Assistência após desastres e conflitos negligencia saúde das mulheres, revela UNFPA

Capa do relatório “Abrigo da Tempestade: Uma agenda transformadora para mulheres e meninas em um mundo propenso a crises”. Foto: Reprodução

As necessidades em saúde de mulheres e adolescentes são muitas vezes negligenciadas na resposta humanitária aos desastres naturais e conflitos em todo o mundo, mesmo quando suas chances de viver ou morrer em uma crise dependam do acesso a serviços de saúde sexual e ações de saúde sexual e reprodutiva, como a atenção de parteiras e parteiros profissionais, ou outros profissionais especializados e a prevenção do HIV. A conclusão é destaque do novo relatório divulgado nesta quinta-feira (03) pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

O relatório Situação da População Mundial 2015, intitulado “Abrigo da Tempestade – uma agenda transformadora para mulheres e meninas em um mundo propenso a crises”, mostra que das 100 milhões de pessoas que necessitam de ajuda humanitária em todo o mundo hoje, cerca de 26 milhões são mulheres e meninas adolescentes em idade reprodutiva.

Serviços e ações de saúde sexual e reprodutiva essenciais para a saúde e a sobrevivência de mulheres e adolescentes são mais escassos no momento em que são mais necessários, diz o relatório. Três quintos das mortes maternas ocorrem hoje em países que são considerados frágeis por causa de conflitos ou desastres. A gravidez e o parto matam 507 mulheres todos os dias em tais contextos.

“A saúde e os direitos das mulheres e adolescentes não devem ser tratados como uma reflexão tardia na resposta humanitária”, disse o diretor executivo do UNFPA, Babatunde Osotimehin. “Para a mulher grávida que está prestes a dar a luz, ou para a adolescente que sobreviveu à violência sexual, tais serviços, que salvam vidas, são tão vitais quanto água, comida e abrigo.”

Assistência a crises em 38 países

Sem a proteção usual da família e da comunidade, as mulheres e as adolescentes são mais vulneráveis à violência sexual, gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis, como HIV. Necessidades básicas para um parto seguro, planejamento da vida reprodutiva e cuidados em saúde sexual e reprodutiva raramente são atendidas quando mulheres e adolescentes deixam de ter acesso aos sistemas de saúde em decorrência das crises.

“Ter os meios para evitar uma gravidez e estar a salvo da violência sexual são direitos humanos básicos”, adicionou Osotimehin. “Direitos não desaparecem e mulheres não deixam de dar à luz quando irrompe um conflito ou ocorre um desastre.”

O relatório mostra que a maior ocorrência de conflitos e catástrofes no mundo atual tem levado o UNFPA a dedicar boa parte dos seus esforços e serviços aos contextos de crise. Em 2015, o UNFPA respondeu a crises em 38 países.
Proteger a saúde e efetivar os direitos das mulheres e adolescentes não são apenas fundamentais para resistir à piora no cenário de guerras e desastres naturais, mas também podem acelerar a recuperação após as crises, mostra o relatório do UNFPA. As mulheres e adolescentes necessitam um abrigo melhor, mais forte e mais resiliente para ajudá-las a enfrentar as tempestades que põem em perigo a sua saúde, seus direitos e seu futuro.

Contribuição brasileira

O abrigo atual, de acordo com o relatório do UNFPA, é incapaz de proteger todas que necessitam. Em 2014, por exemplo, as Nações Unidas precisaram de um montante recorde de 19,5 bilhões de dólares para responder a crises humanitárias ao redor do mundo, mas enfrentou um déficit recorde de 7,5 bilhões, o que colocou em risco a saúde e a vida de milhões de pessoas. Em 2015, o UNFPA recebeu menos da metade do financiamento necessário para satisfazer as necessidades essenciais de saúde sexual e reprodutiva de mulheres e adolescentes.

O relatório Situação da População Mundial 2015 menciona o aumento das contribuições dos países emergentes para a ajuda humanitária, citando o exemplo do Brasil. As contribuições brasileiras aumentaram de 2,6 milhões de dólares em 2005 para 14,9 milhões em 2014. O relatório alerta que, apesar do aumento das contribuições na última década, os déficits de financiamento continuam crescendo.

A demanda por assistência humanitária supera a oferta, e por essa razão é necessária uma nova abordagem, com uma nova ênfase na prevenção, preparação e construção de resiliência das nações, comunidades, instituições e indivíduos. Um caminho para a resiliência, conclui o relatório, é o do desenvolvimento equitativo, inclusivo, que protege os direitos, incluindo os direitos reprodutivos.

“Manter as coisas como estão na assistência humanitária significa deixar muitas pessoas para trás, num momento em que as necessidades são muito grandes”, disse o diretor executivo. “Precisamos fazer um trabalho muito melhor no sentido de ajudar as pessoas que estão em situações de maior vulnerabilidade, especialmente meninas e adolescentes. Mas também temos de fazer um trabalho muito melhor em investir para construir um mundo mais estável, capaz de suportar as tempestades que virão pela frente”.