ARTIGO: A experiência internacional com os impactos da COVID-19 na educação

Em meio à pandemia de COVID-19, a principal atenção está nos desafios impostos aos sistemas de saúde, mas os sistemas de educação também são diretamente afetados. Em pouco mais de três semanas, cerca de 1,5 bilhão de estudantes em pelo menos 174 países ficaram fora da escola em todo o mundo.

No Brasil, todas as escolas estão temporariamente fechadas e provavelmente continuarão assim por algum tempo. Como podemos aprender com as experiências de como os outros países estão lidando com isso?

Leia artigo publicado na Folha de S.Paulo pelo coordenador da área econômica do Banco Mundial para o Brasil, Rafael Muñoz, que já trabalhou para a instituição na Ásia e na África.

Mais de 1,5 bilhão de estudantes em 165 países foram afetados pelo fechamento de escolas devido à COVID-19. Foto: UNESCO

Mais de 1,5 bilhão de estudantes em 174 países foram afetados pelo fechamento de escolas devido à COVID-19. Foto: UNESCO

Por Rafael Muñoz*

A propagação vertiginosa da pandemia de Covid-19 tem imposto ao mundo a tomada de medidas importantes por parte dos governos de todos os países.

A principal atenção está nos desafios impostos aos sistemas de saúde, é claro, mas os sistemas de educação também são diretamente afetados: em pouco mais de três semanas, cerca de 1,5 bilhão de estudantes em pelo menos 174 países ficaram fora da escola em todo o mundo.

No Brasil, todas as escolas estão temporariamente fechadas e provavelmente continuarão assim por algum tempo. Como podemos aprender com as experiências de como os outros países estão lidando com isso?

Fechar temporariamente as escolas, além de proteger crianças e jovens, reduz as chances de que eles se tornem vetores do vírus para sua família e comunidade, sobretudo para os idosos e demais grupos de risco, visto que em grade parte dos lares brasileiros há convívio entre eles.

Porém, o fechamento das escolas pode significar a interrupção do processo de aprendizagem principalmente para crianças com alta vulnerabilidade. A ausência de interação entre estudantes e professores rompe o processo de aprendizagem e se a pandemia durar muitas semanas, não será possível recuperar o tempo perdido quando as escolas reabrirem. Também se eleva o risco de aumentar as taxas de abandono escolar, especialmente entre os alunos de famílias em situação de alta vulnerabilidade. Isso poderia trazer uma queda significativa no nível de capital humano futuro.

A interrupção das aulas também afeta a rede de proteção social. Muitas crianças têm na merenda escolar a única refeição regular e saudável. Da mesma forma, muitas mulheres, por serem frequentemente as principais responsáveis pelo cuidado infantil, acabam por ficar sobrecarregadas ao acumularem trabalho e cuidado dos filhos em tempos de pandemia.

Para lidar com o fechamento das escolas e mitigar os impactos negativos na vida dos estudantes, a maioria das secretarias estaduais e municipais do Brasil tem tomado diversas medidas, que incluem ensino à distância e a distribuição de alimentos para as famílias dos estudantes. O governo federal anunciou semana passada que a carga horária deverá ser cumprida, mas não necessariamente nos tradicionais 200 dias letivos.

Quando olhamos para as estratégias adotadas pelos países para lidar com o fechamento temporário vemos que o foco tem sido dado na educação à distância, não somente via Internet, mas por outros canais como TV, rádio e materiais impressos.

Independentemente do meio escolhido, a substituição de aulas presenciais por aulas a distância deve considerar a enorme desigualdade de acesso a ferramentas de aprendizagem virtual que existe no Brasil, incluindo a infraestrutura e familiaridade dos professores com as ferramentas tecnológicas de aprendizagem a distância existentes anteriormente.

Outras desigualdades devem ser também consideradas, como o nível socioeconômico dos pais, diferenças significativas de conectividade entre as regiões brasileiras e entre os meios rural e urbano. Esta assimetria também pode ser observada entre escolas privadas e públicas.

