Após transferência da Áustria para Croácia, iraquianos conseguem status de refugiado e reconstroem suas vidas

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

Após chegarem à Áustria, conseguirem ocupações e aprenderem alemão, os iraquianos Wissam e Ali foram transferidos para a Croácia devido a uma decisão da União Europeia. A mudança foi inicialmente vista como negativa, mas, após serem oficialmente reconhecidos como refugiados no novo país, a dupla conseguiu o direito de trazer suas famílias do Iraque para a Europa, através do processo conhecido como reunião familiar.

Wissam com o filho e a esposa. Foto: ACNUR/Zsolt Balla

Wissam com o filho e a esposa. Foto: ACNUR/Zsolt Balla

O iraquiano Wissam vê o filho brincando no parquinho do lado de fora do prédio onde sua família mora, em Zagreb, capital da Croácia. Próximo dali, o conterrâneo Ali está se arrumando para uma entrevista de trabalho. O que os dois têm em comum? Ambos são refugiados que moravam na Áustria e tiveram de ser realocados para o território croata.

O motivo? Uma decisão da União Europeia que previa seu retorno para o país por onde haviam passado logo depois de chegar à Europa pelo Mediterrâneo.

“Foi um golpe terrível quando me mandaram de volta”, conta Ali Hussein Abalsad, de 27 anos. “Eu estava deprimido, não apenas por mim, mas por toda a minha família que aguardava no Iraque. Eu tinha me esforçado para aprender alemão e agora tinha que começar a aprender a falar croata.”

“Eu só queria um lugar seguro para a minha família”, diz Wissam Al-Obaidi, de 36 anos. “Não fazia diferença se se fosse a Áustria ou a Alemanha. Vendo agora, eu acho que deveria ter solicitado refúgio na Croácia desde o início.”

A ida para a Croácia estava prevista pela Regulação de Dublin, que estabelece critérios para decidir quais países europeus deveriam considerar os pedidos de solicitantes de refúgio. No caso de Wissam e Ali, as autoridades croatas eram as responsáveis por avaliar o pedido de asilo.

A Croácia, que ainda se recupera dos conflitos iugoslavos dos anos 1990, foi o palco de uma nova emergência humanitária entre 2015 e 2016. Nesse biênio, 650 mil solicitantes de refúgio do Oriente Médio cruzaram a fronteira rumo à cidade croata de Tovarnik. Após os acordos de realocação de refugiados firmados entre países da União Europeia, o país também passou a receber requerentes de asilo da Itália e da Grécia.

Para os que têm suas solicitações de refúgio atendidas, o governo croata oferece benefícios sociais e subsidia dois anos de aluguel gratuito. Até recentemente, a Croácia não oferecia aulas de idioma para refugiados, mas o Ministério da Educação do país já anunciou sua intenção de promover capacitações.

“O sistema de integração não é totalmente institucionalizado”, explica o representante da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em Zagreb, Giuseppe Di Caro. “Mas sou otimista em relação a isso. A Croácia é um país com uma alta qualidade de vida.”

Até chegarem à Croácia, Wissam e Ali enfrentaram perigos e tiveram de se separar de seus parentes mais próximos.

Wissam trabalhava como motorista de táxi e cabeleireiro em Bagdá. Ali, que é da província de Babil, costumava trabalhar como motorista de ônibus, umas das profissões mais perigosas no Iraque. Os dois relatam que se sentiam constantemente ameaçados pela violência sectária.

Ao entregar mercadorias de cidade em cidade, Ali frequentemente era abordado por diversas milícias que extorquiam dinheiro, roubavam sua carga e ameaçavam sua vida. “Não aconteceu apenas uma vez”, conta. “Eles colocaram uma arma na minha cabeça e incendiaram minha casa.”

Wissam e o filho brincam em um parque de Zagreb, capital da Croácia. Foto: ACNUR/Zsolt Balla

Wissam e o filho brincam em um parque de Zagreb, capital da Croácia. Foto: ACNUR/Zsolt Balla

Desesperados, os dois homens fugiram do país, deixando esposas e filhos para trás. “Fiz isso por dois motivos”, diz Ali. “Primeiro porque eu não tinha dinheiro para trazer todo mundo e segundo porque eu não queria expô-los aos riscos da travessia em um bote de borracha.”

Wissam teve as impressões digitais recolhidas quando entrou na Croácia em setembro de 2015, mas conseguiu chegar à Áustria, onde passou sete meses em Viena, no centro de recepção Erdberg. “Me voluntariei para consertar encanamentos e janelas e, assim, comecei a aprender alemão”, lembra. Ele ficou devastado com a notícia de que seria enviado de volta para a Croácia.

“Fui rejeitado no primeiro posto”, afirma Wissam. “Conversei com um advogado e ele entrou com um recurso. Mas antes que o recurso fosse considerado, a polícia apareceu às seis horas da manhã. Eles confiscaram meu celular e me algemaram. Não fui o único. Muitos outros foram detidos no mesmo momento.”

Ali conta uma história semelhante. Uma batida policial o pegou de surpresa na madrugada. Depois de 11 meses em Viena, ele já estava estabelecendo laços emocionais com os locais.

Após serem detidos, os homens foram levados para o aeroporto. Enquanto isso, lá no Iraque, suas famílias não sabiam de nada, pois os dois refugiados não tinham como se comunicar.

No aeroporto de Zagreb, Wissam temeu ser deportado para o Iraque, mas, em vez disso, foi levado ao centro de recepção de Porin. “Lá era bom como se fosse um hotel”, diz. “Mas eu estava muito deprimido. Ficava deitado o dia inteiro e só levantava para comer. Estava exausto. Já havia esperado muito tempo na Áustria e, no final das contas, não deu em nada. Agora, eu tinha que começar tudo novamente.”

“Depois de alguns dias, a polícia chegou e disse que eu tinha uma entrevista. E depois de 15 dias, eu tive uma segunda entrevista. Esse foi o primeiro passo para que eu sentisse esperança novamente”, conta.

Os dois homens foram reconhecidos como refugiados na Croácia. “Quando estava detido na Áustria, pensei que fosse morrer”, lembra Ali. “Aqui na Croácia, comecei a ter esperanças novamente. Sou muito grato ao governo.”

Após serem oficialmente classificados como refugiados, os iraquianos puderam indicar seus parentes para o processo de reunião familiar. Em Bagdá, a esposa de Wissam, Shaemaa, que é professora de educação física, começou a arrumar suas malas e as dos filhos, Ahmed, de sete anos, e Yousif, de quatro. A família chegou em Zagreb em janeiro de 2017.

Shaemaa frequenta aulas de croata oferecidas pela Cruz Vermelha e os meninos estão no jardim de infância. Wissam trabalha em um lava-jato e se orgulha de conseguir ajudar a família com o que recebe por mês.

Já o reencontro de Ali com sua esposa e seu filho de três anos pode demorar um pouco mais. Ele precisa urgentemente encontrar um emprego que o permita arcar com os custos da viagem de sua família.


Mais notícias de:

Comente

comentários