ARTIGO: Mulheres, desenvolvimento sustentável e discriminação

Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, a representante-residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil, Katyna Argueta, destaca que a crescente concentração de riqueza e as desigualdades estão minando a luta contra a pobreza, deteriorando as economias e fragmentando as sociedades.

“Essas limitações e exclusões afetam mais intensamente as mulheres do que os homens. As desigualdades de gênero são um componente estruturante da pobreza e um freio ao desenvolvimento.” Leia o artigo completo.

Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, realizada no ano de 2015, em Brasília. Foto: PNUD/Tiago Zenero

Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, realizada no ano de 2015, em Brasília. Foto: PNUD/Tiago Zenero

Por Katyna Argueta*

O mundo está caracterizado por acentuadas desigualdades. Segundo estimativas do Instituto de Pesquisa Credit Suisse (2017), os 10% mais ricos possuem 88% da riqueza mundial. A crescente concentração de riqueza e as desigualdades estão minando a luta contra a pobreza, deteriorando as economias e fragmentando as sociedades. Essas limitações e exclusões afetam mais intensamente as mulheres do que os homens. As desigualdades de gênero são um componente estruturante da pobreza e um freio ao desenvolvimento.

Globalmente, as mulheres ganham 77 centavos de dólar por dólar ganho pelos homens fazendo o mesmo trabalho (PNUD-2019). Ainda que sejam as responsáveis por produzir de 60% a 80% dos alimentos nos países em desenvolvimento, são apenas 13% dos proprietários de terras em todo o mundo.

O impacto, porém, não se restringe à vida delas. Um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) calcula o custo econômico derivado da discriminação de gênero em aproximadamente 12 trilhões de dólares, o que equivale a 16% do atual PIB global. Assim, lutar contra as desigualdades de gênero não é apenas um compromisso ético contra a discriminação. É também um objetivo do desenvolvimento sustentável, com efeitos importantes no desenvolvimento econômico e social e na sustentabilidade.

Já reconhecemos a necessidade de promover capacidades e espaços para as mulheres no mundo do trabalho e da produção, mas isso não é tudo. Também é necessário permitir que elas expressem suas necessidades, defendam seus interesses e ampliem seus campos de atuação tradicionais nos setores público e privado —isto é, que assumam maior protagonismo para legitimar seu lugar na sociedade.

Há cada vez mais evidências de que a liderança das mulheres nos espaços políticos e de tomada de decisão melhora esses processos. Os espaços de natureza política (incluindo organizações partidárias) são áreas em que a promoção das mulheres ainda é uma tarefa pendente.

Em fevereiro de 2019, no âmbito global, apenas 24,3% dos parlamentares nacionais eram mulheres, o que significa que a proporção de mulheres parlamentares aumenta muito lentamente. Em fevereiro de 2019, apenas três países tinham 50% ou mais de mulheres no Parlamento. Em junho do mesmo ano, apenas 11 mulheres eram chefes de Estado, e 12, chefes de governo.

Ainda há um longo caminho a se percorrer para que todos os homens e mulheres possam exercer seus direitos com equidade, contribuindo e melhorando seu próprio desenvolvimento e o de suas sociedades.

Participar do processo de desenvolvimento significa atuar ativamente e se tornar seu protagonista. Essa é uma tarefa coletiva, e as propostas de desenvolvimento devem considerar como contribuir intencionalmente para essa mudança. Não existe um percurso de desenvolvimento mais eficaz do que o empoderamento da mulher. E esse caminho é possível.

*Representante-residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil