Ataques no nordeste da República Democrática do Congo obrigam milhares a fugir para a Uganda

Mais de 7,5 mil refugiados chegaram a Uganda em junho, após relatos de novos confrontos entre os grupos Hema e Lendu, no nordeste da República Democrática do Congo. Mais de 300 mil pessoas também estão deslocadas dentro do país e uma média de 311 refugiados cruza a fronteira diariamente — o dobro em relação a maio. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Moses, de oito anos, está entre os mais de 7,5 mil refugiados que chegaram a Uganda neste mês depois de ataques de milícias no nordeste da República Democrática do Congo. Foto: ACNUR

Moses, de oito anos, está entre os mais de 7,5 mil refugiados que chegaram a Uganda neste mês depois de ataques de milícias no nordeste da República Democrática do Congo. Foto: ACNUR

Samuel Ngabu e sua família fugiram de sua casa em fevereiro quando homens com facões atacaram sua aldeia na província de Ituri, na República Democrática do Congo. A ofensiva no vilarejo desencadeou meses de incerteza e medo, ao longo dos quais o congolês e sua família procuravam abrigo.

“Eles saquearam e queimaram tudo em seu caminho, matando homens, mulheres e crianças”, conta Ngabu, de 32 anos.

O congolês, sua esposa e três filhos pequenos passaram meses em uma cidade próxima, dormindo na rua, sem comida ou água suficientes. As necessidades eram tão extremas que o casal decidiu enviar seu filho mais velho para viver com a avó numa aldeia vizinha. Assim, Ngabu e sua companheira podiam voltar para casa e checar se era seguro retornar. Eles encontraram a aldeia destruída e sua casa reduzida a cinzas.

A família estava reconstruindo as suas vidas quando foram atacados novamente.

“Voltar para o mato não era mais uma opção, então nos juntamos a um grupo de pessoas que estavam fugindo para Uganda”, conta Ngabu. O congolês pediu dinheiro emprestado para conseguir um barco, escapando pelo Lago Albert com sua esposa e bebê.

Não houve tempo para buscar seus outros filhos — uma situação que continua a preocupar Ngabu. No momento do ataque, os meninos estavam vivendo com os avós numa vila chamada Logo.

Mais de 7,5 mil refugiados chegaram a Uganda em junho, após relatos de novos confrontos entre os grupos Hema e Lendu, no nordeste da República Democrática do Congo. Mais de 300 mil pessoas também estão deslocadas dentro do país e uma média de 311 refugiados cruza a fronteira diariamente — o dobro em relação a maio.

A história de Ngabu é semelhante à de dezenas de refugiados e solicitantes de refúgio que chegam a Uganda com pouco mais do que suas roupas. Todos contam histórias de brutalidade nas mãos de grupos armados, que vão de aldeia em aldeia saqueando, queimando casas, matando homens, mulheres e crianças. Alguns refugiados relatam que pessoas foram detidas pelas milícias armadas enquanto tentavam fugir pelo lago.

Em Uganda, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), com o Escritório do Primeiro-Ministro e agências humanitárias, está implementando melhorias nos centros de trânsito e recepção para acolher e acomodar os recém-chegados.

Quando aportam nas margens do Lago Albert, os congoleses são levados para o centro de trânsito em Sebagoro, uma pequena vila de pescadores, onde são examinados pela primeira vez em busca de sinais de ebola. De lá, os refugiados são transportados para o centro de recepção de Kagoma, a cerca de 45 quilômetros.

Mas os recém-chegados acabam deixando o centro superlotado. Atualmente, o local abriga cerca de 4 mil refugiados, mas foi construído para acomodar apenas 2,5 mil pessoas. O ACNUR e o Escritório do Primeiro-Ministro fazem transferências regulares de deslocados para o assentamento de refugiados de Kyangwali, onde são alocados lotes de terra para os congoleses. Eles também recebem material de abrigo, itens de cozinha e ferramentas de construção para que possam construir um novo lar.

Mas o congestionamento no centro continua sendo um grande desafio. Ngabu, sua esposa e filha agora estão temporariamente abrigados no centro de recepção de Kagoma. Cada um recebeu um pequeno tapete para dormir. Não há travesseiros nem cobertores.

Uganda abriga a maior população de refugiados na África, com mais de 1,2 milhão de pessoas. A maioria vem do Sudão do Sul, mas em torno de 27% são da República Democrática do Congo.

No entanto, a resposta a esse cenário de deslocamento forçado tem sido afetada pelo financiamento insuficiente. Até junho de 2019, apenas 16% dos 927 milhões de dólares necessários para o Plano de Resposta aos Refugiados em Uganda foram recebidos. O ACNUR aponta que apoio global é urgentemente necessário para ajudar a agência e as organizações parceiras a fornecer até mesmo as formas mais básicas de assistência.


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