Apesar da guerra, Iêmen atrai refugiados e migrantes da África, alerta ACNUR

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Em 2016, 117 mil africanos cruzaram o oceano que separa o nordeste da África do território iemenita. Desde 2013, cerca de 290 mil deslocados desembarcaram no país do Oriente Médio. Quase 80% destes eram etíopes, e o restante, somalis. Essa população que decide abandonar seus países de origem frequentemente desconhece a realidade de guerra que assola o Iêmen e ameaça locais e estrangeiros.

Costa do Iêmen é ponto de chegada para etíopes e somalis que fogem de seus países de origem sem informação adequada sobre os perigos da guerra na nação do Oriente Médio. Foto: ACNUR/SHS

Costa do Iêmen é ponto de chegada para etíopes e somalis que fogem de seus países de origem sem informação adequada sobre os perigos da guerra na nação do Oriente Médio. Foto: ACNUR/SHS

A guerra no Iêmen não espanta etíopes e somalis que fogem de seus países de origem e atravessam o Golfo de Áden e o Mar Vermelho em direção à nação do Oriente Médio. Em 2016, 117 mil africanos cruzaram o oceano rumo ao território iemenita. O contingente é maior do que os 87 mil indivíduos que deixaram o Iêmen no ano passado na tentativa de encontrar segurança no nordeste da África.

O conflito aberto no Iêmen teve início em 2015. Já o drama de refugiados e migrantes africanos que fogem para o país é um pouco mais antigo. Desde 2013, cerca de 290 mil deslocados desembarcaram na costa iemenita. Quase 80% destes eram etíopes, e o restante, somalis.

A maioria viaja na esperança de usar o Iêmen como um ponto de trânsito, enquanto outros desejam ficar na nação. Os números mais recentes indicam um aumento constante dos movimentos irregulares da África para o Iêmen — foram cerca de 65 mil migrantes e refugiados em 2013, 91,6 mil em 2014 e 92,5 mil em 2015.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) aponta que as tendências ascendentes foram registradas mesmo com o agravamento das tensões no Iêmen, onde uma guerra civil teve seu estopim há quase dois anos.

O organismo internacional lançou neste mês (7) uma campanha de conscientização sobre os perigos que migrantes e refugiados africanos podem vir a enfrentar caso decidam se deslocar para o Iêmen. Riscos incluem ataques a embarcações durante a travessia pelo mar, extorsões e abusos orquestrados por redes criminosas, bem como riscos associados à própria guerra, que já deixou 80% da população iemenita precisando de ajuda humanitária.

“Queremos capacitar os refugiados para que tomem decisões informadas sobre o seu futuro”, disse o alto-comissário assistente de proteção do ACNUR, Volker Türk. “Aqueles que decidem fugir precisam saber quais perigos estão à frente. Não devemos permitir que contrabandistas e traficantes sem escrúpulos atraiam pessoas para riscos e perigos onde elas esperam encontrar proteção.”

A agência da ONU recebeu de vítimas de criminosos relatos assustadores sobre abusos físicos e sexuais, privação de alimentos e água, rapto, tortura e trabalho forçado. O ACNUR também detectou um aumento nas operações de detenção, encarceramento e retorno compulsório de pessoas que tentavam chegar ao Iêmen.

Segundo o organismo internacional, as mulheres — que representam cerca de um terço dos refugiados e migrantes da Somália e 13% dos oriundos da Etiópia — estão particularmente sob risco, uma vez que podem ser alvo de violência sexual e tráfico humano. Os números das organizações humanitárias parceiras que monitoram o litoral do Iêmen sugerem que cerca de um quarto dos indivíduos que viajam para o país é de crianças.

Contrabandistas — que cobram de 300 a 500 dólares pela travessia — frequentemente lançam os passageiros no mar quando estão perto da costa. Dos milhares de refugiados e migrantes que fizeram a viagem, um total de 446 pessoas foram consideradas mortas ou desaparecidas nos últimos três anos. Segundo o ACNUR, é razoável supor que estes números não correspondam ao número real de mortes.

“Não há nada aqui para mim e a vida é muito perigosa”, diz uma mulher etíope que fez a viagem. “No mês passado, eu apanhei muito de pessoas que estavam procurando por dinheiro e que me acusaram de roubar. Eles me machucaram muito e eu sequer consegui um tratamento médico. Eu tive que esperar que as feridas cicatrizassem sozinhas, o que ainda não aconteceu. Estou doente, com fome e muito infeliz aqui.”

O maior problema para agência da ONU é que, em um lugar tão perigoso como o Iêmen, é muito difícil prestar assistência a quem precisa. A capacidade operacional do organismo está severamente limitada pela falta de segurança, tanto para o seu pessoal e parceiros como para aqueles a quem gostaria de ajudar.


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