Ataques em Mianmar têm intenção de impedir retorno de minoria rohingya ao país, diz relatório da ONU

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Os ataques brutais cometidos contra a minoria rohingya no estado de Rakhine, norte de Mianmar, foram bem organizados, coordenados e sistemáticos, com a intenção não apenas de expulsar essa população do país como de evitar que ela retornasse, concluiu novo relatório da ONU publicado nesta quarta-feira (11) e baseado em entrevistas realizadas em Bangladesh.

O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) manifestou profunda preocupação com a segurança de centenas de milhares de rohingya que permanecem no norte do estado de Rakhine, em meio a relatos de que a violência persiste. A agência da ONU pede às autoridades que permitam o acesso irrestrito de trabalhadores humanitários nas áreas afetadas.

Refugiados rohingya fogem de violência em Mianmar em outubro de 2016. Foto: ONU

Refugiados rohingya fogem de violência em Mianmar em outubro de 2016. Foto: ONU

Os ataques brutais cometidos contra a minoria rohingya no estado de Rakhine, norte de Mianmar, foram bem organizados, coordenados e sistemáticos, com a intenção não apenas de expulsar essa população do país como de evitar que ela retornasse, concluiu novo relatório da ONU publicado nesta quarta-feira (11) e baseado em entrevistas realizadas em Bangladesh.

O relatório produzido pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) — que se reuniu com recém-chegados à cidade de Cox’s Bazar, em Bangladesh, de 14 a 24 de setembro — afirma que as violações de direitos humanos contra a população rohingya foram cometidas pelas forças de segurança frequentemente em conluio com indivíduos armados budistas em Rakhine. O relatório é baseado em cerca de 65 entrevistas com indivíduos e grupos.

O documento também destaca a existência de uma estratégia de “criar medo e trauma profundo e disseminado, físico, emocional e psicológico” entre a população rohingya.

Mais de 500 mil rohingya fugiram para Bangladesh desde que as forças de segurança de Mianmar lançaram uma operação em resposta a supostos ataques de militantes em 25 de agosto contra 30 delegacias de polícia e uma sede regimental. No entanto, o relatório afirma que as “operações de limpeza” começaram antes dessa data, no início de agosto.

O ACNUDH manifestou profunda preocupação com a segurança de centenas de milhares de rohingya que permanecem no norte do estado de Rakhine, em meio a relatos de que a violência persiste. A agência da ONU pede às autoridades que permitam o acesso irrestrito de trabalhadores humanitários nas áreas afetadas.

O documento cita relatos de testemunhas, segundo as quais as forças de segurança queimaram moradias e aldeias inteiras; foram responsáveis por execuções extrajudiciais e sumárias, estupros e outras formas de violência sexual, tortura e ataques contra locais religiosos. Testemunhas relataram numerosos assassinatos, e disseram que algumas vítimas foram deliberadamente atacadas e outras mortas por explosões, disparos e balas perdidas.

Uma menina de 12 anos da cidade de Rathedaung descreveu como as forças de segurança de Mianmar e indivíduos budistas de Rahkine cercaram sua casa e começaram a atirar. “Foi uma situação de pânico — eles atiraram na minha irmã na minha frente, ela tinha apenas 7 anos. Ela chorou e me disse para correr. Eu tentei protegê-la e cuidar dela, mas não tivemos atendimento médico. Ela estava sangrando tanto que depois de um dia morreu. Eu a enterrei sozinha”, disse.

O relatório afirma que, em alguns casos, antes e durante os ataques, megafones foram usados para anunciar: “você não pertence a esse lugar — vá para Bangladesh”. “Se você não sair, vamos queimar suas casas e matá-lo”.

Informações confiáveis indicam que as forças de segurança de Mianmar destruíram propositalmente a propriedade de pessoas rohingyas, atacando suas casas, campos, estoques de alimentos, plantações e até mesmo árvores, para acabar com a chances de essa população retornar no futuro.

O chefe do ACNUDH, Zeid Ra’ad Al Hussein, que descreveu as operações do governo no norte de Rakhine como “um exemplo claro de limpeza étnica”, também pediu que as autoridades interrompam imediatamente essas operações “cruéis”. Ao negar à população rohingya seus direitos políticos, civis, econômicos e culturais, incluindo o direito à nacionalidade, as ações do governo parecem ser “uma estrategia cínica para transferir à força um grande número de pessoas sem possibilidade de retorno”.

O relatório indica que foram realizados esforços para efetivamente apagar sinais da população rohingya da geografia e da memória local, transformando o território em um cenário desolador e irreconhecível.

As entrevistas indicam que as forças de segurança atacaram professores, lideranças culturais, religiosas e outras pessoas de grande influência na comunidade rohingya, em um esforço para acabar com sua história, cultura e conhecimento.

Você pode realizar doações para o ACNUR e ajudar os refugiados rohingya clicando aqui.


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