ARTIGO: Uma carta de Mossul

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

Em artigo para a imprensa norte-americana, a atriz e enviada especial da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Angelina Jolie, alerta que Mossul, no Iraque, ainda é um cenário apocalíptico de ruínas, mais de um ano após o fim dos confrontos entre governo e Estado Islâmico.

Artista cobra apoio da comunidade internacional para reconstruir a cidade, que foi esquecida pelo mundo, segundo Jolie. A enviada especial questiona por que a recuperação do município não mereceu a mesma atenção que a Europa recebeu na sequência da Segunda Guerra Mundial.

Angelina Jolie durante viagem a Mossul, no Iraque. Foto: ACNUR

Angelina Jolie durante viagem a Mossul, no Iraque. Foto: ACNUR

Por Angelina Jolie, atriz e enviada especial do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR)*

A maior e mais longa batalha urbana disputada no mundo desde a Segunda Guerra Mundial foi travada para retomar a cidade de Mossul do Estado Islâmico. A liberdade teve um preço alto: milhares de civis foram mortos e grandes áreas da cidade iraquiana foram reduzidas a escombros.

Grande parte do leste de Mossul foi poupada, mas o oeste ainda está em ruínas um ano após o fim dos combates. Enquanto estava lá, senti como se as armas apenas tivessem se silenciado ontem.

Se na última década aprendemos algo no Oriente Médio e no Afeganistão, é que se uma “vitória” militar não é seguida por uma ajuda efetiva para garantir a estabilidade, então o ciclo de violência só continua.

Você pensaria, assim, que nada poderia ser mais importante nessa situação do que tentar garantir que o extremismo violento nunca retorne a Mossul. Você esperaria que reconstruir uma cidade que é um patrimônio cultural e que foi referência da diversidade e da coexistência pacífica seria uma prioridade. Você imaginaria que as ruas do oeste de Mossul estariam repletas de equipamentos de reconstrução, desminadores, arquitetos, planejadores, agências governamentais e organizações não governamentais e especialistas em patrimônios mundiais, todos prestando assistência técnica ao Iraque em um grande plano para reconstruir a cidade.

Mas, um ano depois, o oeste de Mossul está abandonado, arruinado e apocalíptico. As paredes que permanecem em pé estão cheias de buracos, marcas deixadas por balas e morteiros. As ruas estão assustadoramente silenciosas: centenas de milhares de antigos residentes da cidade estão vivendo em acampamentos ou comunidades próximas porque não há nada para o que possam voltar. Cadáveres em decomposição ainda estão em meio às ruínas, aguardando a coleta.

Nas ruas que parecem completamente inabitáveis, um pequeno número de famílias em estado de choque está limpando os escombros de suas casas com as próprias mãos, desafiando os explosivos ocultos deixados para trás. Na última semana, uma explosão em uma casa matou e feriu 27 pessoas.

Ainda pior do que a ruína física da cidade é o dano invisível ao emocional de seu povo. Residentes que retornaram perderam as casas em que suas famílias viveram por gerações, seus pertences, suas economias, até mesmo os documentos que provam sua identidade. Comunidades de diferentes crenças, que viviam lado a lado, foram separadas e agora estão divididas.

Um homem com quem eu conversei descreveu com lágrimas nos olhos como ele foi atacado por militantes. Uma criança me contou que viu um homem morto na sua frente. Uma mãe e um pai descreveram a manhã em que um morteiro atingiu sua filha adolescente, arrancando as pernas dela e deixando seus ossos quebrados. Eles a levaram para um hospital e pediram tratamento médico, mas foram dispensados e ela sangrou até a morte em seus braços.

Injustiça e sofrimento dessa magnitude são impossíveis de quantificar. Parece completamente errado e profundamente inquietante que as pessoas que sobreviveram a essas experiências tenham sido deixadas sozinhas e esquecidas. A lacuna entre o que elas merecem e a rapidez com que o mundo as esqueceu é chocante.

Eu fiquei me perguntando se, em outro momento da história, teríamos reagido de maneira diferente ao que aconteceu em Mossul. Teríamos reagido da mesma forma que fizemos após a libertação da Europa com o fim da Segunda Guerra Mundial, inundando-a com assistência para reconstruí-la e recuperá-la?

Pensei também nos sobreviventes dos ataques com armas químicas, nos atentados aos hospitais, nos estupros coletivos e na fome deliberada de civis que são características dos conflitos contemporâneos e perguntei a mim mesma: estamos anestesiados diante do sofrimento humano? Duvidamos tanto da nossa capacidade de agir efetivamente no exterior, à luz da história recente, que começamos a tolerar o intolerável? Somos os culpados por realizar uma forma de triagem moral coletiva, escolhendo seletivamente quando e onde defenderemos os direitos humanos, por quanto tempo e em que grau?

Em Mossul, senti que estava em um lugar que, na última década, acumulou uma série de políticas externas fracassadas. Mas também senti que estava em um lugar que representa a capacidade humana de sobrevivência e renovação e a permanência de valores universais nos corações de muitas pessoas.

Eu penso num pai que conheci e em sua alegria por suas duas filhas poderem ir à escola novamente. Mesmo sem dinheiro e sem um teto para oferecer à própria família, ele conversou como se não houvesse tesouro maior do que o boletim das filhas. Não haveria um símbolo mais profundo da vitória de Mossul do que a possibilidade de todas as garotas voltarem à escola e se saírem bem.

Nenhuma família que conheci no oeste de Mossul me pediu nada. Eles não estão contando com a nossa ajuda. Mossul tem uma história de mais de 3 mil anos, e eu tenho certeza de que seu povo superará esses três anos de terror. Mas quão melhor seria se a recuperação da cidade fosse fruto do nosso esforço conjunto, da mesma forma que consideramos a derrota do Estado Islâmico uma vitória coletiva.

*Artigo publicado originalmente no Huffington Post, em 19 de junho de 2018.


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