ARTIGO: Uma jornada em busca de segurança

Em artigo, a Embaixadora da Boa Vontade da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), refugiada síria e nadadora olímpica Yusra Mardini fala sobre sua decisão de deixar a Síria e sobre a jornada em um bote superlotado ao lado da irmã, também nadadora. Com a ajuda de dois outros refugiados, as duas tiveram de empurrar a embarcação a nado por três horas após o motor falhar. Leia o artigo completo.

Yusra Mardini é Embaixadora da Boa Vontade do ACNUR, refugiada síria e nadadora olímpica. Foto: ACNUR

Yusra Mardini é Embaixadora da Boa Vontade do ACNUR, refugiada síria e nadadora olímpica. Foto: ACNUR

Por Yusra Mardini*

Em 2015, eu tinha 17 anos e era uma estudante do ensino médio sonhando em representar meu país nas competições internacionais de natação. Com os impactos da guerra na Síria cada vez mais próximos, fomos forçados a abandonar nosso lar em Darayya, e minha irmã mais velha e eu decidimos ir para a Europa.

Esperávamos em algum momento no futuro também poder levar nossa mãe e Shahed, nossa irmã mais nova, em segurança. Quando chegou o momento de irmos, Shared nos abraçou chorando, implorando para não partirmos.

A costa da Turquia está apenas a cerca de 10 km da costa norte da ilha grega de Lesbos. Em agosto de 2015, Sara e eu embarcamos em um bote junto com outras 18 pessoas, incluindo famílias com crianças.

Todos sabíamos que muitas pessoas haviam morrido naquela mesma jornada. Todos estávamos igualmente com medo. Mas estávamos igualmente desesperados para escapar da violência que deixávamos para trás. Como a maioria dos barcos que fizeram a mesma travessia, a nosso estava perigosamente superlotado. Nesse trecho aparentemente curto, nosso motor falhou.

O vento soprava forte e nosso barco se chocava contra as ondas. A luz estava indo embora. Sara e eu éramos nadadoras experientes, mas outros no barco não eram. Nos revezamos na água para deixar o barco mais leve, ajudando-o a enfrentar as ondas, a fim de evitar que ele afundasse. Pedimos ajuda, mas ninguém veio.

A lembrança dessa jornada no mar permanecerá sempre comigo.

Nadamos por mais de três horas. Todo mundo estava orando. Por fim, o motor voltou à vida e chegamos à costa.

Eu me contorço com essa história, tentando entender por que conseguimos sobreviver e outras pessoas não. Cada vez que ouço que um grupo se afogou no mar, isso me leva de volta para lá, agarrada à corda do barco, batendo as pernas desesperadamente na água.

Em meu papel como Embaixadora da Boa vontade do ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, tive a oportunidade de conhecer muitas outras pessoas que passaram por suas próprias jornadas desesperadoras enquanto buscavam segurança. Em uma viagem à Sicília com o ACNUR, ouvi histórias de outras pessoas que atravessaram o mar do norte da África até a Itália, histórias cheias de dificuldades, desgosto, tristeza e trauma. Algumas eram de sobrevivência, como a minha.

Conheci uma mulher chamada Rita. Ela fugiu da Nigéria com seu bebê de um ano depois que o marido foi brutalmente assassinado. Rita me contou sobre sua terrível jornada para a Líbia e depois para a Europa. Uma jornada em que ela viu amigos morrerem pelo caminho.

Eu conheci uma garota de 12 anos da Eritreia que foi separada de sua irmã mais velha enquanto atravessava o Mar Mediterrâneo e não a vê desde então. Ela esperava poder se juntar ao irmão na Alemanha. Eu conheci meninas que me disseram terem sido vendidas durante suas jornadas.

Isso partiu o meu coração. Às vezes, não consigo dormir à noite depois do que ouvi.

A ajuda que recebemos na Alemanha me permitiu seguir rapidamente com minha vida, indo atrás do meu sonho de competir nas Olimpíadas. Mas, como destacado em novo relatório do ACNUR, muitas outras crianças ainda enfrentam desafios e riscos, movendo-se rumo à Europa e dentro do continente.

Ninguém escolhe ser um refugiado, deixar tudo para trás por um futuro incerto. Mas, como Sara e eu, enquanto as guerras continuarem, outros se sentirão compelidos a tomar decisões semelhantes. E quando as pessoas que fogem de situações tão violentas e fazem viagens desesperadas chegam à Europa, todos devemos desempenhar nosso papel para garantir que recebam a ajuda e o apoio necessários para reconstruírem rapidamente suas vidas.

Isso significa garantir que as crianças que chegam à Europa tenham acomodações seguras e não sejam mantidas em centros de detenção, que as crianças sejam identificadas como crianças e possam acessar os sistemas destinados a ajudá-las, que as crianças sejam bem informadas sobre as opções disponíveis e que crianças a partir do ponto de chegada em diante, sejam capazes de estudar de forma ininterrupta.

*Yusra Mardini é Embaixadora da Boa Vontade do ACNUR, refugiada síria e nadadora olímpica