ARTIGO: Quinze anos para sempre – José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO

“267 bilhões de dólares em 15 anos é o custo do mutirão para erradicar a fome. Significa um investimento de 160 dólares por ano em cada vida mantida à margem da sociedade. É o preço de um celular. Um custo baixo para um planeta compelido a reinventar-se para sempre nos próximos quinze anos.”

Os próximos 15 anos serão decisivos para o futuro do planeta. Alguns dos grandes desafios do século XXI terão que ser encaminhados nesse intervalo de tempo, em meio a uma profunda transição de ciclo da economia mundial.

Vencer a fome e a pobreza extrema encabeçam esses desafios. A vergonha do nosso tempo enreda dias e noites de quase 800 milhões de vidas humanas que não comem o mínimo necessário para sobreviver. Precisamos de soluções que, ao mesmo tempo, acudam a emergência e removam gargalos estruturais.

Dito de outra forma: a inclusão social deve pautar o desenvolvimento, mas não alcançaremos nem um nem outro se a escolha das ações não for ordenada pelo filtro da sustentabilidade. Evitar um aquecimento global superior a dois graus Celsius até a metade do século é o imperativo. Uma dinâmica dificilmente reversível de desastres ambientais ganhará corpo se esse teto for rompido.

O salto na cooperação internacional e na concepção de desenvolvimento é a variável capaz de evitar esse desfecho.

O nome do jogo é incorporar vidas, recursos e energias hoje desperdiçados, para que se possa harmonizar o imperativo ambiental às demandas irrenunciáveis por direitos e equidade.

Somos a primeira geração que dispõe de condições reais para universalizar a segurança alimentar e nutricional, e talvez a última capaz de evitar uma desordem climática sem volta.

A arquitetura política capaz de suportar essa travessia requer um grau de compromisso inédito. A boa notícia é que ele é complementar à exigência de uma ação internacional convergente para reordenar as expectativas dos mercados globais em nosso tempo.

Sem isso, nem o futuro será sustentável, nem a segurança alimentar e nutricional universalizada, nem o presente concluirá a longa convalescença da crise de 2008, realimentada por recidivas que a supremacia da lógica financeira já mostrou ser incapaz de superar.

Abrir rotas de chão firme em meio à volatilidade é o requisito para conduzir a travessia do anacrônico ao inadiável.

Um passo nessa direção será dado no final de setembro quando a comunidade internacional endossará os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, uma ambiciosa agenda para transformar o mundo nos próximos 15 anos.

Inclui-se nessa repactuação do futuro a erradicação da fome e da pobreza extrema até 2030, o combate e adaptação à mudança climática e a descarbonização da atividade humana com a adoção de meios mais sustentáveis de mover a engrenagem da oferta e da demanda.

As escolhas do consumo hoje são tão importantes para o futuro quanto as da produção.

Além da subnutrição que afeta 800 milhões de indivíduos, outros dois bilhões apresentam deficiências de micronutrientes e 500 milhões padecem de obesidade, um distúrbio que adquiriu centralidade fulminante em países de renda média e alta. O arremate desse conjunto não é menos paradoxal: cerca de um terço de toda comida produzida no planeta é desperdiçado, gerando pressão adicional na produção.

O mundo que se desenha nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável não é um novo endereço cósmico para a humanidade fugir desses impasses.

A solução está no problema: a riqueza persiste longe da justiça, mas a sobrevivência cada vez mais estará condicionada ao imperativo da cooperação.

O futuro será de todos ou não haverá futuro satisfatório para ninguém. Em dúvida, consulte-se o êxodo dos desesperados no Mediterrâneo. Há ali a reafirmação cabal do quão solúveis se tornam as fronteiras quando arriscar-se a atravessá-las é a única opção a sucumbir, do ponto de vista de centenas de milhares de pessoas.

Não estamos falando de um ponto fora da curva, mas de uma curva fora do ponto.

Há mais de 250 milhões de seres humanos acossados pela fome na África e Oriente Próximo.

Mais de 70% da insegurança alimentar no mundo concentra-se na área rural dos países pobres e emergentes. Cerca de 500 milhões de glebas da agricultura familiar formam uma malha planetária de potencial nem sempre realizado, resultando em desconcertante carência junto à terra. Trata-se de um desperdício resgatável com políticas públicas de fomento, capacitação e cooperação internacional.

O novo e o velho tem um encontro marcado nesse percurso: a descarbonização do século XXI passa pela incorporação produtiva dos esquecidos do século XX no comboio de um outro modelo agrícola.

Produtividade ancorada na disseminação de padrões de manejo e tecnologia compatíveis com a preservação de recursos escassos é o passaporte dessa travessia.

O repertório já existe. Falta o desassombro da cooperação capaz de promover a mutação da premência em nova eficiência.

É forçoso começar a marcha pelo primeiro passo, indo da emergência para as estruturas que a produzem.

Foi o que fez o Brasil em 2003 com o Fome Zero, sendo o Bolsa Família o braço social de uma política de segurança alimentar que incluiria mais de uma dezena de ações emancipadoras. Desde o apoio à agricultura familiar que criou uma nova classe média no campo à ampliação da alimentação escolar ajudando a abrir portas ao futuro para milhões de crianças e jovens.

A receita pautada em duas velocidades erradicou a fome no Brasil em menos de uma década. O desafio agora é chegar ao núcleo duro da exclusão e apoiando o anseio de emancipação dos novos contingentes incorporados à cidadania e ao mercado.

Mais que uma referência, a experiência brasileira e de outros países encerra um alerta ao mundo. A prevalecer a caminhada incremental dos últimos anos, o planeta chegará em 2030 com um saldo desastroso de 650 milhões de famintos.

O atalho existe e está precificado: US$ 267 bilhões em 15 anos é o custo do mutirão para erradicar a fome. Significa um investimento de US$ 160 por ano em cada vida mantida à margem da sociedade.

É o preço de um celular. Um custo baixo para um planeta compelido a reinventar-se para sempre nos próximos quinze anos.

José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)

Publicado pelo jornal Valor Econômico – Terça-feira, 08 de setembro