Apesar das adversidades, refugiados sírios prosperam com apoio do ACNUR

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Há sete anos a Síria mergulhou em uma guerra mortal. Conheça nessa matéria especial da Agência da ONU para Refugiados, ACNUR, a história inspiradora de sete pessoas e famílias resilientes que, apesar das adversidades, reconstruíram suas vidas.

Bombas. Tiroteios. Crianças pedindo ajuda. Algumas roupas jogadas apressadamente em uma mochila. Dias na estrada, pouca comida e muita preocupação. O alívio de finalmente encontrar segurança.

Imagine por um momento passar por tudo isso. E, de alguma forma, encontrar coragem para prosseguir. Para os milhões de sírios que foram forçados a fugir de casa, escapar de um conflito mortal foi apenas o início de suas lutas. Sete anos depois, as pessoas deslocadas dentro da Síria e em toda a região estão fazendo o que podem para sobreviver e seguir em frente. Pessoas com esperanças, sonhos e famílias.

Desde o início do conflito, mais da metade da população síria foi deslocada. Mais de 5,5 milhões – a maioria mulheres e crianças – são refugiados em outros países. Nove em dez refugiados sírios vivem em cidades.

Encontrar trabalho, pagar o aluguel e manter as crianças na escola são lutas constantes, especialmente quando as economias se vão e as dívidas aumentam. Conheça a seguir, nessa matéria especial da Agência da ONU para Refugiados, ACNUR, a história inspiradora de sete pessoas e famílias resilientes que vivem como deslocados na Síria ou em outros países e que, apesar das adversidades, continuam seguindo em frente.

Fornecendo suprimentos vitais à família de Muhammed

Muhammed Thaer posa ao lado de três de seus quatro filhos em Jayrud, na Síria. Ele mora com sua família no porão da mesquita, onde as condições são precárias. Foto: ACNUR/Vivian Tou’meh

Muhammed Thaer posa ao lado de três de seus quatro filhos em Jayrud, na Síria. Ele mora com sua família no porão da mesquita, onde as condições são precárias. Foto: ACNUR/Vivian Tou’meh

Muhammed, sua esposa e seus quatro filhos escaparam do conflito perto de Damasco em 2012.

Desesperados para encontrar segurança, eles se mudaram para uma fazenda a quase 50 quilômetros de distância de sua cidade natal. Mas logo estavam novamente cercados por conflitos e incapazes de se mudar.

Eles passaram os últimos cinco anos sem contato com o mundo, vivendo em um porão frio de uma mesquita local com outras sete famílias deslocadas. Sem trabalho, Muhammed, de 45 anos, conta com a assistência de organizações e da comunidade local para alimentar sua família. Até maio de 2017, quando finalmente o ACNUR e parceiros conseguiram distribuir alimentos e outros itens essenciais na cidade remota, eles passaram meses sem receber qualquer auxílio.

“Não tínhamos nada para cozinhar para os nossos filhos”, explica. “Não recebíamos ajuda desde junho de 2016. Não havia arroz, triguilho ou óleo. Os preços dos alimentos são altos e não há oportunidades de trabalho para que possamos nos sustentar.”

O ACNUR e seus parceiros enviaram 41 caminhões carregados de alimentos, suprimentos médicos, itens domésticos básicos e livros escolares para a cidade de 44 mil habitantes. Isso faz parte dos esforços do ACNUR para alcançar as famílias deslocadas dentro da Síria com os itens básicos que precisam para sobreviver.

Para Muhammed e outras famílias da área, esta assistência foi uma salvação. Sua esperança agora é que encontrem uma solução duradoura para o conflito – o único caminho para que seus filhos aproveitem o que resta de suas infâncias. “Espero que a paz possa florescer no meu país novamente, e meus filhos possam continuar suas vidas como qualquer outra criança do mundo.”

Ajudando Asmaa a retomar os estudos

Asmaa, de 12 anos, e seu irmão Ali, de 8, estão felizes por voltar para a escola no abrigo coletivo de Jibreen, em Alepo, onde eles moram com seus pais. Foto: ACNUR/Hameed Marouf

Asmaa, de 12 anos, e seu irmão Ali, de 8, estão felizes por voltar para a escola no abrigo coletivo de Jibreen, em Alepo, onde eles moram com seus pais. Foto: ACNUR/Hameed Marouf

Eles achavam que nunca deixariam a aldeia onde moravam com vida.

Asmaa, de 12 anos de idade, fugiu de sua aldeia na área rural de Alepo com seus pais e o irmão Ali, de apenas oito anos, no início de 2017 – depois de cinco anos de conflitos. “Lá, não havia escolas e as meninas só podiam vestir preto”, explica a garota. Agora, segura em um abrigo temporário apoiado pelo ACNUR, Asmaa e Ali voltaram à escola com o apoio da família e do ACNUR.

