ARTIGO: respostas bem-sucedidas a epidemias globais colocam as pessoas no centro

Em artigo, a diretora-executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), Winnie Byanyima, afirma que a pandemia da doença provocada pelo novo coronavírus, a COVID-19, está colocando luz sobre as respostas internacionais e nacionais às emergências de saúde — expondo lacunas em nossos sistemas, mostrando nossos pontos fortes e valendo-se da valiosa experiência de resposta a outras ameaças à saúde, como o HIV.

“À medida que o COVID-19 continua a se espalhar pelo mundo, será importante que pesquisas em andamento em ambientes com alta prevalência de HIV na população em geral possam esclarecer mais as interações biológicas e imunológicas entre o HIV e o novo coronavírus.” Leia o artigo completo.

Winnie Byanyima, diretora-executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS). Foto: UNAIDS

Winnie Byanyima, diretora-executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS). Foto: UNAIDS

Por Winnie Byanyima*

A pandemia de COVID-19 está colocando luz sobre as respostas internacionais e nacionais às emergências de saúde — expondo lacunas em nossos sistemas, mostrando nossos pontos fortes e valendo-se da valiosa experiência de resposta a outras ameaças à saúde, como o HIV.

No UNAIDS, sabemos que as pessoas que vivem com HIV terão alguma ansiedade e perguntas sobre o surgimento do vírus que causa o COVID-19. Uma das lições mais importantes a serem tiradas da resposta à epidemia de HIV é ouvir e aprender com as pessoas mais afetadas. O UNAIDS continua a fazer isso.

É importante ressaltar que atualmente não há fortes evidências de que as pessoas que vivem com HIV correm um risco especialmente maior de contrair o COVID-19 ou que, se o fizerem, terão consequências mais graves.

Como na população em geral, pessoas idosas vivendo com HIV ou pessoas vivendo com HIV com problemas cardíacos ou pulmonares podem estar em maior risco de contrair o vírus e de sofrer sintomas mais graves.

Como para a população em geral, as pessoas que vivem com HIV devem tomar todas as medidas preventivas recomendadas para minimizar a exposição e prevenir a infecção.

À medida que o COVID-19 continua a se espalhar pelo mundo, será importante que pesquisas em andamento em ambientes com alta prevalência de HIV na população em geral possam esclarecer mais as interações biológicas e imunológicas entre o HIV e o novo coronavírus.

Entretanto, medidas legítimas para conter o vírus podem ter efeitos adversos não intencionais em pessoas vivendo com HIV.

Quando o surto de COVID-19 começou na China, o UNAIDS realizou uma pesquisa com pessoas vivendo com HIV para ouvir suas necessidades. Um estudo de acompanhamento mostrou que algumas pessoas vivendo com HIV estão começando a enfrentar desafios em relação ao recebimento de medicamentos. Isso está gerando ansiedade.

Em resposta, o UNAIDS vem trabalhando com redes de pessoas vivendo com HIV e funcionários do governo para apoiar entregas especiais de medicamentos nos pontos de coleta designados. Foi estabelecida uma linha direta na China para que as pessoas que vivem com HIV possam continuar expressando suas preocupações enquanto o surto persistir.

Com nossos parceiros, também estaremos monitorando de perto os desenvolvimentos nas cadeias de suprimentos globais para garantir que os insumos médicos essenciais continuem a chegar às pessoas que precisam deles e que as interrupções na fabricação de ingredientes farmacêuticos ativos sejam reduzidas ao mínimo.

O UNAIDS pede aos países que preparem suas respostas ao COVID-19 para garantir que as pessoas que vivem com HIV tenham acesso confiável aos medicamentos do tratamento.

Agora é urgente que os países implementem integralmente as diretrizes atuais de tratamento para o HIV da Organização Mundial da Saúde (OMS), e ofereçam a dispensação de medicação para vários meses, garantindo que a maioria das pessoas que vivem com HIV recebam três meses ou mais de seus medicamentos.

Isso ajudará a aliviar a carga sobre os serviços de saúde caso o COVID-19 chegue e permite que as pessoas mantenham seus tratamentos ininterruptos sem ter que arriscar maior exposição ao COVID-19 para reabastecer seus medicamentos.

A principal lição da resposta à AIDS é que o estigma e a discriminação não são apenas errados, mas também prejudiciais, tanto para a saúde de um indivíduo, quanto para os resultados de saúde pública em geral.

É por isso que o UNAIDS tem apoiado campanhas para reduzir o estigma e a discriminação enfrentados pelas pessoas afetadas pelo COVID-19. Nunca superamos uma ameaça à saúde por meio de estigma e discriminação e nossa resposta ao COVID-19 deve ser guiada por lições aprendidas com a resposta ao HIV.

Isso inclui ouvir as pessoas afetadas pelo surto e estabelecer confiança e comunicação entre as pessoas afetadas e as autoridades de saúde, mesmo antes do aumento da carga da doença.

Nossos maiores ganhos contra o HIV ocorreram em países que reduziram o estigma e a discriminação, incentivando as pessoas a testarem o vírus e procurarem tratamento, se necessário.

Usando os canais de comunicação recomendados por especialistas em saúde pública, vamos ouvir as pessoas afetadas pelo COVID-19 e levar em consideração sua experiência de vida para que possamos fortalecer nossa resposta ao vírus.

As mortes causadas pelo surto de COVID-19 são trágicas e meus pensamentos estão com suas famílias e entes queridos. Mas, se formos inteligentes, a comunidade internacional e os países usarão essa experiência para fortalecer ainda mais os sistemas de monitoramento e fazer investimentos adequados em infraestrutura de saúde, tanto em nível global quanto nacional.

O UNAIDS incentiva os governos e autoridades de saúde de todo o mundo a não adiar a implementação de programas de educação pública para todos os cidadãos sobre as medidas práticas que devem ser tomadas para reduzir a transmissão e a propagação do vírus em nível local.

Uma abordagem centrada nas pessoas é fundamental. Todos devem ter direito à saúde — é a nossa melhor defesa contra epidemias globais.

Winnie Byanyima, diretora-executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS)