Após perder perna, refugiado hondurenho encontra esperança no México

Depois de perder uma perna em um acidente de trem enquanto fugia da violência em Honduras, Armando, de 23 anos, tenta agora se reunir com sua família no México e retomar seu sonho de ser músico.

Diante da chegada de centenas de pessoas da América Central ao México, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) está trabalhando com o governo e a sociedade civil local para melhorar a capacidade de recepção e fortalecer programas de assistência humanitária.

Armando atualmente vive em um abrigo na fronteira sul do México e recebe assistência jurídica do ACNUR. Foto: ACNUR

Armando atualmente vive em um abrigo na fronteira sul do México e recebe assistência jurídica do ACNUR. Foto: ACNUR

Para salvar sua vida, Armando*, de 23 anos, foi forçado a deixar tudo para atrás em Honduras e ir para o México. Trabalhando como motorista de táxi, uma das profissões mais perigosas em seu país devido à violência, ele corria perigo a qualquer hora do dia.

“Todo dia era um desafio para ir trabalhar, eu não sabia se voltaria para casa. Mas não tive escolha, precisava de dinheiro para viver e sustentar minha irmã e minha mãe, que viviam comigo”, disse Armando. De acordo com os últimos dados divulgados pelo Observatório de Violência da Universidade Autônoma de Honduras, 162 motoristas de táxi foram mortos no país em 2016.

No local em que morava, Armando era constantemente ameaçado a pagar uma “taxa” à quadrilha local. Um dia, foi convocado ao pagamento e não compareceu, sendo posteriormente vítima de um ataque.

Armando atravessou Honduras e a Guatemala a pé e de ônibus. Quando finalmente cruzou a fronteira mexicana, embarcou no trem, mais conhecido como “a besta”. Depois de várias horas de viagem, entre o frio e o cheiro de animais mortos, o jovem foi empurrado para fora do vagão por pessoas que tentavam extorqui-lo. Na queda, teve a perna direita amputada.

O caminho que o trem percorre em direção ao norte do continente é de mais de 4 mil quilômetros, e os passageiros do chamado “trem da morte” geralmente passam dias sem comer e dormir. Já faz um tempo que os cartéis de drogas têm cobrado uma espécie de bilhete para os passageiros, e quem não paga é brutalmente empurrado para os trilhos, onde muitos perdem membros do corpo e, por vezes, a vida.

“No primeiro dia em que eu o vi, ele estava na cama de um albergue com uma ferida exposta. Foi muito ruim. Naquele dia, tivemos que interná-lo no hospital. Quando o deixei, me pediu para que não o levassem de volta a Honduras, porque tinha muito medo”, disse Azucena Méndez, representante da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em Acayucan, sul do México.

Ele passou por uma cirurgia e foi acolhido em um albergue enquanto se recuperava e terminava seu processo de solicitação de refúgio na Comissão Mexicana de Ajuda a Refugiados (COMAR).

Nas primeiras semanas, sua situação piorou, e ele foi novamente internado no hospital. Recuperou-se graças aos cuidados de outros solicitantes de refúgio que, assim como ele, aguardavam uma decisão sobre seu pedido.

De acordo com dados de outubro de 2014 do Comissário Nacional dos Direitos Humanos em Honduras (CONADEH), em 34 meses houve 220 mortes violentas de taxistas no país, uma média de sete assassinatos por mês. A maioria dos motoristas mortos tinham sido extorquidos anteriormente por uma ou várias gangues, e forçados a pagar para trabalhar. Segundo o Observatório da Violência da Universidade Nacional Autônoma de Honduras (UNAH), entre janeiro e setembro de 2016, um total de 162 condutores foram mortos.

Diante da chegada de centenas de jovens, mulheres, crianças e adultos da América Central ao México, o ACNUR está trabalhando com o governo e a sociedade civil local para monitorar de perto a situação em campo, melhorar a capacidade de recepção, buscar alternativas à detenção — especialmente para menores de idade — e fortalecer atividades vitais, tais como o programa de assistência humanitária que em 2016 beneficiou mais de 4,5 mil solicitantes de refúgio e refugiados.

Atualmente, Armando trabalha em uma paróquia numa cidade pequena no México, como secretário oficial. Sob essa função, é responsável por atualizar e informar sobre as atividades diárias na paróquia, preparar documentos, marcar reuniões e cuidar da agenda de eventos como batizados, casamentos, comunhões e outras cerimônias.

Armando foi reconhecido como refugiado há poucos dias pelo governo mexicano e em breve dará entrada no processo de residência permanente no país. O jovem também espera receber sua prótese por meio de um programa do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

“Quando cheguei, senti como se estivesse preso em um país que não era meu, mas hoje agradeço ao ACNUR e ao albergue pelo apoio em todo o meu processo de solicitação de refúgio. Agora, quero retomar minha carreira como professor de línguas e ser músico. Me iniciei na música aos 8 anos, mas nunca pude exercê-la profissionalmente, porque não havia nenhum trabalho nessa área no meu país, e por isso virei motorista de táxi”, disse Armando, com um grande sorriso.

Outro sonho de Armando é conhecer seu filho, que está prestes a nascer. Ele terá que solicitar a reunião familiar no México para a sua parceira hondurenha, que está no sétimo mês de gravidez, possa ir viajar ao país.

Além dos jovens, famílias inteiras estão sendo obrigadas a deixar Honduras devido à violência gerada por disputas entre gangues, em meio a crimes de extorsão, ameaças, recrutamento forçado, violência sexual, usurpação, entre outros.

De acordo com informações fornecidas pela COMAR, em 2016 o México recebeu cerca de 9 mil pedidos de refúgio, dos quais mais de 91% eram de pessoas provenientes dos países do Triângulo Norte da América Central. O número de pedidos aumentou mais de 156% em relação a 2015. Com base na taxa de crescimento mensal de mais de 8% desde janeiro de 2015, e as alterações nas tendências de migração, o ACNUR estima que o número total de solicitações de refúgio em 2017 possa chegar a 22 mil.

“Eu vi um menino de 23 anos sozinho, com medo e sofrendo. Agora, ao vê-lo sorrindo e trabalhando com entusiasmo para se recuperar, é que percebo o trabalho que realizamos se refletindo nos olhos de uma pessoa”, conclui Azucena.

*Os nomes foram alterados por questões de proteção