O pai de Asmaa e Ali, que costumava ser um agricultor de trigo, está aliviado por seus filhos estarem seguros e de volta à escola. Ele é grato pela assistência prestada pelo ACNUR e parceiros no abrigo, onde dezenas de milhares de pessoas deslocadas como ele recebem abrigo seguro e ajuda humanitária. Ainda assim, ele espera que, em breve, sua família possa voltar à sua aldeia para retomar suas vidas.

Enquanto esse momento não chega, Asmaa se concentra em seus estudos. Apesar de ser mais velha do que os outros alunos de sua classe, ela se sente feliz e otimista. “Continuarei aprendendo e irei para a universidade. Eu quero fazer algo notável em minha vida.”

Dando esperanças à Mahmoud e Nouf

No Líbano, Mahmoud mora em uma tenda com sua esposa e cinco filhos. Todo mês, a família recebe do ACNUR uma assistência em dinheiro. Foto: ACNUR/Martin Dudek

No Líbano, Mahmoud mora em uma tenda com sua esposa e cinco filhos. Todo mês, a família recebe do ACNUR uma assistência em dinheiro. Foto: ACNUR/Martin Dudek

“Sem os US$ 175 por mês do ACNUR, a situação seria catastrófica”, afirma Nouf, que tem cinco filhos e é da cidade de Homs, na Síria.

A jovem de 29 anos vive em um assentamento informal no norte do Líbano com o marido Mahmoud, de 38 anos, e seus filhos Bashayer (três anos), Hussein (nove), Suleiman (12), Youssef (seis) e Fátima (um ano). A família deixou a cidade de Homs em 2013 e é uma das 33 mil famílias de refugiados vulneráveis que vivem no Líbano e recebem assistência mensal em dinheiro do ACNUR.

O Líbano, com uma população total de menos de seis milhões de pessoas, atualmente acolhe mais de um milhão de refugiados sírios. A maioria vive abaixo da linha de pobreza, e quase todos estão endividados. O programa de assistência em dinheiro do ACNUR oferece US$ 175 por mês para as famílias mais vulneráveis para ajudá-las a suprir suas necessidades básicas. Famílias como a de Nouf.

Todos os meses, Nouf recebe uma mensagem de texto avisando-a de que a assistência monetária mensal da família foi depositada em seu cartão. “Assim que recebo a mensagem, eu vou ao caixa eletrônico mais próximo para sacar o dinheiro, e então eu compro medicamentos.”

O dinheiro ajuda a família a pagar a conta de eletricidade, bem como as despesas com aluguel, saúde, alimentação e roupas. Apesar da esperança que essa ajuda fornece, eles ainda desejam voltar para casa, onde querem reconstruir suas vidas.

“Existe alguém que não sinta saudade do seu próprio país? Não há lugar melhor do que a nossa casa”, explica Mahmoud.

Ajudando Abdul Kader a reconstruir sua casa

Depois de se mudarem diversas vezes em busca de segurança, a família de Abdul Kader retorna à cidade de Homs, na Síria. Foto: ACNUR

Depois de se mudarem diversas vezes em busca de segurança, a família de Abdul Kader retorna à cidade de Homs, na Síria. Foto: ACNUR

Imagine ser forçado a se deslocar não apenas uma, mas cinco vezes. Foi o que aconteceu com Abdul Kader e sua família. Na cidade de Homs, eles tiveram que se mudar de uma vizinhança para outra, enquanto os combates brutais aconteciam bem ao seu redor.

A experiência os deixou exaustos e amedrontados. Para os três filhos de Abdul Kader, a experiência foi especialmente difícil, pois tiveram que abandonar a escola e deixar os amigos para trás.

“Estávamos tão assustados, nos mudando de casa para casa, levando tudo conosco”, relembra Dania, a filha de 14 anos de Abdul Kader. “Toda vez que nos mudávamos, eu ficava mais atrasado nos estudos”, acrescenta seu irmão Saleh, de 12 anos, que quer ser um astronauta quando crescer.

Quando Abdul Kader voltou às ruínas de sua casa pela primeira vez depois de passar cinco longos anos longe, a dimensão da destruição o deixou atordoado. “No começo, eu não reagi. Eu estava em choque. Caminhei por cinco, dez minutos e depois fui embora. Eu simplesmente não consegui aguentar”, diz.

