ARTIGO: Riscos socioeconômicos e ambientais são ofuscados por crescimento global

Em artigo, o economista-chefe da ONU e secretário-geral adjunto para o desenvolvimento econômico, Elliott Harris, alerta que os indicadores robustos da economia global estão ofuscando crescentes desafios econômicos, sociais e ambientais, que dificultam o progresso em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas.

“Existem vários fatores de risco que podem interromper a atividade e provocar danos significativos às perspectivas de desenvolvimento no longo prazo. No ano passado, as disputas de política comercial se intensificaram, e as vulnerabilidades financeiras aumentaram à medida que a liquidez global se estreitou, lançando uma sombra sobre as perspectivas para 2019 e além”. Leia o artigo completo.

Foto: Wikimedia (CC)/Rafael Matsunaga

Foto: Wikimedia (CC)/Rafael Matsunaga

Por Elliott Harris*

Na superfície, a economia mundial permanece em uma trajetória estável em 2019. Os principais indicadores sugerem que — embora o crescimento global tenha provavelmente atingido o pico — a atividade em todo o mundo continuará a se expandir em um ritmo sólido. Várias economias desenvolvidas estão operando perto de todo o seu potencial, com taxas de desemprego em níveis historicamente baixos.

No entanto, os números não contam a história toda. Abaixo da superfície, surge uma imagem muito mais preocupante da economia mundial. O recém-divulgado relatório “World Economic Situation and Prospects 2019” ilustra como uma combinação de crescentes desafios econômicos, sociais e ambientais dificulta o progresso em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas.

Existem vários fatores de risco que podem interromper a atividade e provocar danos significativos às perspectivas de desenvolvimento no longo prazo. No ano passado, as disputas de política comercial se intensificaram, e as vulnerabilidades financeiras aumentaram à medida que a liquidez global se estreitou, lançando uma sombra sobre as perspectivas para 2019 e além.

Caso tal recessão se materialize, as perspectivas são sombrias. A dívida pública e privada global está em um nível recorde, bem acima do patamar observado no período que antecedeu a crise financeira mundial.

As taxas de juros permanecem muito baixas na maioria das economias desenvolvidas, enquanto os balanços dos bancos centrais ainda estão inchados. Com espaço monetário e fiscal limitado, os formuladores de políticas em todo o mundo terão dificuldades para reagir de forma eficaz a uma crise econômica. E, dado o declínio do apoio a abordagens multilaterais, ações combinadas — como aquelas implementadas em resposta à crise de 2008/2009 — podem ser difíceis de ocorrer.

Mesmo que o crescimento global permaneça robusto, seus benefícios não alcançam os locais em que são mais necessários. As rendas estagnarão ou crescerão apenas marginalmente em 2019 em partes de África, Ásia Ocidental, América Latina e Caribe.

Muitos exportadores de commodities ainda estão lutando com os efeitos do colapso do preço das matérias-primas de 2014-2016. Os desafios são mais agudos na África, onde o crescimento per capita foi de apenas 0,3% nos últimos cinco anos. Dada uma população em rápida expansão, a luta contra a pobreza exigirá crescimento econômico muito mais rápido e reduções drásticas na desigualdade de renda.

E, talvez mais importante, a transição essencial para a sustentabilidade ambiental não está acontecendo rápido o suficiente. A natureza do crescimento atual não é compatível com a manutenção do aumento na temperatura média global bem abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais.

De fato, os impactos da mudança climática estão se tornando mais difundidos e severos. A frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos estão aumentando. Inundações, tempestades, secas e ondas de calor estão prejudicando a infraestrutura vital e causando deslocamentos em larga escala. Os custos humanos e econômicos de tais desastres recaem sobre os países de baixa renda.

Muitos dos desafios que temos diante de nós são de natureza global e exigem ação política coletiva e cooperativa. A retirada rumo ao nacionalismo e à ação unilateral só representarão mais retrocessos para a comunidade global e, especialmente, para aqueles que já correm o risco de serem deixados para trás. Em vez disso, os formuladores de políticas precisam trabalhar juntos para lidar com as fraquezas do sistema atual e fortalecer o quadro multilateral.

*economista-chefe da ONU e secretário-geral adjunto para o desenvolvimento econômico