Autor de ‘O Caçador de Pipas’ visita campos de refugiados em Uganda

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Em viagem a Uganda, o autor afegão Khaled Hosseini visitou campos de refugiados para pessoas que fugiram do Sudão do Sul e de outros países em crise. O escritor, que é também embaixador da Boa Vontade da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), chamou atenção para os desafios enfrentados por indivíduos que abandonaram suas casas, famílias, empregos e vidas para sobreviver.

Khaled Hosseini conheceu a sul-sudanesa Aisha, mãe solteira que cuida de cinco crianças. Foto: ACNUR/Jordi Matas

Khaled Hosseini conheceu a sul-sudanesa Aisha, mãe solteira que cuida de cinco crianças. Foto: ACNUR/Jordi Matas

Em viagem a Uganda, o autor afegão Khaled Hosseini visitou campos de refugiados para pessoas que fugiram do Sudão do Sul e de outros países em crise. O escritor, que é também embaixador da Boa Vontade da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), chamou atenção para os desafios enfrentados por indivíduos que abandonaram suas casas, famílias, empregos e vidas para sobreviver.

“Os rostos cansados das crianças que descem dos ônibus retratam com nitidez a crise do Sudão do Sul, a maior da África e a que cresce mais rapidamente em todo o mundo. Mais de 1,8 milhão de refugiados já fugiram para países vizinhos, cerca de 1 milhão para Uganda. A maioria, aproximadamente 62%, é de crianças assustadas, confusas, desesperadas em busca de abrigo e proteção”, relata o autor de “O Caçador de Pipas” em depoimento para o ACNUR.

O romancista afirmou que a viagem para Uganda foi diferente de todas as que já fez a outros países lidando com crises de deslocamento forçado. No lugar de campos cercados e fechados, Hosseini testemunhou a solidariedade de fazendeiros ugandeses e do governo, que estão doando lotes de terra para abrigar refugiados.

“Refugiados em Uganda têm liberdade para se mover livremente, de ter acesso ao mesmo sistema de educação e saúde que os nacionais, têm autorização para trabalhar e começar seus próprios negócios”, explicou o escritor afegão.

Durante sua estadia no país de acolhimento, Hosseini conheceu Gladys, uma jovem refugiada.

“Aos 18 anos, ela desempenha o papel de mãe de sete crianças. A guerra no Sudão do Sul a forçou a cuidar de seus irmãos e primos mais novos. A proximidade de Gladys com sua própria infância parece ser um fato esquecido em sua família e ainda mais distante para ela mesma. Recai sobre ela a responsabilidade de garantir que as crianças continuem estudando, apesar do percurso diário de quatro horas para ir e vir do campo de refugiados de Imvepi, onde vivem, para a escola”, conta.

“Os dias dela se resumem a recolher água do poço, colher lenha, preparar refeições e limpar o abrigo que o ACNUR providenciou para a família quando eles chegaram a Uganda em 2016”, acrescenta Hosseini.

Debaixo da serenidade e da determinação que a refugiada demonstra em seu dia a dia, existem dores indizíveis.

“Nem parece que, com tão pouca idade, ela já tenha testemunhado os piores atos que os homens são capazes de cometer. Ela conta que já foi arrastada para fora de um ônibus em chamas enquanto, lá dentro, ainda havia mulheres gritando por socorro. Ela foi forçada a ver pessoas que ela conhecia serem mortas, uma por uma. Com delicadeza, Glady sinaliza resignação. Ela diz não compreender os motivos pelos quais continua viva”, descreve o afegão.

Em outro acampamento, o assentamento de Bidibidi, Hosseini conheceu Aisha. Aos 29 anos, a sul-sudanesa cuida sozinha de cinco crianças — dois filhos biológicos, dois sobrinhos e uma filha adotiva que é a mais recente integrante da família.

“Ela me conta sobre o que viveu em um posto de verificação. Sua voz oscila levemente de indignação. Quando ela foi forçada a se ajoelhar, grávida de seu filho mais novo, com o cano da arma apontado para sua cabeça, a morte estava a um suspiro. Ao final, os soldados levaram seu dinheiro e seus pertences. Aisha e as crianças chegaram a Uganda com quase nada”, relata o embaixador do ACNUR.

Em conversas com o escritor, a refugiada falou sobre a filha adotiva, que tem a parte direita de seu corpo paralisada. A menina foi abandonada pela mãe biológica. “Agora, eu já amo ela como se fosse minha. Mas as condições dela são complicadas”, contou Aisha a Hosseini. “Não será fácil que alguém a aceite. Mas eu não podia desistir. Alguém tinha que dar a ela um lar, um lugar seguro para viver.”

Tanto Gladys, quanto Aisha confessaram ao autor que desejariam voltar para o Sudão do Sul.

Contra a xenofobia

Em seu depoimento, Hosseini alerta que “hoje em dia existem muitas vozes cheias de medo no mundo inteiro dizendo aos refugiados que eles não são bem-vindos”.

“Nada substitui a profunda sensação de conexão com o local em que nascemos. Mas quando regressar ao seu país não é uma opção, lar passa ser o local onde você tem uma sensação de pertencimento. Um lugar onde as pessoas não olham para você e dizem ‘você não pertence a este lugar’”, disse o escritor. Para ele, Uganda está se tornando um exemplo de país que acolhe estrangeiros sem medo e sem preconceito.


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