Depois de algumas semanas, o ex-professor de árabe encontrou forças para retornar. Trabalhando sozinho nos escombros de sua casa, ele lentamente começou a limpar os destroços e a fechar os buracos abertos por anos de bombardeios. Ele estava determinado a reconstruir sua casa e sua vida.

Com a assistência financeira do ACNUR, a família conseguiu renovar grande parte do que restou de sua antiga casa, substituindo portas e janelas e reparando as redes de água e eletricidade. A situação não é fácil, mas eles estão felizes em estar em um lugar familiar.

“Independentemente das circunstâncias, não há lugar melhor que a nossa casa”, explica Abdul Kader. “A sensação de retornar é excelente. Eu me sinto como um pássaro que voltou ao seu ninho depois de ficar longe por tanto tempo.”

Para Saleh, os anos de deslocamento e conflito não acabaram com suas aspirações e sonhos. “O que está acontecendo agora não vai me impedir. Eu quero me concentrar nos estudos e não desistir.”

Ajudando Diyaa a sustentar sua família

Diyaa posa em frente à sua loja em Casablanca, no Marrocos. Foto: ACNUR/Oussama Rhaleb

Diyaa posa em frente à sua loja em Casablanca, no Marrocos. Foto: ACNUR/Oussama Rhaleb

Em uma pequena rua em Casablanca, Diyaa, de 37 anos, senta-se em sua oficina, cercado por sandálias, tamancos e sapatos de amarrar. O sapateiro aprendeu seu ofício com o pai, na Síria. Ele fabricou calçados no país durante décadas antes que a guerra forçasse ele, sua esposa e seus dois filhos – uma garota de cinco anos e garoto de quatro – a deixarem sua casa. Eles estão entre os cerca 3.500 refugiados sírios que encontraram segurança no Marrocos.

Quando a família chegou ao país, Diyaa foi obrigado a recomeçar do zero, trabalhando longas horas para fabricar uma grande variedade de sapatos. “No início, eu trabalhava durante 18, 20 horas por dia e vivia a 20 quilômetros de distância”, conta. “Todo dia, eu demorava duas horas para chegar ao trabalho.”

Mas Diyaa estava determinado a prosperar. “Sempre que eu tinha dificuldades, eu falava para mim mesmo ‘nunca desista! Levante a cabeça, siga em frente e levante-se toda vez que cair’. No final, foi o bem-estar da minha família que me motivou a continuar.”

A perseverança de Diyaa valeu a pena. Com a ajuda de um crédito concedido pelo ACNUR, que permitiu que ele comprasse sua primeira máquina de costura, Diyaa logo ganhou clientes fiéis e recebeu mais pedidos. Hoje, o sapateiro sustenta sua família e mora em um apartamento mais perto do trabalho.

“No começo, trabalhei sozinho”, explica. “Então recebi do ACNUR minha primeira máquina de costura como parte de uma atividade geradora de renda para refugiados. Foi um verdadeiro impulso. Pouco a pouco, as coisas melhoraram. Atualmente emprego quatro trabalhadores marroquinos”.

Agradecido pela recepção que teve, Diyaa escolheu empregar jovens marroquinos de um bairro pobre, que ele considera como irmãos. Ele também ajudou outros sírios a abrir uma segunda loja de calçados nas proximidades e chegou a receber um prêmio de uma associação marroquina de pequenas empresas, pela contribuição inspiradora que prestou à comunidade que o acolheu.

“Eu não esperava receber prêmios. Vim para o Marrocos com os bolsos vazios. Eu tive que recomeçar não do zero, mas do menos cem. Isso reconhece meus esforços e trabalho duro contra todas as adversidades. Graças ao meu trabalho, minha família e eu conseguimos progredir.”

Apesar do sucesso de seu negócio, Diyaa deseja voltar para a Síria, quando as coisas melhorarem. “Não há lugar melhor que a nossa casa”, conclui.

Empoderando Rayan e sua irmã Zeinab

Rayan sonha em ser campeã mundial de taekwondo. Foto: ACNUR

Rayan sonha em ser campeã mundial de taekwondo. Foto: ACNUR

No acampamento de refugiados de Azraq, na Jordânia, duas meninas circulam dentro de casa vestidas com uniformes brancos de artes marciais.

Rayan, de 12 anos, e sua irmã Zeinab, de 10, estão entre as dezenas de crianças sírias que fazem aulas de taekwondo como parte de uma iniciativa lançada no ano passado pelo ACNUR e pela Federação Mundial de Taekwondo.

“Eu quero ser uma campeã mundial”, explica Rayan, com um grande sorriso. “Eu quero que as pessoas se perguntem como uma menina conseguiu aprender taekwondo e a se defender.”

