ARTIGO: Uma nova abordagem para a paz

Em artigo, o presidente da Assembleia Geral da ONU, Miroslav Lajčák, afirma que, quando a ONU foi criada, seus fundadores imaginaram um mundo no qual disputas seriam resolvidas em salas de reunião e não em campos de batalha. Porém, conflitos violentos continuam a ocorrer em todo o planeta — prolongam-se, tornam-se mais complexos e mortais.

Segundo ele, essa é a razão pela qual a ONU necessita de uma nova abordagem para a paz. Dessa forma, a Organização convocou o Encontro de Alto Nível sobre Construção e Sustentação da Paz, em Nova Iorque, nos dias 24 e 25 de abril. Leia o artigo completo.

Miroslav Lajcák é presidente da 72ª sessão da Assembleia Geral da ONU. Foto: ONU/Kim Haughton

Miroslav Lajcák é presidente da 72ª sessão da Assembleia Geral da ONU. Foto: ONU/Kim Haughton

Por Miroslav Lajčák*

Quando a ONU foi criada, seus fundadores imaginaram um mundo diferente.
Um mundo no qual disputas seriam resolvidas em salas de reunião e não em campos de batalha. Um mundo no qual guerras iminentes seriam interrompidas. Um mundo que agisse antes que vidas fossem perdidas.

Porém, conflitos violentos continuam a ocorrer em todo o planeta — prolongam-se, tornam-se mais complexos e mortais. Se antes morriam no meio de fogo cruzado, hoje civis são alvos diretos de ataques. Observamos, ainda, um número sem precedentes de pessoas abandonando seus lares, por medo e desespero.

Essa é a razão pela qual a ONU necessita de uma nova abordagem para a paz.
Convoquei o Encontro de Alto Nível sobre Construção e Sustentação da Paz, em Nova Iorque, nos dias 24 e 25 de abril.

O evento reunirá diversos líderes mundiais para tratar de prevenção de conflitos, mediação, diálogo e diplomacia. A iniciativa é parte de amplo esforço liderado por Estados-membros das Nações Unidas para ajudar nossa Organização a fomentar a paz.

Quando digo paz, falo daquela que pode ser considerada como garantida. O tipo de paz que não desaparecerá nas próximas eleições. O tipo de paz que será medida não em meses ou anos, mas em gerações.

É o que chamamos de Paz Sustentável. Deveríamos concentrar nossos esforços nela, ao invés de buscar soluções quando o conflito já irrompeu.

Alguns dirão que é impossível consolidar a paz em determinadas regiões do planeta. Discordo. Quando Montenegro se separou da Sérvia, poucos acreditavam em uma paz duradoura. Com efeito, muitos previam sérios e violentos conflitos na região. A verdade é que, com intensos esforços diplomáticos e genuína vontade política, a paz perseverou. E dura até os dias atuais, sem qualquer sinal de enfraquecimento.

No mês passado, em visita à Colômbia, fiquei inspirado ao ver como as comunidades indígenas da região trabalham estreitamente com as Nações Unidas para construir a paz por meio do fortalecimento de laços sociais. Foi motivador ver como os camponeses, alguns dos quais sofreram por mais de 50 anos com a guerra, estavam entusiasmados com o futuro. Uma senhora contou-me da determinação de seu povo em evitar a volta do conflito.

Estes são apenas exemplos de Paz Sustentável que ocorrem agora em diversas regiões do planeta. Embora o centro de nossas discussões ocorra em Nova York, necessitamos que elas levem em consideração experiências de campo.

Precisamos destacar o que os reais construtores da paz estão fazendo — desde aqueles liderando as tendas da paz para mulheres na Libéria, até os organizadores de cursos de mediação no Quirguistão. É por isso que o Encontro de Alto Nível reunirá atores de diferentes partes do mundo, de setores e da sociedade, permitindo o compartilhamento de perspectivas.

É claro que de nada adianta convencer-se da Paz Sustentável se não houver recursos disponíveis para promovê-la. Precisamos de mais investimento em prevenção. Quando conflitos causam colapso social, tecidos sociais também são destruídos. Prédios e casas são demolidos, sem reparo. Salários deixam de ser pagos. Água para de sair das torneiras.

Gastar em reconstrução é muito mais caro do que priorizar o investimento na prevenção de conflito, sem falar do sofrimento que poderia ser evitado. Isso não faz sentido econômico. Aumentar o investimento em prevenção de conflitos em apenas um pequeno número de países economizaria bilhões de dólares para a comunidade internacional.

É importante lembrar que, no final das contas, a ONU foi criada para a paz. Esta é nossa bandeira. O sucesso da Organização em prevenir conflitos deveria ser a norma — não a exceção.

A ONU deve ser o mediador global da paz.

* Miroslav Lajčák é presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas.


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