Baixa do Sapateiro, na Maré: médicos cubanos levam saúde a zona de conflito

O ambiente da favela não assusta a médica cubana que atua no centro de saúde por meio do programa ‘Mais Médicos’, com apoio da OPAS: “Eu sempre gostei de trabalhar para o povo”.

O ambiente da favela não assusta a médica cubana que atua no centro de saúde por meio do programa ‘Mais Médicos’: “Eu sempre gostei de trabalhar para o povo”. O programa tem apoio da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS).

Ao centro, a médica cubana que atua na Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Foto: OPAS/OMS

Ao centro, a médica cubana que atua na Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Foto: OPAS/OMS

O entorno do Centro Municipal de Saúde (CMS) Samora Machel, no Rio de Janeiro, remete a um cenário de guerra. Soldados do Exército fortemente armados, barricadas estratégicas, tanques blindados e veículos camuflados patrulham as imediações da unidade, como se o território pudesse ser alvo de ataques a qualquer momento.

A unidade de saúde fica em uma área conhecida como a “Faixa de Gaza” do Complexo da Maré, conjunto que aglomera 15 favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro, com uma população de mais de 130 mil pessoas.

Dominado pelo crime organizado ligado ao tráfico de drogas, o ponto onde se situa a unidade de saúde é geograficamente posicionado entre as comunidades de Baixa do Sapateiro e Nova Holanda, o limite entre dois territórios, local de constantes confrontos entre facções rivais. As paredes das construções ao redor são completamente esburacadas por marcas de balas deixadas pelos tiroteios.

“Numa situação dessas, era muito difícil os médicos ficarem na comunidade, eles ficavam pouco tempo. E a gente até entende, porque é muito difícil mesmo. Mas a nossa médica cubana aqui, a Daili, não só vem todos os dias como às vezes não tem nem tempo de almoçar, porque as consultas dela duram 40 minutos. Ela quer conversar, explicar bem, escutar o paciente. Não desfazendo dos outros, porque já tivemos excelentes médicos brasileiros aqui, mas eles acabam indo embora logo”, diz Rondinele Gomes Vilhena, administrativo do CMS Samora Machel.

“Muitas vezes, além do confronto do lado de fora, teve grupo armado que invadiu a unidade de saúde e a escola onde fica o posto, que virou rota de fuga da polícia”, conta um paciente do posto que não quis se identificar. Por conta dos casos de violência, em abril deste ano forças do Exército e da Polícia iniciaram uma ocupação em todo o Complexo da Maré, ainda sem data para terminar.

“Desde que o exército chegou, está bem tranquilo por aqui. A gente pode caminhar para qualquer lugar, sem ter aquele medo. Ainda com algum cuidado claro, isso sempre. Porque não tem como saber o que vai acontecer no futuro, então a gente fica meio com receio. A gente não sabe o dia de amanhã”, conta Rondinele.

Praticamente alheios à presença militar, os moradores seguem suas rotinas; o comércio fervilha; o barulho dos carros, de rádios e de alto-falantes anunciando produtos se mistura ao burburinho da principal rua de varejo da comunidade, em um barulho constante.

O ambiente da favela não assusta Daili Medina Garcia, a médica cubana lotada no centro Samora Machel: “Eu sempre gostei de trabalhar para o povo”, diz ela. Daili mora a 15 minutos da unidade de saúde, fora da comunidade. O marido, médico como ela, também faz parte do Programa Mais Médicos, e está lotado em outro posto. Eles deixaram uma filha em Cuba, aos cuidados dos avós.

“A gente não sabia onde ia trabalhar, eu nunca pensei em morar no Rio de Janeiro. Essa é uma realidade que nem dá para acreditar. Porque realmente é uma cidade muito linda, que as pessoas do mundo todo querem conhecer”, sorri a médica.

Daili se diz satisfeita com a vida no país. Segundo ela, houve alguns desencontros no começo do Programa, mas ela afirma que os médicos estavam informados sobre as condições gerais desde o início do projeto.

“A gente assinou um contrato em Cuba onde explicava quanto íamos ganhar, mas muita gente não sabia o custo de vida aqui, nem quanto ia gastar. Acho que isso depende também do lugar onde o médico está localizado, das condições que cada governo das cidades oferece. Tem pessoas que ficaram em uma situação melhor e outras em situação pior”, conta. “Mas ninguém veio enganado. Essa desinformação não justifica a atitude de algumas pessoas que abandonaram o Programa.”

A cubana conta que não teve problemas ao chegar à cidade e que o salário que recebem é suficiente para cobrir as despesas: “Eu aqui no Rio realmente não tive problema nenhum de moradia. A gente recebe alimentação, transporte e moradia da Secretaria de Saúde. Se você organiza a sua vida e gasta o que é necessário com as coisas, o dinheiro realmente dá para cobrir os gastos. Ainda sobra para alguns momentos de lazer, então está bom assim”, afirma.

A rotina na Unidade

Daili atende na Unidade de segunda a quinta-feira, das 8h às 17h. Às sextas, tem cursos na Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde (UNA-SUS) e estuda português. O trabalho é programado e desenvolvido em equipe: quando a médica chega na Unidade, já tem um grupo de pacientes agendados que a equipe organizou, em sistema de prioridade. Neste momento, os agentes comunitários já fizeram os contatos com os pacientes e já confirmaram os horários das consultas do dia.

O calendário de visitas agendadas funciona da seguinte forma: às segundas, Daili atende clínica médica de manhã e à tarde; às terças pela manhã faz visita domiciliar, à tarde atende a grupos; às quartas pela manhã faz consultas de pré-natal e reunião de equipe à tarde; às quintas atende clínica médica de manhã e pediatria à tarde. Atende também as consultas que chegam sem agendamento, gente que chega e precisa de atendimento, demanda espontânea.

Foto: OPAS/OMS

Foto: OPAS/OMS

O atendimento a grupos funciona quando a equipe reúne vários pacientes e faz uma sessão de informação sobre um tema específico: “Depende um pouco da programação e da demanda. Já fizemos um sobre amamentação, e reunimos as grávidas da comunidade. Aqui temos muitos casos de colesterol e triglicerídeos elevados, então vamos fazer uma palestra sobre isso em breve”, explica a médica.

A maior preocupação de Daili ao chegar ao país era que os pacientes entendessem o que ela fala, para que seguissem corretamente o tratamento: “Aquela expectativa que eu tinha foi superada, eles entendem tudo, então não tivemos problemas”, afirma. Em seguida, seu foco passou a ser passar segurança para a população: “O melhor é que o paciente sinta confiança no médico, e acho que até agora eu consegui isso”, orgulha-se ela.

O objetivo final é ajudar a melhorar a vida das pessoas de uma forma ampliada. “Às vezes a pessoa também precisa de uma mudança de estilo de vida, não é só o tratamento com o remédio. Desde mudar a alimentação, até encontrar outra forma de encarar os problemas da vida.”

Ver a vida de outra forma é também o apelo feito por Rondinele, administrativo do CMS Samora Machel: “Eu queria que alguns médicos pensassem mais que todos nós somos seres humanos. Porque eles fazem um juramento de atender as pessoas, mas hoje você vê gente morrendo na porta dos hospitais. Eles têm que refletir mais em ajudar os outros e nós temos que mudar isso juntos”.

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