Após deslocamento causado pelo Boko Haram, milhões de pessoas continuam enfrentando desafios

Na semana passada, conferência internacional em Oslo chamou a atenção para a situação de milhões de pessoas forçadas a deixar suas casas em regiões da Nigéria e Chade.

Governo e Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) estão intensificando esforços para reunir famílias que podem ter sido separadas durante o conflito, além de capacitar trabalhadores humanitários, autoridades do governo local e líderes comunitários para ajudar na resposta e reconstrução, especialmente no estado de Borno, onde a crise é mais severa e a ameaça insurgente mais iminente.

Uma multidão reúne-se num acampamento de deslocados internos em Maiduguri, na Nigéria, durante uma visita do alto-comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi, em dezembro de 2016. Foto: ACNUR/Simi Vijay

Uma multidão reúne-se num acampamento de deslocados internos em Maiduguri, na Nigéria, durante uma visita do alto-comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi, em dezembro de 2016. Foto: ACNUR/Simi Vijay

As ações praticadas pelo Boko Haram recentemente atingiram a humilde casa de Bintu, no nordeste da Nigéria, e viraram de cabeça para baixo a sua já sofrida vida.

“Meu marido foi massacrado pelos insurgentes em nossa fazenda em Ngorodole”, lembrou recentemente a jovem de 30 anos em um campo de deslocados em Maiduguri, capital do estado de Borno.

Ela rapidamente decidiu deixar sua aldeia perto da fronteira com Camarões e buscar segurança com seus quatro filhos em Maiduguri. “Eu me sinto segura aqui, mas preferiria estar em casa”, confidenciou. Muitos outros como ela esperam que a situação de segurança melhore no nordeste para que eles possam voltar para casa.

Cerca de 950 mil deslocados internos voltaram às suas áreas de origem nos estados de Adamawa, Borno e Yobe desde agosto de 2015, e dezenas de milhares de nigerianos – incluindo refugiados – retornaram dos vizinhos Camarões, Chade e Níger.

Muitos nigerianos deslocados desejam voltar para casa quando as condições melhorarem, mas a situação de segurança continua precária em muitas áreas de origem, apesar dos grandes ganhos das forças armadas no ano passado que melhoraram o acesso a algumas áreas.

Na semana passada (24), uma importante conferência internacional em Oslo sobre deslocamento na Nigéria e na região do Lago Chade discutiu a situação e as possibilidades de retorno. Os participantes também debateram formas de fortalecer o ambiente de proteção e soluções para as comunidades afetadas. Espera-se que os países doadores disponibilizem novos fundos. O alto-comissário do ACNUR, Filippo Grandi, fez um discurso na reunião.

Um retorno sustentável e duradouro dependerá de vários fatores. Por exemplo, há uma necessidade urgente de reconstruir a infraestrutura básica, garantir o acesso aos serviços básicos e reavivar as economias locais e a produção de alimentos, bem como reconstruir a confiança e promover a reconciliação entre as pessoas afetadas.

Muitos que procuraram retornar para casa encontraram-se em situações de deslocamento secundário, destacando os riscos contínuos que as ações impostas pelo Boko Haram.

Segundo a agência da ONU, é necessária uma ação urgente para criar um ambiente de soluções, bem como para ajudar aqueles, como Bintu, que continuam deslocados. Um grande número de pessoas que estão em campos no nordeste da Nigéria são mulheres e crianças. O governo, apoiado pela ONU, está intensificando os esforços para reunir famílias que podem ter sido separadas durante o conflito.

O ACNUR também intensificou a capacitação de trabalhadores humanitários, de autoridades do governo local e de líderes comunitários para ajudar na resposta e reconstrução, especialmente no estado de Borno, onde a crise é mais severa e a ameaça insurgente mais iminente.

“Nunca é demais destacar a importância de garantir retornos voluntários e sustentáveis em condições de segurança e dignidade, bem como evitar o deslocamento secundário enquanto os repatriados buscam necessidades básicas, incluindo alimentação, abrigo e assistência médica”, disse Brigitte Mukanga Eno, representante do ACNUR na Nigéria.

Ela acrescentou que os retornos prematuros, realizados antes do restabelecimento das condições, podem dar origem a sérios riscos de proteção e podem prejudicar os esforços de paz e recuperação a longo prazo.