Assassinato de jornalista indiana é ‘ataque cruel à liberdade de imprensa’, afirmam relatores da ONU

Três relatores especiais da ONU pediram ao governo da Índia uma ação firme após o assassinato da jornalista indiana e defensora dos direitos humanos Gauri Lankesh. Ela foi assassinada a tiros na última semana, em frente à sua casa na cidade de Bangalore.

A morte de jornalistas mina o direito à sociedade de informação. Foto: Flickr/Sean Ellis (CC)

A morte de jornalistas mina o direito à sociedade de informação. Foto: Flickr/Sean Ellis (CC)

Três relatores especiais da ONU pediram ao governo da Índia na última quarta (13) uma ação firme após o assassinato da jornalista indiana e defensora dos direitos humanos Gauri Lankesh. Ela foi assassinada a tiros na última semana, em frente à sua casa na cidade de Bangalore.

“As autoridades indianas devem condenar o assassinato de Gauri Lankesh, bem como investigar e responsabilizar os assassinos – incluindo os idealizadores do crime – e levar a sério a segurança dos jornalistas”, disseram os relatores especiais sobre liberdade de opinião e expressão, David Kaye; sobre execuções sumárias ou arbitrárias, Agnes Callamard; e sobre a situação dos defensores dos direitos humanos, Michel Forst.

“O assassinato de Gauri Lankesh é uma tragédia terrível e dolorosa para todos os que a conheceram e amaram, e é um ataque cruel à liberdade de imprensa na Índia, que nós condenamos sem equívocos”, ressaltaram os especialistas em uma declaração conjunta.

“Pedimos às autoridades indianas que tomem medidas firmes para reverter o clima político que, nos últimos anos, se tornou cada vez mais polarizado e hostil, especialmente para a mídia e para aqueles que exercem a liberdade de expressão. Os governos têm a responsabilidade de construir um ambiente seguro para vozes independentes, inclusive as de jornalistas críticos às autoridades.”

Lankesh se posicionou criticamente sobre o fundamentalismo religioso, o partido do governo e a política de direita, bem como o sistema de castas. Em junho, ela escreveu um artigo sobre a história dos “ataques à liberdade de imprensa” em seu estado natal, Karnataka. Em uma de suas últimas publicações, ela expressou preocupação com o encolhimento do espaço para o debate público no país.

A jornalista era conhecida como “racionalista”, um termo usado na Índia para pessoas que se opõem à presença da religião na política. O assassinato é o quarto nos últimos três anos de ativistas que se opuseram ao surgimento do fundamentalismo hindu na política.

Em novembro de 2016, Lankesh foi condenada a seis meses de prisão, acusada de difamar dois políticos do partido no poder. Alegações que, segundo os especialistas, não eram fundamentadas. Ela foi liberada sob fiança durante o processo de recurso.

“A Índia não pode se dar ao luxo de continuar criando vítimas de ódio e intolerância. Pedimos que as autoridades tomem medidas para assegurar a cultura da diversidade, na qual todos, incluindo uma mídia independente, podem ter segurança para expressar suas opiniões”, concluíram os especialistas, que estão em contato com o governo da Índia sobre a situação.

Profissão letal

Segundo relatório do ano passado da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), foi documentado o assassinato de 827 jornalistas entre 2005 e 2015. Apenas 8% dos crimes foram solucionados.

O relatório colocou a Índia como o oitavo país com mais assassinatos contra jornalistas, com seis mortes registradas em 2015. Entre elas, a do repórter Akshay Singh, no estado indiano de Madhya Pradesh em 4 de julho.

Singh, um jornalista de TV local do canal de notícias Aaj Tak, estava investigando a corrupção no estado de Madhya Pradesh, quando morreu, segundo os médicos de um hospital local, de um ataque cardíaco. Entretanto, relatos da mídia levantaram dúvidas sobre a causa da morte do jornalista.

Segundo o documento da agência da ONU, entre 2014 e 2015, 90% dos assassinatos eram de repórteres locais.