ARTIGO: Guerra — o mal que os homens fazem

Em artigo de 1999 para a UNESCO, o filósofo franco-búlgaro Tzvetan Todorov alertava para a dificuldade de indivíduos e sociedades encararem acontecimentos trágicos da história, como a Segunda Guerra Mundial. O pensador aponta que lembrar os fatos é um dever e precisa servir à causa da justiça, em vez de justificar novas violências.

Crianças sobreviventes do Holocausto em Auschwitz. Imagem extraída de um filme produzido pelas tropas soviéticas durante a libertação do campo de concentração e extermínio na Polônia. A obra audiovisual foi gravada por Alexander Voronzow e colegas da unidade de filmes da Primeira Frente Ucraniana do Exército Vermelho. Foto: Arquivo Estatal do Filme e Fotografia Documentários de Belarus

Crianças sobreviventes do Holocausto em Auschwitz. Imagem extraída de um filme produzido pelas tropas soviéticas durante a libertação do campo de concentração e extermínio na Polônia. A obra audiovisual foi gravada por Alexander Voronzow e colegas da unidade de filmes da Primeira Frente Ucraniana do Exército Vermelho. Foto: Arquivo Estatal do Filme e Fotografia Documentários de Belarus

A memória coletiva tem que ser livre para se acertar com a mágoa e moldar um futuro melhor.

Por Tzvetan Todorov (1939-2017), filósofo e ensaísta franco-búlgaro*

“Temos de lançar um véu sobre os horrores do passado”, disse Winston Churchill não muito tempo depois do final da Segunda Guerra Mundial. Por volta da mesma época, o filósofo norte-americano George Santayana emitiu um alerta, frequentemente repetido desde então, sobre o efeito de “os que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo”. Para aqueles de nós que vivemos a história dolorosa do século 20, qual desses conselhos é o mais útil? O que deveríamos fazer — esquecer ou lembrar?

As duas operações são contraditórias apenas aparentemente. Lembrar é sempre, por definição, uma interação entre esquecer (apagamento) e a preservação completa do passado — algo que é virtualmente impossível. O escritor argentino Jorge Luis Borges cria um personagem, no seu conto Funes, o memorioso, que se lembra de cada detalhe da sua vida. É uma experiência aterrorizante.

A memória seleciona dentre o passado o que parece importante para o indivíduo ou a comunidade. Ela organiza essa seleção e grava seus valores sobre ela. As pessoas preferem se lembrar das páginas gloriosas da sua história em vez dos seus episódios vergonhosos, e indivíduos frequentemente tentam, sem sucesso, libertar-se da memória de um evento traumático.

Como viver com memórias dolorosas

Por que precisamos lembrar? Porque o passado é o próprio cerne da nossa identidade individual ou coletiva. Se não tivermos um senso da nossa própria identidade e a confirmação da nossa existência que ele oferece, nós nos sentimos ameaçados e paralisados. A necessidade de uma identidade é, portanto, bastante legítima. Temos de saber quem nós somos e a que grupo pertencemos. Mas as pessoas, como os grupos, vivem entre outras pessoas e outros grupos. E logo, não é suficiente dizer simplesmente que todos têm o direito de existir. Temos de considerar como o nosso exercício desse direito afeta a existência dos outros. Na arena pública, nem todos os lembretes do passado são dignos, e os que encorajam a vingança são sempre suspeitos.

As vítimas do mal podem, nas suas vidas pessoais, ser tentadas a buscar esquecer a experiência completamente, eliminando memórias dolorosas ou humilhantes. Para uma mulher que foi estuprada, por exemplo, ou uma criança que foi vítima de incesto, não seria melhor agir como se esses eventos traumáticos nunca tivessem acontecido? Sabemos pelas reações das pessoas que isso é desaconselhado porque tal recusa total em lembrar é perigosa. Memórias reprimidas permanecem mais vivas do que nunca e provocam neuroses severas. É melhor aceitar um passado angustiante do que negá-lo ou reprimi-lo. O importante é não ir ao outro extremo e se atormentar infinitamente com isso, mas se distanciar gradualmente disso e neutralizá-lo, de modo a domá-lo.

É assim que o luto funciona em nossas vidas. Primeiro, recusamos a aceitar a perda que vivemos e sofremos terrivelmente pela ausência repentina de alguém amado. Depois, embora sem nunca deixar de amá-los, nós lhes damos um status especial — eles não estão nem ausentes nem presentes como antes. Um processo de distanciamento se desdobra e apazigua a dor.

