ARTIGO: Carta de um campo de refugiados em Bangladesh

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

A coordenadora para resposta de emergência da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Joung-ah Ghedini-Williams, está em Bangladesh, país que recebeu nos últimos meses cerca de 620 mil refugiados rohingyas, vítimas de perseguições em Mianmar. Ela escreveu um depoimento após passar um dia no campo de Kutupalong, em Cox’s Bazar.

“Imagine o horror de tentar sobreviver, tentar alimentar seus filhos e manter algum senso de conforto enquanto você está perdendo seus entes queridos, ou observando sua casa sendo incendiada e reduzida a cinzas. Esta é a realidade de algumas pessoas que conheci aqui em Bangladesh”. Leia o depoimento completo.

Joung-ah Ghedini-Williams entrevista refugiados rohingya em centro de transição do ACNUR em Bangladesh. Foto: ACNUR/Roger Arnold

Joung-ah Ghedini-Williams entrevista refugiados rohingya em centro de transição do ACNUR em Bangladesh. Foto: ACNUR/Roger Arnold

Por Joung-ah Ghedini-Williams*

Imagine o horror de tentar sobreviver, tentar alimentar seus filhos e manter algum senso de conforto enquanto você está perdendo seus entes queridos, ou observando sua casa sendo incendiada e reduzida a cinzas. Esta é a realidade de algumas pessoas que conheci aqui em Bangladesh.

Muitas são mulheres, tentando o melhor que podem para seus filhos assustados e angustiados, embora elas próprias estejam lutando para dar algum sentido para tudo que aconteceu nos últimos meses.

Ontem, uma mãe perdeu sua filha. Ela estava tentando ser forte diante de seus outros filhos, mas todos estavam claramente abalados. Eles já viviam há muito tempo com medo, sem nunca saber se poderiam ser as próximas vítimas da violência que tirou a vida de tantos de seus parentes e vizinhos.

Várias mulheres me disseram ter testemunhado o sequestro de jovens meninas e a prisão de pais, filhos e irmãos que nunca mais foram vistos. Conheci muitas outras no centro de transição do ACNUR, onde os recém-chegados mais vulneráveis podem permanecer por até três dias antes de serem transferidos. Idosos, pessoas com deficiência, mulheres grávidas, mães com bebês e crianças desnutridas ou doentes. Existem várias famílias que sobreviveram a um horrível acidente de barco. Das 42 pessoas a bordo, quatro foram mortas. Vinte e dois outros ficaram feridos o bastante para precisar de tratamento hospitalar.

Eu também vejo colegas do ACNUR, obstinados e dedicados, que me deixam orgulhosa desta organização na qual continuo acreditando após 20 anos de serviço. As equipes do ACNUR estão na linha de frente, nas fronteiras, nos campos de refugiados e nos centros de transição, desde o início da manhã até tarde da noite.

Conheço colegas que saíram esta manhã às 4h30 para chegar às áreas fronteiriças. Ontem à noite, eu estava no telefone recebendo informações até quase meia-noite. Estamos fazendo de tudo para alcançar todas as pessoas que precisam de nossa assistência, até mesmo as que estão no mais distante dos campos onde os veículos não conseguem chegar.

Hoje, andei por sete quilômetros e subi o equivalente a 16 andares de escadas. Um colega me contou sobre um dia que percorreu mais de 18 quilômetros. Foi encarregado de identificar famílias vulneráveis e garantir que todos com necessidades específicas acessassem serviços essenciais. Ele entrevistou quase uma centena de famílias naquele dia e voltou com os pés doloridos, mas com um sorriso orgulhoso de seus esforços.

Colegas de vários países e origens – ex-banqueiros, professores, engenheiros de várias religiões e países – estão trabalhando juntos incansavelmente para planejar novos assentamentos para as famílias recém-chegadas. Não importam as condições climáticas, chuva pesada ou sol brutal, eles estão fazendo tudo, desde estradas no centro de trânsito a sessões de terapia para uma dúzia de mulheres rohingya. Essas mulheres sobreviveram à violência sexual e são fortes o suficiente para compartilhar suas histórias.

Conheci diversas corajosas famílias rohingya que têm apenas um pouco mais do que as roupas do corpo, o peso de seu trauma, da perda, e as dolorosas lembranças da violência que as forçou a fugir de suas casas.

No entanto, à medida que o sol se põe na recente extensão do campo de Kutupalong, estou cercada pelo som de batidas de martelo, serrotes, conversas e risos animados enquanto as famílias constroem novas casas com bambu, cabos e lonas de plástico que lhes fornecemos.

Vejo crianças empinando pipas que fizeram com sacos de plástico e pedaços de galho. Sinto o aroma dos jantares preparados para as famílias compartilharem, usando os kits de cozinha que o ACNUR oferece. Sei que pode ser difícil explicar a importância de tais utensílios tão simples em uma zona de emergência, mas, sem eles, como as pessoas cozinhariam? Como as pessoas começariam a reconstruir suas vidas?

Quero deixar claro: há ainda muito trabalho a ser feito. As necessidades são enormes. Mas isso simplesmente significa que há muito o que podemos fazer, que há tantas pessoas que podem ser ajudadas.

Os sorrisos que vejo nos rostos das crianças mostram essa simples verdade: todos os esforços e cada doação fazem a diferença. O ACNUR está recebendo doações para ajudar aos refugiados rohingya pelo link: goo.gl/GyvGah.

*Coordenadora para resposta de emergência da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR)


Mais notícias de:

Comente

comentários