Apesar de progressos, 2014 foi um ano de ‘discórdia, doença e distúrbios’, afirma chefe da ONU

Em retrospectiva, Ban Ki-moon destacou que a ONU chegou a seu limite para superar necessidades humanitárias e conter violência no mundo. No entanto, lembrou de ganhos alcançados no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e no rascunho sobre o acordo do clima.

Secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Foto: ONU

Secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Foto: ONU

Um ano de “discórdia, doença e distúrbios”. Foi assim que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, resumiu os 12 meses de 2014, durante retrospectiva realizada aos repórteres reunidos na última coletiva de imprensa oficial na ONU deste ano, que aconteceu em Nova York, nesta quarta-feira (17). Durante este período, as operações de paz, diplomacia e capacidades humanitárias foram levadas ao seu limite máximo ao responder simultaneamente ao surto do ebola, ao fortalecimento de grupos terroristas e conflitos contínuos na África, Oriente Médio e Leste da Europa.

Como resultado da escalada de violência, desastres naturais e doenças, mais de 100 milhões de pessoas precisam atualmente de ajuda humanitária e 50 milhões foram deslocadas de suas casas pelas crises em todo o mundo, a maior cifra desde a Segunda Guerra Mundial.

Prestes a viajar aos quatros países mais afetados pelo ebola neste momento – Guiné, Libéria, Mali e Serra Leoa – o chefe da ONU reconheceu que àqueles comprometidos em pôr fim a doença estão realizando um “trabalho heroico” ao implementar uma estratégia que começa a dar resultados.

Sobre as hostilidades entre Israel e Palestina, Ban pediu a seus líderes para assumir suas responsabilidades e “se afastar do precipício”, apaziguando as tensões e impulsionando a solução de dois Estados. Segundo ele, a ocupação é ilegal e não há nenhuma outra alternativa para os vizinhos israelenses e palestinos do que viver em paz.

Para o chefe da ONU, 2015 tem que ser o ano do fim do “pesadelo” na Síria e um período de combate ao extremismo e ao aumento de partidos políticos radicais de direita, cujos alvos são as minorias, migrantes e, em particular, os muçulmanos.

No ano em que as Nações Unidas comemorarão o seu 70º aniversário, Ban enfatizou que 2015 deve impulsionar a ação global e convocou os países a serem ambiciosos na elaboração da nova agenda de desenvolvimento e no acordo da mudança climática que serão definidos em setembro e dezembro do próximo ano.

Antecipando a agenda para os próximos meses, o secretário-geral também enfatizou que o ano oferece uma oportunidade única para traçar uma nova era no desenvolvimento sustentável. Entre as atividades previstas estão a revisão que ocorrerá do trabalho da ONU sobre operações de paz, construção de paz, financiamento humanitário e implementação da resolução 1325 de 2000 do Conselho de Seguração sobre mulheres, paz e segurança.

Apesar dos desafios enfrentados em 2014, o chefe da ONU ressaltou alguns ganhos obtidos, como o progresso no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Afirmou ainda que os Estados-membros “avançaram em várias frentes” durante a Conferência das Partes (COP 20) em Lima (Peru), que conseguiu avançar em relação ao já alcançado na Cúpula do Clima da ONU, convocada pelo próprio secretário-geral em setembro.

Além de chegarem a um acordo sobre o texto de rascunho que será levado para a próxima ronda de negociações – em Paris, em 2015 – os Estados esclareceram seus planos de mitigação e os compromissos que serão incluídos nas ações nacionais; capitalizaram o Fundo Verde para o Clima com uma soma inicial de 10 bilhões de dólares; e avançaram a agenda de ação desenhada para mostrar a riqueza de oportunidades oferecidas pela transição para uma economia com baixa emissão de gás carbônico.

Ao responder a uma pergunta sobre o relatório sobre tortura publicado recentemente pelo Senado dos Estados Unidos, Ban mencionou que este fato é um lembrete doloroso, que mostra que mais esforços são necessários para eliminar a tortura em todos os lugares. A proibição da tortura é um “princípio absoluto”, declarou, felicitando o trabalho por “lançar uma luz” sobre o ocorrido e iniciar um debate, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, sobre a importância de acabar com a tortura de uma vez por todas.