Bachelet denuncia indiferença da comunidade internacional por civis mortos no noroeste da Síria

A alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet condenou nesta sexta-feira (26) a aparente indiferença da comunidade internacional em relação ao crescente número civis mortos no noroeste da Síria.

O escritório sob a chefia da dirigente já documentou pelo menos 450 mortes de inocentes desde que a campanha mais recente do governo e de seus aliados começou na região, há três meses.

Meninos passam em frente a edifícios destruídos em Maarat al-Numaan, na província de Idlib. Foto: UNICEF/Giovanni Diffidenti

Meninos passam em frente a edifícios destruídos em Maarat al-Numaan, na província de Idlib. Foto: UNICEF/Giovanni Diffidenti

A alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, condenou nesta sexta-feira (26) a aparente indiferença da comunidade internacional em relação ao crescente número de civis mortos no noroeste da Síria. O escritório sob a chefia da dirigente já documentou pelo menos 450 mortes de inocentes desde que a campanha mais recente do governo e de seus aliados começou na região, há três meses.

No noroeste sírio, está localizada a província de Idlib, considerada o último refúgio dos rebeldes que se opõem ao governo. A região tem sido palco de ataques aéreos que deixaram pelo menos 103 mortos nos últimos dez dias — entre as vítimas fatais, estão 26 crianças.

“Ataques intencionais contra civis são crimes de guerra e quem ordenou ou realizou é criminalmente responsável pela ação”, enfatizou Michelle Bachelet.

Ao menos dez locais distintos — oito em Idlib e dois na área rural da província Alepo — foram alvos de operações que resultaram no óbito de civis, ao longo dos últimos dez dias. Três desses ataques aconteceram nesta semana.

“Apesar dos apelos repetidos feitos pelas Nações Unidas, de respeito ao princípio da precaução e da distinção na conduta das hostilidades, esta implacável campanha mais recente de ataques aéreos feita pelo governo e seus aliados continua atingindo centros médicos, escolas e outras infraestruturas civis, como mercados e padarias”, disse a alta-comissária da ONU.

“Estes são locais civis e parece altamente improvável, dado o padrão consistente de tais ataques, que (esses lugares) estão sendo todos atingidos por acidente”, acrescentou Michelle.

A chefe de direitos humanos das Nações Unidas afirmou estar preocupada com o fato de que a contínua carnificina na Síria “não está mais no radar internacional”.

“Várias centenas de milhares de crianças, mulheres e homens foram mortos na Síria desde 2011”, lembrou a alta-comissária.

“Tantas que não é mais possível fornecer uma estimativa credível. Durante os primeiros anos deste conflito assassino, quando as vítimas estavam nas dezenas, então centenas, então milhares, o mundo mostrou preocupação considerável com o que estava acontecendo.”

“Agora, ataques aéreos matam e mutilam números significativos de civis várias vezes por semana, e a resposta parece ser um encolhimento coletivo de ombros”, criticou Michelle.

Segundo a dirigente, o Conselho de Segurança está “paralisado” pelo fracasso persistente de seus cinco membros permanentes, que não concordam em usar seus poderes e influência para acabar com as mortes.

“Este é um fracasso de liderança das nações mais poderosas do mundo, resultando em uma tragédia numa escala tão vasta que nós parecemos não ser mais capazes de se identificar com ela”, lamentou a alta-comissária.

A chefe de direitos humanos da ONU afirmou que sua equipe continua colhendo informações sobre três ataques recentes, que fizeram pelo menos 11 vítimas civis. As operações militares foram realizadas por grupos armados não estatais em áreas controladas pelo governo, na cidade de Masyaf, em Hama, em 21 de julho, e nos bairros de al-Hamadaniya e al-Jamiliya, na cidade de Alepo, em 22 e 24 de julho, respectivamente.

“Apesar de serem o objeto do acordo de desescalada de 2017 e do acordo da zona desmilitarizada de 2018, (a província de) Idlib e áreas próximas estão testemunhando uma grave escalada militar, com duras consequências humanitárias e de direitos humanos para milhões de civis que tentam sobreviver lá”, ressaltou Michelle.

A dirigente disse ser essencial alcançar um cessar-fogo, a fim de impulsionar as negociações políticas. “A alternativa é apenas mais mortes e destruição inconsequentes, numa guerra sem fim.”