Uma implementação efetiva e equitativa do ensino a distância deve considerar todos esses aspectos. Por exemplo, enquanto a China, que já possui uma robusta estrutura de conectividade, tem sido bem-sucedida na oferta de ensino a distância, países com baixa cobertura de Internet, celulares ou televisões, como o Vietnã, têm tido dificuldade para avançar nessa agenda.

A capacidade e experiência de professores e gestores no uso da tecnologia para aprendizagem é um fator crítico. A Espanha, por exemplo, solicita aos professores que preparem o conteúdo e ofereçam aulas online. Em Singapura, formações estão sendo oferecidas para docentes sobre como desenhar estratégias pedagógicas para ministrar aulas através da Internet. A evidência brasileira mostra que mesmo em estados com mais recursos e com mais escolas com acesso à Internet, muitos professores possuem pouca familiaridade com o uso da Internet no ensino.

A expansão do ensino a distância exige planejamento para evitar uma exacerbação das desigualdades de aprendizagem dentro e entre as redes de educação. Uma transição repentina para ensino a distância em escala sem considerar a capacidade das escolas em ofertar aulas de qualidade e a dos alunos em ter a estrutura e o apoio necessários para absorver este material tende a reforçar as já elevadas desigualdades de aprendizado no Brasil.

É crucial o apoio efetivo aos docentes na transição para o ambiente de ensino a distância, com formação continuada e uso de instrumentos de monitoramento das atividades realizadas pelos alunos.

Além disso, as ações devem considerar distintos caminhos de ensino a distância com aulas virtuais por meio da Internet, TV, rádio, além da distribuição de materiais impressos para os alunos. Os gestores também podem considerar formas de habilitar a conectividade e o acesso a dispositivos que já estão disponíveis nos domicílios, como celulares, ou computadores e tablets.

Para a educação a distância ser mais ágil, efetiva e equitativa na aprendizagem seria importante se concentrar na utilização de aplicativos já existentes para celulares e incentivar o compartilhamento de informações.

Também seria importante focar em aplicativos e plataformas que melhor se adequem ao contexto educacional e social de cada região, e trabalhar em parcerias com provedores de internet locais pode ajudar a reduzir custos de disseminação dos materiais pedagógicos.

Ciclos de formação continuada para professores, coordenadores pedagógicos e diretores podem ajudar a estruturar aulas que promovam o engajamento dos estudantes a distância.

Incentivar o envolvimento dos pais na educação dos filhos é outro ponto fundamental para mitigar os impactos nocivos da pandemia na aprendizagem. Chamadas de conscientização em rádio e televisão, reforçando a importância do apoio dos pais na aprendizagem dos filhos, pode ser uma boa estratégia.

Ainda que pareça cedo para isso, é importante iniciar também o planejamento das ações pós-pandemia de forma a mitigar possíveis desigualdades sociais e de aprendizado geradas pelo confinamento, além de ações de busca ativa dos alunos que não retornarem para a escola.

É importante estabelecer estratégias para reabertura das escolas considerando zonas de maior ou menor risco e criar protocolos de higienização dos espaços antes da sua reocupação pelos estudantes.

Em termos pedagógicos, é crucial avaliar quais práticas do ensino a distância podem ser mantidas após a reabertura das escolas, se beneficiando da estrutura posta em funcionamento durante a pandemia.

Também é importante estabelecer ações centralizadas em grupos de risco, como jovens com alto risco de evasão e famílias com alta vulnerabilidade social, além de dar suporte a famílias carentes para reduzir o choque econômico derivado da pandemia que, também, afeta o retorno das crianças à escola.

Neste momento em que a educação se reorganiza para enfrentar a crise, quem sabe possamos tirar várias lições sobre como assegurar educação de qualidade com aprendizagem para todas as nossas crianças e jovens.

*Coordenador da área econômica do Banco Mundial para o Brasil, já trabalhou para a instituição na Ásia e na África.

** Esta coluna foi escrita em colaboração com André Loureiro, economista sênior do Banco Mundial, e Ildo José Lautharte Junior, economista do Banco Mundial.