ARTIGO: Fórum Urbano Mundial destaca ação das cidades contra mudanças climáticas

Em artigo, a diretora-executiva adjunta do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Joyce Msuya, falou sobre os temas debatidos no Fórum Urbano Mundial, realizado este mês em Abu Dhabi, entre os quais o papel das cidades no combate às mudanças do clima.

“Há uma liderança incrível de cidades alcançando a neutralidade de carbono e cidades assumindo compromissos ambiciosos em elementos críticos nessa direção, de edifícios de neutralidade de emissões líquida até compromissos de energia 100% renovável ​​e similares.” Leia o artigo completo.

Participantes do Fórum Urbano Mundial em Abu Dhabi. Foto: PNUMA

Participantes do Fórum Urbano Mundial em Abu Dhabi. Foto: PNUMA

Por Joyce Msuya*

A ligação entre o patrimônio cultural e natural, e o papel que os dois podem desempenhar no combate às mudanças climáticas, é muito mais profunda.

Obrigada aos Emirados Árabes Unidos por nos receber na bela cidade de Abu Dhabi. Também sou profundamente grata ao ONU-HABITAT por criar um espaço que reúna pessoas e diferentes partes interessadas que reconhecem o papel principal que as cidades desempenham na luta para combater o aquecimento global.

Há uma liderança incrível de cidades alcançando a neutralidade de carbono e cidades assumindo compromissos ambiciosos em elementos críticos nessa direção, de edifícios de neutralidade de emissões líquida até compromissos de energia 100% renovável ​​e similares.

Os seres humanos há muito tempo inventam maneiras engenhosas de se proteger do clima. Na região quente e desértica do Golfo, os arquitetos costumavam construir apanhadores de vento nos telhados das pessoas. A ventilação canalizava a brisa e esfriava o interior das casas das pessoas.

A casas-pátio é um projeto de construção tradicional de muitas das zonas de clima quente, pois fornece resfriamento passivo pela ventilação natural, sombreamento e luz solar direta reduzida. Isso foi muito antes do advento dos aparelhos de ar condicionado movidos a combustíveis fósseis.

Arquitetos modernos estão começando a entender a sabedoria das culturas antigas. Com base nas técnicas indianas usadas há 1.500 anos, um Instituto de Moda no norte da Índia continua seis graus mais frio no seu interior do que a temperatura externa, sem a necessidade de ar-condicionado.

No México, uma universidade está usando blocos de terra compactados e outros recursos ecológicos para construir edifícios que reduzem a quantidade de energia consumida em mais de 50%. E Medellín, na Colômbia, reduziu as temperaturas em mais de 2°C, transformando suas selvas de concreto em florestas urbanas.

Além de edifícios, existem bons exemplos em relação ao planejamento urbano. As antigas medinas do noroeste da África aperfeiçoaram o sombreamento natural, com seu sistema de ruas estreitas, com diversos cruzamentos.

Precisamos voltar a valorizar e modernizar o conhecimento e as técnicas tradicionais, reconhecendo seu valor cultural e adaptando-o às demandas modernas. O PNUMA é o anfitrião do Secretariado da Cool Coalition.

Analisar o design de edifícios e a formação urbana, bem como soluções baseadas na natureza, faz parte da abordagem AVOID, SHIFT, IMPROVE (evitar, mudar, melhorar) que esta Coalizão está adotando para enfrentar o desafio da demanda de refrigeração em expansão ligada às mudanças climáticas globais.

Na COP climática de Madri, no ano passado, uma sessão organizada pela Aliança Global para Edifícios e Construções destacou a importância dos governos nacionais e locais usarem seus prédios históricos para dar o exemplo e demonstrar opções e benefícios da renovação profunda.

A ligação entre o patrimônio cultural e natural — e o papel que os dois podem desempenhar no combate às mudanças climáticas — é muito mais profunda.

O estilo de vida urbano muitas vezes leva a grandes pegadas ambientais. Cerca de 75% da energia e dos recursos naturais do mundo são consumidos nas cidades. Aproximadamente 60% de todo o lixo e 70% das emissões de gases de efeito estufa vêm de centros urbanos. Prevê-se que as emissões diretas e indiretas de ar condicionado e refrigeração aumentem 90% até 2050 em relação aos níveis de 2017.

Já existem sinais promissores de que as cidades preparadas para o futuro estão começando a mudar de cultura, à medida que buscam aliviar as pressões exercidas sobre o mundo natural.

Na África, a proibição do Ruanda sobre sacolas plásticas reduziu enormemente a poluição plástica. Com nossa Iniciativa Global sobre Cidades com Eficiência de Recursos, apoiamos as cidades a avaliar seu metabolismo — uma maneira de ajudar a definir prioridades e passar do gerenciamento de resíduos para a circularidade.

Da mesma forma, cidades como Paris e Amsterdã estão afastando seu povo da dependência de carros. Com nosso programa “Compartilhe a estrada”, fornecemos suporte às cidades para promover o uso de opções de transporte não motorizado.

Muito mais precisa ser feito se queremos desencadear a mudança cultural radical necessária.

Voltemos ao meu exemplo no setor de habitação, de edifícios e de construção civil. Enquanto enfrentamos um déficit habitacional qualitativo e quantitativo em muitas cidades ao redor do mundo, vemos que as melhorias na eficiência energética realizadas até o momento foram retomadas pelo aumento no espaço físico.

Este é um desenvolvimento que conhecemos muito bem do setor de transportes, onde consistentemente as melhorias na eficiência de combustível foram corroídas por mais veículos na estrada e mais quilômetros percorridos.

A demanda global de energia nas nossas casas e no setor de construção residencial deve aumentar em 50% nos próximos 40 anos. Portanto, a forma como projetamos, construímos, alimentamos e adaptamos as cidades do futuro, e o modo como fazemos melhor uso do espaço, desempenhará um papel importante no enfrentamento da crise climática.

As mudanças na cultura urbana de que tanto precisamos tocam em tudo, não apenas na habitação e na mobilidade, mas também nos alimentos que comemos até os fundamentos econômicos da vida moderna.

As cadeias de suprimentos de alimentos curtas, a agricultura urbana e as dietas à base de vegetais terão um papel importante nessa transformação. O mesmo acontece com a mudança para uma economia circular, uma mudança que promete reduzir as emissões de gases de efeito estufa, em alguns setores, em 85% até 2050.

Como diz o secretário-geral da ONU, precisamos “abraçar a transformação que nos levará a um mundo neutro em carbono até 2050”.

Aceitar essa transformação não deve ser difícil, um mundo com um clima estável, onde as cidades têm ar puro, melhor saúde, alimentos mais frescos e espaços mais verdes e agradáveis, está ao nosso alcance. A parte difícil será explicar aos nossos filhos por que escolhemos não agir.

*Diretora-executiva adjunta do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)