Atriz Cate Blanchett detalha experiências durante visitas a campos de refugiados do ACNUR

Em entrevista exclusiva, a atriz australiana Cate Blanchett fala sobre suas experiências com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), as pessoas que conheceu durante suas visitas de campo e sobre como ser mãe colaborou e inspirou seu trabalho com refugiados.

“Por ser mãe, você cria uma conexão imediata e empática com a experiência das mães refugiadas e o que elas precisam fazer, os extremos pelos quais precisam passar para tentar normalizar suas experiências, tão frágeis para elas quanto para seus filhos”.

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Vencedora do Oscar e mãe de quatro crianças, a atriz australiana Cate Blanchett foi convidada a falar ao podcast Awake at Night, produzido pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O podcast tem como foco indivíduos notáveis que são engajados em ajudar refugiados, e Blanchett, embaixadora da Boa Vontade do ACNUR, tem se dedicado à causa desde 2014.

Em uma conversa franca e emocional com Melissa Fleming, chefe de comunicação global do ACNUR, Blanchett reflete sobre suas experiências durante as visitas de campo que já realizou com a agência. Ela lembra de seu tempo na Jordânia, acompanhada por seu filho Iggy, onde conheceu refugiados sírios.

“Na Jordânia, você tem dois campos de refugiados (Azraq e Za’atari), e um deles é completamente estéril, é quase como uma paisagem lunar. Nós tivemos este almoço extraordinário com uma família extensa que esteve no acampamento por algum tempo. Um dos meninos estava saindo para jogar futebol. Mas havia um menino de 13 anos, muito envolvido, muito alegre, que não saiu”.

“Iggy, interessado em jogar futebol com todos os garotos da família, estava curioso para saber por que o garoto alegre não se juntava a eles. Expliquei que ele tinha uma ferida no pé; que tinha estilhaços no tornozelo quando foi baleado em sua jornada para lá. A cor sumiu do rosto de Iggy e você podia vê-lo tentando juntar as peças”.

Blanchett afirma que, no árido e quente deserto jordaniano, pode ter sido o momento em que seu filho Iggy compreendeu o que significa ser um refugiado. “Acredito que, se você dissesse para ele de forma abstrata ou se tivesse lido em um artigo no jornal, ele teria pensado no menino em uma cama de hospital, incrivelmente depressivo, mas você podia ver que esse menino ainda estava cheio de esperança”.

Quando perguntada sobre como ser mãe a ajudou em sua atuação como embaixadora da Boa Vontade, Blanchett disse: “por ser mãe, você cria uma conexão imediata e empática com a experiência das mães refugiadas e o que elas precisam fazer, os extremos pelos quais precisam passar para tentar normalizar suas experiências, tão frágeis para elas quanto para seus filhos”.

Como embaixadora da Boa Vontade do ACNUR, Blanchett ajuda a conscientizar e humanizar a questão do deslocamento forçado e da apatridia. Ela viajou com o ACNUR para conhecer refugiados em Líbano, Jordânia e Bangladesh, aprendendo em primeira mão sobre a experiência das pessoas ao fugir de conflitos e perseguições, ou sobre os desafios da apatridia. Ela transformou estes testemunhos em filme e drama, e também em poderosos discursos em eventos de angariação de fundos, bem como em reuniões de alto nível, como no Conselho de Segurança da ONU e em Davos.

O podcast Awake at Night tem como foco pessoas notáveis que se dedicam às causas humanitárias e que fornecem uma visão única e íntima sobre o seu trabalho. Eles revelam o que os impulsiona, o que aprenderam com as pessoas a quem ajudam e os desafios e esperanças que os mantêm acordados à noite.

Então, o que mantém Cate Blanchett acordada à noite? Quando perguntada sobre essa questão, ela descreve vividamente quando conheceu uma mulher síria, uma arquiteta, em um centro comunitário de refugiados no Líbano.

A mulher, mãe de três filhos, disse às pessoas reunidas no centro que estava embarcando na semana seguinte com seus filhos para tentar chegar à Europa: “a sala ficou em silêncio e todos disseram: ‘você sabe o quanto isso é perigoso’. E ela disse: ‘eu não tenho escolha! Meus filhos estão fora da escola. Eu não tenho escolha!’”.

Blanchett continua: “muitas vezes, para as pessoas que viajam em embarcações, este não é o primeiro ponto de trauma. Elas experimentaram a fome. Foram baleadas. Viajaram quilômetros sem ajuda médica. Seus filhos estão em péssimo estado de espírito, já traumatizados, quando entram no barco”.

“Elas estão fazendo isso porque pensam profundamente no futuro de seus filhos. São as pessoas que estão se afogando e sendo levadas para as praias”, diz. “Pense. Pense nisso, enquanto você adormece”.

O trabalho de Blanchett com os refugiados também a expôs à imensa resiliência e coragem dos refugiados, apesar de suas difíceis circunstâncias. Isso a lembra de outro encontro: “quando estávamos em Azraq, encontrei um jovem professor que tinha um filho de um mês de idade. Estava incrivelmente quente. Estávamos no deserto e eles levantaram a tenda”.

“Ele me levou a um pátio, onde tinha plantado uma pequena árvore para a filha. Andava por um longo tempo todos os dias para obter água suficiente para alimentar essa árvore. (…) Ele queria que ela crescesse, e sabia que provavelmente estaria naquele campo por algum tempo. Falava sobre como a árvore cresceria e faria sombra para sua filha. Isso me fez querer chorar. Pensei que era a imagem essencial da esperança que um pai tem para sua filha. Ele queria que ela brincasse debaixo daquela árvore.”

Awake at Night está disponível no Apple Podcasts, Spotify, Google Podcasts e Acast. Para mais informações, visite: unhcr.org/awakeatnight.


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