Um ato de fé no futuro

As comunidades são raramente tentadas a esquecer completamente os acontecimentos maus que lhes sobrevieram. Os afro-americanos hoje não buscam esquecer o trauma da escravidão que seus ancestrais sofreram. Os descendentes de pessoas que foram fuziladas e queimadas até morrer em Oradour-sur-Glane1**, em 1944, não querem que esse crime seja esquecido. Na verdade, eles querem preservar as ruínas da cidade deixadas pelo acontecimento.

Também aqui, como é o caso com indivíduos, pode-se esperar que as alternativas infrutíferas de apagar totalmente o passado ou ponderá-lo infinitamente poderiam ser evitadas. O sofrimento deve ser inscrito na memória coletiva, mas apenas de modo que possa ampliar a nossa capacidade de encarar o futuro. É para isso que servem perdões e anistias. Eles são justificados quando crimes são publicamente admitidos, não para garantir que eles sejam esquecidos, mas para entender que o que passou passou e para dar ao presente uma nova chance. Os israelenses e palestinos não estavam certos quando se encontraram em Bruxelas, em março de 1998, e observaram que “apenas para começar a falar uns com os outros, temos de deixar o passado no passado”?

Quando Churchill pediu que um véu fosse colocado sobre os horrores do passado, ele estava correto de uma certa maneira, mas o seu conselho precisa ser qualificado por todos os tipos de condições. Ninguém deveria impedir que a memória seja reconquistada. Antes de virarmos a página, disse o futuro presidente búlgaro Jeliu Jelev, após a queda do comunismo, devemos primeiro lê-la. E esquecer significa muitas coisas diferentes para os algozes e suas vítimas. Para essas, é um ato de generosidade e fé no futuro; para os primeiros, é fruto de covardice e de uma recusa em aceitar responsabilidade.

No entanto, lembrar o passado é suficiente para impedi-lo de se repetir, como Santayana parece dizer? Longe disso. Na verdade, acontece o oposto normalmente. O agressor de hoje encontra uma justificativa para as suas ações num passado em que ele foi vítima. Os nacionalistas sérvios buscaram justificativas olhando bem lá atrás — para a sua derrota militar para os turcos no Kosovo, no século 14.

Os franceses justificaram a sua beligerância em 1914 referindo-se à injustiça que haviam sofrido em 1871. Hitler encontrou razões no humilhante Tratado de Versalhes, ao final da Primeira Guerra Mundial, para convencer os alemães a embarcar numa Segunda Guerra. E após a Segunda Guerra Mundial, o fato de que os franceses foram vítimas da brutalidade nazista não os impediu — em muitos casos, as mesmas pessoas que se uniram ao exército após lutarem na resistência — de atacar e torturar civis na Indochina e na Argélia. Os que não esquecem o passado também correm o risco de repeti-lo invertendo o seu papel: não há nada que possa impedir uma vítima de se tornar, mais tarde, um agressor. A memória do genocídio que os judeus sofreram é vívida em Israel, contudo os palestinos são, por sua vez, vítimas de injustiça.

Uma pessoa ou comunidade pode precisar se apropriar da memória de um herói passado ou — o que é mais surpreendente — de uma vítima, como um modo de afirmar seu direito de existir. Isso serve aos seus interesses, mas tampouco os tornam mais virtuosos. Isso, na verdade, pode cegá-los para injustiças no presente pelas quais eles são responsáveis.

Os limites desse tipo de lembrança, que enfatiza os papéis do herói e da vítima, foram ilustrados durante as cerimônias realizadas em 1995 para marcar o 50º aniversário do bombardeio de Hiroshima e Nagasaki. Nos Estados Unidos, as pessoas só estavam interessadas em recordar o papel heroico dos EUA em derrotar o militarismo japonês. No Japão, a atenção se concentrou nas vítimas das bombas atômicas.

Mas há muito a ser dito para se erguer do próprio sofrimento e do sofrimento dos parentes e se abrir para o sofrimento dos outros e não reivindicar um direito exclusivo ao status de ex-vítima. De maneira semelhante, aceitar os erros que nós mesmos cometemos — mesmo que eles não sejam tão sérios quanto os erros que cometeram contra nós — pode nos transformar para melhor.

O passado não tem direitos próprios. Ele deve servir ao presente, assim como o dever de lembrar deve servir à causa da justiça.

*Publicado originalmente em dezembro de 1999, no Courier da UNESCO

**Vila francesa onde a SS alemã massacrou 642 pessoas durante a Segunda Guerra Mundial


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