Arte e terapia ajudam menino colombiano a superar traumas da guerra civil

Menino colombiano de seis supera traumas pela arte no Centro Rivo Résilience de Montreal, no Canadá. Foto: ACNUR / Giovanni Capriotti

“Ele tinha medo e estava sempre ansioso. Ele não conseguia ficar perto de pessoas e nem mesmo brincar com crianças da sua idade”. Era assim que o colombiano Miguel*, da região de Nariño, se comportava aos dois anos de idade, recorda sua mãe, Maria*, que lembra ainda dos ataques de raiva e autoflagelação do menino.

Morando no sudeste da Colômbia, a família vivia em meio à guerra civil que já dura 52 anos e que já deslocou 7 milhões de pessoas dentro do país. A avó de Miguel foi uma das vítimas da violência dos rebeldes. Ela foi assassinada quando Maria ainda estava grávida da criança.

Pouco antes de completar três anos, o garoto deixou a nação colombiana com a mãe e os dois irmãos. Mas as aflições que atordoavam Miguel não o abandonaram. Em Quito, não havia assistência psicológica para tratar o garoto, e foi apenas em 2014 — quando a família foi reassentada no Canadá — que o jovem começou a receber cuidados de saúde mental adequados.

Em Montreal, ele foi diagnosticado com distúrbio pós-traumático e passou a frequentar consultas no Centro Rivo Résilience, uma organização sem fins lucrativos que dá apoio a refugiados que lidam com as consequências da violência. A recuperação de Miguel, atualmente com seis anos de idade, conta com um aliado poderoso: a arte.

Em uma sessão de tratamento, ele pega um pouco de massinha de modelar e monta uma gaiola. Segundo sua psicóloga, a ideia de Miguel por trás da criação artesanal é conseguir dominar o “vilão”, que fica preso na estrutura.

Nem sempre é possível compreender
as situações pelas quais as pessoas
com doenças mentais passaram,
mas precisamos ouvir.

“As bolinhas que ele faz com a massinha simbolizam os pregos que mantêm o vilão retido, evitando que ele saia”, conta a terapeuta Julia*.

No Rivo, o menino pode desenhar, fazer arte, brincar e trabalhar seus medos. “Problemas de saúde mental podem ser um conceito abstrato para pessoas que não tiveram contato direto com refugiados que sofrem distúrbios psicológicos”, explica a porta-voz e terapeuta da instituição, Veronique Harvey.

“É por isso que promover a conscientização sobre as feridas emocionais é tão importante quanto torná-las visíveis para a sociedade e os governantes. Nem sempre é possível compreender as situações pelas quais as pessoas com doenças mentais passaram, mas precisamos ouvir, dar apoio e ajudá-las a reconstruir suas identidades e autoestima”, acrescentou.

A mãe de Miguel relembra que “conforme ele crescia, seu comportamento foi se tornando imprevisível”. “Eu sabia que tínhamos que fazer alguma coisa a respeito”, conta.

É por isso que promover a conscientização
sobre as feridas emocionais
é tão importante quanto
torná-las visíveis para a sociedade e os governantes.

No começo, Miguel estava relutante em participar das sessões de terapia, que já acontecem há nove meses. A maior prova de que o processo trouxe benefícios é que ele já está preocupado que o fim do tratamento. Ele já se acostumou a trabalhar com Julia e se sente seguro com a terapeuta.

“Tenho tentado explicar para ele que não depende de mim”, diz Maria, que também é muito grata. “Eu vivo dizendo para ele que iremos conversar com Julia sobre seus planos de encerrar a terapia.”

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) considera a saúde mental e o apoio psicossocial partes fundamentais do seu mandato de proteção e se esforça para integrar serviços em seus programas. O organismo considera que o ideal seria oferecer assistência especializada para crianças como Miguel já no país de primeiro refúgio.

*Nomes fictícios