Em 2016, as meninas e seus pais foram forçados a fugir da guerra na Síria. A mãe das garotas, Badra, de 39 anos, lembra-se bem. “Nossa casa foi bombardeada três dias antes de deixarmos a Síria… Viemos para este campo. Quando chegamos, começamos a chorar. Estávamos em choque. Mas a coisa mais importante é que minhas filhas não estão mais assustadas. Elas estão seguras e frequentam a escola.”

A família encontrou refúgio no campo de Azraq, na Jordânia, onde o ACNUR e parceiros fornecem abrigo e apoio vital às pessoas que lá vivem.

Foi então que Rayan e Zeinab descobriram um esporte que mudou suas vidas. Ter aulas de taekwondo no centro apoiado pelo ACNUR ensinou-lhes técnicas de autodefesa e aumentou a autoestima das garotas. “Elas eram tímidas”, afirma a mãe. “Mas depois que começaram este esporte, fizeram muitos amigos e sua autoestima melhorou.”

“Para mim, o taekwondo é um esporte que ajuda a aprender e a descobrir coisas novas”, diz Rayan. “Não é como o futebol. O futebol é apenas um jogo, não faz com que você adquira habilidades que você possa usar. O taekwondo é muito mais interessante, ele ensina você a se defender.”

Participar da academia de taekwondo tem alimentado os sonhos de Rayan. Ela sonha em competir nas Olimpíadas, enquanto sua irmã Zeinab quer ser uma chefe de cozinha e uma técnica de taekwondo, “para se defender”. O esporte também expandiu seus horizontes, graças a um treinador sul-coreano que tem ajudado a treinar as meninas.

“O treinador nos mostrou fotos da Coreia”, explica Zeinab. “Eu me apaixonei pelo país assim que coloquei os olhos na foto”. Sua irmã mais velha, Rayan, também está ansiosa para viajar: “Quero visitar países seguros e explorar cidades. Quero ver lugares com paisagens belas como as da Síria, onde existem campos verdes, flores e montanhas. Eu gostaria de ver tudo isso.”

As aulas de autodefesa fazem parte de um esforço mais amplo do ACNUR para capacitar mulheres e meninas refugiadas em toda a região e reduzir os riscos de violência e exploração que enfrentam. O projeto inclui assistência em dinheiro, capacitação e fornecimento de espaços seguros.

Abrindo novas portas para Ghalia

Ghalia tem de 44 anos e está aprendendo a ler a escrever graças a uma iniciativa, cujo objetivo alfabetizar mães e avós refugiadas sírias no Líbano. Foto: ACNUR

Ghalia tem de 44 anos e está aprendendo a ler a escrever graças a uma iniciativa, cujo objetivo alfabetizar mães e avós refugiadas sírias no Líbano. Foto: ACNUR

Ghalia nunca soube da importância da educação até encontrar-se no exílio.

“Na Síria, eu conhecia os arredores, eu me locomovia facilmente”, explica Ghalia, de 44 anos. Ela tem cinco filhos e hoje mora no norte do Líbano. “Aqui no Líbano você precisa ler para saber onde ir. Se eu receber uma mensagem de texto do ACNUR ou de outra organização, eu quero ser capaz de lê-la. Se minha filha me pedir ajuda com a lição de casa, quero ser capaz de responder suas perguntas.”

Duas vezes por semana, Ghalia frequenta uma aula de alfabetização para que mães e avós refugiadas sírias aprendam a ler e a escrever. A professora, Fatima, também é uma refugiada. Ela dá aulas gratuitamente, com livros e material fornecido pelo ACNUR e a organização parceira Save the Children.

A maioria das mulheres está pisando em uma sala de aula pela primeira vez na vida. Agora, elas se orgulham muito de poder auxiliar seus filhos com suas lições de casa, para ajudá-los a ter sucesso e se integrar melhor no Líbano.

“Eu os ajudo a soletrar e a escrever palavras”, explica Ghalia. “Antes, eu não conseguia dizer se a caligrafia deles era boa ou não. Eu não conseguia diferenciar, mas agora consigo.”

“É um sentimento tão bom quando você vê seus alunos progredirem bem diante dos seus olhos”, conta Fatima, a professora. “Quando comecei a ensiná-las, elas estavam desconfortáveis e chateadas, já que alguns não conseguiam nem segurar uma caneta corretamente.”

Os cinco filhos de Ghalia estão todos na escola, em diferentes séries. Embora a vida no exílio não seja fácil, ela está determinada a fazer o melhor que pode para ajudá-los a alcançar o sucesso. “Agora eu quero que minhas filhas sejam alfabetizadas para que um dia elas possam educar seus próprios filhos.”

 


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