomenda desenvolver o sistema de pesquisa e transferência de tecnologias como sementes mais resistentes aos eventos climáticos e sistemas de irrigação inteligente para a agricultura familiar.
E, também, consolidar os serviços de sanidade animal, desenvolver uma bolsa agropecuária e seguros agropecuários – como os já existentes no Brasil compensando agricultores familiares que perderam a produção devido a adversidades do clima.

América Latina e Ásia serão responsáveis por mais de 75% da produção agrícola mundial na próxima década, segundo a Organização da ONU para Alimentos e Agricultura (FAO) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Por esse e outros motivos, tais medidas são um passo adiante para garantir que a pergunta “O que vamos comer amanhã?” sempre terá resposta.