Após ter três filhos assassinados, casal da Guatemala busca paz e segurança no México

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Ivan e a esposa tiveram três dos seus cinco filhos assassinados por gangues criminosas na Guatemala. Quando o caçula começou a ser perseguido e ameaçado, eles decidiram que era hora de abandonar o país e fugiram com a roupa do corpo para o México.

Ivan e a esposa perderam três filhos para a violência de gangues criminosa na Guatemala. Foto: ACNUR/Jordan Hay

Ivan e a esposa perderam três filhos para a violência de gangues criminosa na Guatemala. Foto: ACNUR/Jordan Hay

Em Tapachula, no México, o guatemalteca Ivan* e a esposa vivem num hotel alugado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O casal deixou seu países de origem por conta do crime organizado que perseguia sua família. Hoje, em segurança, os dois tentam reconstruir a vida longe da violência urbana que abalou a família.

“Nós tínhamos muitos filhos”, lembra Ivan. “Conforme eles cresceram, o MS e o Mara 18 (gangues locais) começaram a nos perseguir. Um dia, nosso filho mais velho, de 19 anos, estava voltando do trabalho. Ele saía do serviço às 6h30 da manhã, após trabalhar no turno da noite anterior em uma fábrica de papel. Quando desceu na parada de ônibus às oito, os maras estavam esperando por ele. Eles o mataram em poucos segundos, com dez tiros.”

A esposa de Ivan começa a chorar discretamente. Ele a abraça e continua contando a história.

“Depois disso, eles começaram a perseguir meu outro filho, de 18 anos. Ele era atleta e estava treinando para se tornar um jogador de futebol profissional. Naquele domingo, tínhamos lhe assistido jogar diversas partidas. Em seguida, ele foi convidado para um evento na capital. Era por volta das 19h30 quando ele chegou em casa”, afirma.

Ivan explica que, logo após entrar na residência, o jovem recebeu uma ligação. “Quando desligou, ele nos disse que precisava sair novamente. Fiquei preocupado, já era tarde e eu não queria que ele saísse de novo. Ele disse que voltaria logo. Eu disse que ao menos tomasse um banho antes já que havia jogado futebol durante o dia todo. Ele disse que precisava sair imediatamente, mas que voltaria dentro de dez minutos.”

A tragédia se repetiu. “Ele nunca voltou. Eles o mataram com dois tiros. Provavelmente ele sabia que estaríamos em risco se ele não saísse imediatamente, foi por isso que não quis nem tomar um banho. Não sabemos sequer por que isso aconteceu”, diz Ivan.

A família ainda veria outro filho ser assassinado. “Nós achamos que eles não nos perseguiriam mais. Nosso outro filho tinha 13 anos e, por causa dos maras, nunca chegou aos 14. Ele estava em um ônibus e alguns deles começaram a perturbá-lo. A polícia disse que foi um acidente, mas claro que não foi. Ele estava em um ônibus! Algumas testemunhas nos contaram que um marero o empurrou de dentro do veículo e ele foi atropelado por um caminhão.”

Ivan e sua esposa não tinham planos de deixar a Guatemala. Eles amavam o país e haviam construído uma boa vida por lá. O marido trabalhou muito para comprar uma casa para que sua família se sentisse segura. Ele só queria viver em paz. Mas depois de ter três filhos assassinados, como poderiam continuar lá?

O filho caçula, Andres, corria muito perigo. Os maras tentaram recrutá-lo e enviaram uma mensagem muito clara: se ele não aceitasse, teria o mesmo destino de seus irmãos. Mas mesmo que se juntasse ao grupo, o perigo continuaria, pois ele entraria na mira da gangue rival. Ivan não arriscaria a vida de seu único filho sobrevivente. Eles partiram naquele mesmo dia levando apenas as roupas do corpo.

Eles pretendiam ir direto para a Cidade do México, mas foram roubados durante o percurso, e o dinheiro que sobrou era suficiente apenas para que chegassem a Tapachula, cidade perto fronteira com a Guatemala.

“O período em que ficamos detidos foi uma tortura”, conta Ivan, com a voz embargada. “Estávamos fugindo dos maras, porém nos encontrávamos em um local aonde eles tinham acesso. Era muito perigoso. Não estava apenas com os meus filhos, mas também com os meus netos. Até Pablo, o mais novo, corria riscos. Ele poderia ter sido recrutado como um informante pelos maras no centro de detenção.”

Segundo o guatemalteca, crianças são consideradas perfeitas para traficarem drogas, uma vez que a lei não se aplica a eles. “Por esse motivo, as gangues os forçam a deixar a escola e trabalhar para eles. Para evitar essa situação, os pais são obrigados a manter seus filhos em casa”, explica Ivan.

Quando a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) descobriu essa família no centro de detenção, solicitou às autoridades locais que fossem soltos e conseguiu que fossem encaminhados para o hotel onde estão agora. O organismo internacional os ajuda com um programa de assistência financeira, que permite aos agora refugiados pagar o quarto do hotel e comprar comida. A ajuda será disponibilizada até que eles encontrem uma casa ou apartamento para alugar.

“Estamos muito gratos pelo que temos agora. Somos nove pessoas em quatro quartos”, diz Ivan. “No centro de detenção, não podíamos ficar juntos. Estamos aqui há 13 dias. O gerente do hotel tem sido muito gentil conosco.”

Apesar do alívio, a proximidade com o território da Guatemala assusta a família. O que Ivan mais deseja é ir para um lugar mais distante, onde todos possam se sentir seguros. Os olhos do refugiado se perdem nas memórias quando ele lembra de tudo que deixou para trás.

“Talvez nossa casa tenha sido ocupada, é isso que normalmente acontece nesses casos. Minha filha continua lá. Ela morava longe da gente e não pudemos esperá-la. Isso parte o meu coração”, lamenta, tentando conter as lágrimas.

*Todos os nomes foram alterados por razões de segurança.


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