ARTIGO: Passei pela sua casa na Síria hoje, mas ninguém estava lá

Em carta, o chefe de conteúdo multimídia da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Christopher Reardon, fala sobre sua ida a Homs, na Síria, onde visitou as ruínas do que um dia foi a casa de seu amigo Hani Al Muliam, que hoje vive como refugiado no Canadá.

“Na sua rua, não havia nenhum cachorro ou gato perdido. Nem mesmo pássaros. O único som era o zumbido distante de uma serra cortando metal. Seu bairro, Hani, é uma cidade-fantasma”, contou.

Após oito anos de conflito, metade da população do país saiu de casa. Hoje, 5,6 milhões de sírios ainda estão vivendo como refugiados em países vizinhos. Outros milhões continuam deslocados dentro da Síria. Leia a carta completa.

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Por Christopher Reardon*

Após oito anos de guerra na Síria, visitei a casa onde meu amigo Hani Al Mulia crescera. Como muitas áreas de sua cidade natal, Homs, sua casa estava em ruínas. Naquela noite, escrevi uma carta para ele.

“Querido Hani,

Eu passei pela sua casa hoje, mas ninguém estava lá. Não tinha ninguém em casa. Seus pais não estavam lá para tomar um chá conosco e não havia sinais do seus irmãos ou irmãs. Seus vizinhos também não estavam.

Eu teria batido na porta, mas ela não está mais lá. Não apenas a porta, mas também as dobradiças e a armação que antes a prendia à parede. Os pisos estavam cheios de entulho.

Sinto dizer, mas o lugar estava em ruínas.

Você sabe, é claro, que eu não estou falando sobre a nova casa da sua família no Canadá, a oito fusos horários de distância. Eu me refiro à casa de dois andares onde você cresceu na Síria, aquela que você foi forçado a deixar há seis anos e meio, quando se tornou um refugiado.

Estou em Homs, sua cidade natal. Lembro-me de você ter me contando sobre esse lugar quando te conheci no Líbano, abrigado com outros 1 mil sírios no terreno de algum fazendeiro.

A guerra estava acontecendo aqui, e você falou sobre como, antes de fugir, sua mãe implorava que você não fosse à escola. Ela estava com medo de que você fosse baleado ou tivesse sua garganta cortada assim como seu tio, tia e primo.

Você me contou sobre os amigos que perdeu, as letras de rap que costumavam escrever juntos, assim como sobre os poemas. Você estava desesperado para continuar a estudar, e meus colegas e eu sentimos que sua história precisava ser contada.

Agora, estou aqui para entrevistar pessoas que estão lentamente retornando de outras partes do país depois de lutar por anos para obter segurança.

A maioria deles está voltando para casa e encontrando ruínas. A épica escala de destruição me lembra do oeste de Mossul (no Iraque), onde encontrei uma situação similar no último verão: pessoas cansadas da guerra, traumatizadas por tudo que tinham enfrentado e ansiosas para recomeçar.

Uma família que encontrei hoje falou sobre a dificuldade de encontrar trabalho e abrigo nos últimos anos. Eles retornaram para seu apartamento no distrito de Al-Qusour alguns meses atrás, e ficaram arrasados ao ver que tudo o que deixaram para trás foi saqueado, queimado ou explodido. Detritos enchiam o local do chão ao teto.

Mas, lentamente, eles estão trabalhando na reconstrução. Com a ajuda de meus colegas, Jihad e seus filhos instalaram janelas e portas para manter a família quente e segura. Jihad é um ferreiro e um faz-tudo por vocação e está ansioso para fazer mais.

“Eu vou consertar cada uma dessas casas para vocês”, disse ele, apontando com as mãos calejadas as fachadas desmoronadas. “Apenas me dê as ferramentas.”

Posteriormente, ele e seus filhos me levaram ao telhado para ver pombos. Abdelmalek, de 12 anos, abriu as gaiolas e logo o grupo de 40 pombos estava sobrevoando a paisagem urbana com uma facilidade invejável.

Depois de assistir aos pássaros retornarem aos poleiros, peguei carona até sua vizinhança e caminhei pela rua. Não havia nenhum carro estacionado. Parecia que todos tinham feito as malas e saído de férias. Mas eu sei que não foram férias para vocês.

