Banco Mundial: América Latina ainda tem barreiras estruturais para inclusão social de negros

Um a cada quatro latino-americanos identifica-se como afrodescendente, o que representa cerca de 133 milhões de pessoas. A maioria vive no Brasil e o restante está distribuído de maneira heterogênea nos demais países da região.

Apesar de, nos últimos anos, a região ter alcançado avanços em termos de reconhecimento e redução da pobreza, o relatório do Banco Mundial
“Afrodescendentes na América Latina – Rumo a um marco de inclusão” aponta que falta muito para eliminar as barreiras estruturais que impedem a inclusão social e econômica completa desta população.

Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, ocorrida em 2015, em Brasília. Foto: ONU Mulheres/Bruno Spada

Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, ocorrida em 2015, em Brasília. Foto: ONU Mulheres/Bruno Spada

Um a cada quatro latino-americanos identifica-se como afrodescendente, o que representa cerca de 133 milhões de pessoas. A maioria vive no Brasil e o restante está distribuído de maneira heterogênea nos demais países da região.

Apesar de, nos últimos anos, a região ter alcançado avanços em termos de reconhecimento e redução da pobreza, o relatório “Afrodescendentes na América Latina – Rumo a um marco de inclusão” aponta que falta muito para eliminar as barreiras estruturais que impedem a inclusão social e econômica completa desta população.

Para refletir sobre o tema e provocar o debate com entes da federação, o Banco Mundial lançou o documento na semana passada (5), em Salvador (BA). O evento teve a participação de gestores, pesquisadores, profissionais e atores sociais que debateram a pesquisa.

“O relatório é um passo importante para compreender melhor a situação vivida pelos afrodescendentes e para ajudar a direcionar os países rumo à inclusão social e econômica na América Latina”, declarou o líder de Programa para Infraestrutura e Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial, Paul Procee. Ele participou da abertura do evento com o especialista em Desenvolvimento Social Germán Freire e a consultora Flávia Carbonari, que fizeram parte do grupo que elaborou o relatório.

Constituindo parte desproporcionalmente alta dos mais pobres, os afrodescendentes tem 2,5 vezes mais chances de viver na pobreza crônica que os brancos e mestiços na América Latina. Juntando as populações de Brasil, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Uruguai, o grupo representa 38% da população total, mas 50% dos que vivem na pobreza extrema. Os afrodescendentes também são os que têm menos anos de escolarização, experimentam mais o desemprego e possuem pouca representação nos cargos de decisão, tanto na esfera pública quanto privada.

Para o especialista em Desenvolvimento Social do Banco Mundial Germán Freire, a capacidade de a América Latina acabar com a pobreza extrema e promover a prosperidade compartilhada dependerá, em grande parte, da inclusão social dos afrodescendentes. “Acredito que, para alcançarmos esse objetivo, a região deve primeiro entender e visualizar suas necessidades e interesses”, afirmou.

Ainda falta muito para solucionar o complexo problema de exclusão que está no centro dos esforços do Banco Mundial para diminuir a desigualdade. A meta é melhorar as oportunidades e o acesso a mercados e serviços para os grupos excluídos, respeitando suas visões e aspirações. Uma vez que os afrodescendentes são uma população heterogênea, as políticas devem ser construídas levando em consideração as condições específicas de cada país, subregião e, muitas vezes, de cada situação.

Para isso, são necessários mais e melhores dados, além da inclusão de marcadores com variável sobre afrodescendentes nos censos, que representa um primeiro passo importante. As políticas devem ter objetivos claros e mensuráveis, em áreas-chave como educação, oportunidades de emprego e igualdade de salários. Deve-se ainda abordar e eliminar os estereótipos raciais e empoderar as organizações afrodescendentes para dar voz, participação e poder de negociação, aproveitando os avanços alcançados nos últimos anos por seus líderes.

Avanços

Na década passada, a América Latina testemunhou uma melhora notável nas condições de vida de muitos afrodescendentes, que beneficiaram-se da ampla redução na taxa de pobreza regional.

Por exemplo, mais de 50% das famílias afrodescendentes saíram da pobreza no Brasil e no Uruguai, e mais de 20% em Equador e Peru. O grupo também teve mais acesso à educação, ainda que persista a lacuna em relação à população branca e mestiça.

O aparecimento de uma classe política de afrodescendentes e o crescimento das organizações de afrodescendentes empurraram os vários países a incorporar mudanças constitucionais em relação à discriminação, direitos de propriedade e o reconhecimento étnico-racial da sua população. Outros países aprovaram instrumentos legais para resguardar os direitos dos afrodescendentes, tais como ações afirmativas, campanhas de conscientização, leis antidiscriminação, e inclusão no censo.

De acordo com o relatório, o crescente reconhecimento dos afrodescendentes representa a tão esperada ruptura com o passado que deu início a um dos capítulos mais sombrios da história latino-americana: a escravidão e seu terrível legado de exclusão social.

Clique aqui para acessar o relatório completo.