ARTIGO: Quebrando barreiras, alcançando pessoas com serviços de HIV

Em artigo, a diretora-executiva interina do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), Gunilla Carlsson, afirma que a epidemia de HIV pôs em destaque as muitas falhas da sociedade. “Onde há desigualdades, desequilíbrios de poder, violência, marginalização, tabus, estigma e discriminação, o HIV toma conta”, disse.

“Globalmente, novas infecções por HIV entre mulheres jovens (15–24 anos) foram reduzidas em 25% entre 2010 e 2018. Esta é uma boa notícia, mas permanece inaceitável que 6 mil novas infecções por HIV entre meninas adolescentes e mulheres jovens aconteçam toda semana. A saúde sexual e reprodutiva e os direitos das mulheres e jovens ainda são muitas vezes negados”, declarou. Leia o texto completo.

Gunilla Carlsson é diretora-executiva interina do UNAIDS. Foto: UNAIDS

Gunilla Carlsson é diretora-executiva interina do UNAIDS. Foto: UNAIDS

Por Gunilla Carlsson*

A epidemia de HIV pôs em destaque as muitas falhas da sociedade. Onde há desigualdades, desequilíbrios de poder, violência, marginalização, tabus, estigma e discriminação, o HIV toma conta.

A epidemia está mudando: em 2018, mais da metade de todas as novas infecções por HIV estavam entre as populações-chave — profissionais do sexo, pessoas que usam drogas, homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, transexuais e prisioneiros — e seus parceiros.

Globalmente, novas infecções por HIV entre mulheres jovens (15–24 anos) foram reduzidas em 25% entre 2010 e 2018. Esta é uma boa notícia, mas permanece inaceitável que 6 mil novas infecções por HIV entre meninas adolescentes e mulheres jovens aconteçam toda semana. A saúde sexual e reprodutiva e os direitos das mulheres e jovens ainda são muitas vezes negados.

Apesar da escala dos desafios e do caminho que ainda devemos percorrer juntos na resposta à AIDS, estou esperançosa. A resposta à AIDS demonstrou o que é possível quando as pessoas se organizam e reivindicam seus direitos. Em todo o mundo, pessoas vivendo com HIV e a sociedade civil levantaram suas vozes e exerceram liderança.

Quando as comunidades se organizam e as pessoas se capacitam mutuamente, a opressão pode ser substituída por direitos e o acesso aos serviços de HIV pode ser acelerado. Conselheiros entre pares, agentes comunitários de saúde, prestadores de serviços, ativistas e redes de pessoas vivendo ou afetadas pelo HIV têm papéis fundamentais na resposta ao HIV. A liderança da comunidade na resposta à AIDS ajuda a garantir que os serviços de HIV sejam relevantes e alcancem as pessoas que mais precisam deles.

O mundo comprometeu-se a alcançar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Como parte disso, os governos devem proteger e defender os direitos humanos de todos. Como os olhos e ouvidos da resposta à AIDS, as comunidades desempenham um papel crítico em responsabilizar os tomadores de decisão e exigir liderança política.

Para mim, a resposta à AIDS é sobre as pessoas — mulheres jovens que não sabem como manter-se livres do HIV, os homens que não vão ou não podem buscar serviços de cuidado com a saúde, as pessoas transgênero que são discriminadas e as centenas de milhares de pessoas que morrem a cada ano, mesmo que o HIV possa ser prevenido e tratado.

Está em nosso poder coletivo superar as barreiras que muitas vezes impedem a melhoria da saúde — barreiras como taxas e outros custos ocultos, leis prejudiciais, estigma e discriminação, falta de conhecimento e violência baseada em gênero.

Embora um progresso considerável tenha sido feito, existe o risco de perdermos o impulso. Se o mundo estiver no caminho certo para acabar com a AIDS até 2030, deve haver financiamento adequado e previsível para o desenvolvimento. Mas, pela primeira vez desde 2000, os recursos disponíveis para a resposta à AIDS globalmente diminuíram.

Acabar com a AIDS é um investimento que salva vidas e que se paga muitas vezes. O aumento do financiamento nacional e dos doadores é crucial, e o Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária deve ser totalmente financiado em sua próxima reposição.

Temos o conhecimento e as ferramentas de que precisamos para acabar com a AIDS. Não podemos mudar o vírus, mas podemos mudar as desigualdades, os desequilíbrios de poder, a marginalização, os tabus, o estigma e a discriminação. Podemos mudar comportamentos e sociedades.

A mudança de que precisamos exige um forte esforço coletivo de governos e comunidades. O sucesso está sendo alcançado onde as políticas e os programas se concentram nas pessoas, não nas doenças — políticas e programas projetados com as comunidades e que respondem às formas como as pessoas vivem suas vidas.

Com acesso ao conhecimento, direitos e poder, as comunidades são capacitadas para impulsionar a mudança, reduzir o impacto do HIV e acelerar a melhoria da saúde para todos.

*Gunilla Carlsson é diretora-executiva interina do UNAIDS