Após oito anos de conflito, metade do país deixou suas casas. Vocês foram deslocados, frequentemente, mais de uma vez. Hoje, 5,6 milhões de sírios ainda estão vivendo como refugiados em países vizinhos. Outros milhões continuam deslocados dentro da Síria. Um número relativamente pequeno, como você, conseguiu uma segunda chance em outra parte do mundo.

Na sua rua, não havia nenhum cachorro ou gato perdido. Nem mesmo pássaros. O único som era o zumbido distante de uma serra cortando metal. Seu bairro, Hani, é uma cidade-fantasma.

Quando cheguei à sua casa, fiquei na entrada e olhei para dentro, como um super-herói com visão de raio-x. Pensei naquela velha brincadeira nerd: se pudesse escolher um superpoder, preferiria ter a habilidade de ver através das paredes ou de voar? Depois do que eu vi hoje — o arco gracioso dos pombos de Abdelmalek e a visão sombria da sua sala vazia — vou sempre escolher voar.

As portas do interior da casa também desapareceram, inclusive a do banheiro, com os azulejos azuis e brancos agora expostos para a rua. O teto da cozinha desabou, então, eu consegui ver um dos quartos do segundo andar — talvez aquele em que você costumava compor suas músicas e escrever suas poesias. Do lado de fora da janela da sua sala de estar, com uma pilha de vidro quebrados aos meus pés, fiquei de pé e olhei para o vazio.

É isso que acontece em uma zona de guerra. Toda vez que a luta se esgota, catadores chegam e pegam o que sobrou. Não apenas eletrodomésticos, móveis, panelas e frigideiras. Eles retiram a iluminação, as tomadas elétricas, os fios. Eles levam as portas e janelas, e as molduras de metal e madeira que as mantêm no lugar.

Eles usam a madeira para produzir aquecimento ou utilizá-la como combustível para cozinhar. O restante eles trocam ou vendem como sucata, que deve ser vendida para ser derretida. Alguns deles, sem dúvida, procuram lucrar com a desgraça de outras pessoas. Mas a maioria, imagino, está tão desesperada quanto aqueles que fogem, apenas fazendo o que podem para sobreviver.

Mesmo nessa situação, Hani, sua casa em Homs está bem melhor do que aquele lugar em que você estava vivendo quando nos conhecemos cinco invernos atrás. Lembra daquele abrigo improvisado no Líbano, envolto em lençóis de plástico, com apenas o fogão a lenha para mantê-lo aquecido? Sua mãe nos serviu chá, e depois ficamos do lado de fora e olhamos em direção à Síria, um cume nevado tão perto ao qual poderíamos chegar andando.

Considerei entrar na sua antiga casa, pensando que talvez pudesse encontrar algo que você deixou para trás —  algo que você valorizava ou um objeto do dia a dia que poderia te trazer lembranças. Então, me lembrei como você fez questão de pegar as coisas mais importantes antes de fugir: seu certificado escolar, que garantiu que você continuasse a estudar no exílio.

No final, eu não atravessei a porta. Fiz treinamentos de segurança o suficiente para saber que poderia haver danos estruturais ou explosivos ali dentro, como o almofariz que meus colegas e eu encontramos algumas horas antes. Ou talvez eu simplesmente pisasse em um prego enferrujado. Mas, principalmente, me pareceu errado, seria como pisar nos destroços depois de um terrível acidente.

É aquela época do ano de novo, quando a mídia nos lembra que o conflito na Síria começou em 15 de março de 2011. Mas nós dois sabemos que guerras raramente começam ou terminam com tanta precisão. Também sabemos que essa data tem outro significado para a sua família: é o dia em que seu irmão mais novo nasceu. É incrível a rapidez e o quão devagar esses oito anos passaram. Quanta dor eles trouxeram à sua família e também um pouco de alegria.

Hani, por favor deseje um feliz aniversário a Ashraf por mim. E antes que ele sopre as velinhas, lembre-o de fazer um desejo. O maior desejo que ele pode imaginar. Faça um para você também.”

*Chefe de conteúdo multimídia da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Ele e seu time acompanham a história de Hani desde 2013.