ARTIGO: Investimentos precisam ser feitos, aqui e agora, para preservar as vidas de quem gera a vida

Foto: Jean Borges/Pixabay

O Brasil precisa intensificar os esforços para acabar em definitivo com as mortes maternas que são evitáveis, em especial durante a pandemia, que pode provocar impactos na oferta de atendimento médico para mulheres. O alerta é da representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) no Brasil, Astrid Bant, em artigo de opinião publicado nesta quinta-feira (28), Dia Nacional pela Redução da Mortalidade Materna, no jornal Folha de Pernambuco.

Confira a íntegra:

Neste dia 28 de maio, data que marca o Dia Nacional pela Redução da Mortalidade Materna, o Fundo de População da ONU reforça a necessidade do Brasil de intensificar seus esforços para acabar, em definitivo, com as mortes maternas evitáveis, de mulheres que morrem durante o parto ou por complicações relacionadas à gravidez e puerpério. Há urgência neste apelo, principalmente durante a pandemia de COVID-19, ocasião que pode impactar a oferta de atendimento obstétrico, pré-natal e saúde materna, culminando em um possível agravamento do problema.

Ao redor do mundo, 800 mulheres morrem, todos os dias, por complicações relacionadas à gravidez, parto e puerpério. É como se cinco aviões cheios de mulheres caíssem, todos os dias, e todas elas morressem. No Brasil, a cada 100 mil crianças que nascem, 59,1 mulheres morrem, conforme dados recentes do Ministério da Saúde. No Chile, por exemplo, a cada 100 mil crianças nascidas, a taxa de mulheres que morrem é de 22, menos da metade.

É preciso observar que, na realidade brasileira, mais da metade dos casos de mortes maternas são consequências de intervenções mal executadas, omissões, negligência, tratamento incorreto ou uma cadeia de eventos relacionadas a essas causas. Em 2018, 67% das mortes ocorridas foram em decorrência desses fatores. Mulheres que morreram por hipertensão, hemorragia, infecção puerperal e aborto. Mulheres que, com atendimento pontual e de qualidade, poderiam não ter morrido.

Essa é uma realidade que está intimamente ligada à desigualdade social e racial. É uma calamidade que tem endereço e cor. Do total, por exemplo, 65% das vítimas eram mulheres pretas e pardas.

Para evitar essas mortes, basta um atendimento pré-natal de qualidade, que identifique casos de risco aumentado e possibilite intervenções adequadas e a tempo, e serviços obstétricos e de parto acessíveis, mesmo em regiões remotas. Dificuldades em proporcionar esses serviços resultam em tragédias instantâneas, que dilaceram famílias e impactam gerações inteiras.

Durante a pandemia de COVID-19, essas necessidades não param. Mulheres continuam engravidando e dando à luz. Os serviços precisam continuar funcionando. No entanto, o Fundo de População da ONU destaca que há risco de restrição no atendimento pré-natal, com redução do número de visitas ao médico ou visitas executadas sem as condições adequadas. Isso pode ocorrer em decorrência da sobrecarga do sistema de saúde, com recursos humanos e financeiros direcionados para atender a emergência, ou mesmo por receio das próprias gestantes em comparecer às unidades de saúde.

A pandemia também pode fazer com que partos sejam realizados sem a adequada assistência, levando a condições inseguras e eventuais desfechos delicados, com riscos para a mãe e o bebê. A data de hoje é um alerta, sobretudo, para que essa crise de saúde mundial não culmine em novas tragédias.

Diminuir a mortalidade materna é um dos compromissos feitos pelo Brasil para 2030, por meio dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Temos apenas uma década pela frente. Os investimentos precisam ser feitos, aqui e agora, para preservar as vidas de quem gera a vida.