Aos 29 anos, argentino conheceu familiares de pais sequestrados pela ditadura militar

Guillermo foi mais uma das crianças que não conheceram os pais, sequestrados durante o regime militar na Argentina. Fundo das Nações Unidas financia desde os anos 1990 a organização Avós da Praça de Maio, que ajudou Guillermo a encontrar seus familiares biológicos. Nova publicação reúne histórias de vítimas da tortura.

Avós da Praça de Maio já reuniram 119 netos com seus familiares. . Foto: EBC

Avós da Praça de Maio já reuniram 119 netos com seus familiares. . Foto: EBC

Antes de Guillermo nascer, seus pais foram vítimas de um desaparecimento forçado durante a ditadura militar argentina, um fato triste do qual ele não teve conhecimento durante a infância e adolescência.

“Quando cheguei à idade adulta, comecei a ter suspeitas em relação ao meu nascimento e do homem e da mulher que diziam ser meus pais”, explicou Guillermo.

Desde 1997, a organização da sociedade civil Avós da Praça de Maio vem buscando netos como Guillermo para reuni-los com suas famílias.

Durante a ditadura militar argentina, de 1976 a 1983, os desaparecimentos forçados foram uma espécie de tortura psicológica para as famílias que ignoravam o paradeiro de seus entes queridos e não sabiam se estavam vivos ou mortos.

As Avós da Praça de Maio, que desde os anos 1990 contam com o apoio do Fundo de Contribuições Voluntárias das Nações Unidas para as Vítimas da Tortura (UNVFVT), já reuniram 119 netos e seus familiares. O financiamento do fundo ajuda a pagar os testes genéticos que permitem aproveitar melhor o banco de DNA criado em 1987, após o restabelecimento da democracia no país, para ajudar na identificação das crianças roubadas durante a ditadura.

“Em geral, os militares não executavam as mulheres grávidas, mas as prendiam no Campo de Maio, um centro de detenção clandestino que adquiriu sinistra fama como o local onde os recém-nascidos eram confiscados e depois entregues a adoções ilícitas”, disse Guillermo.

“Em 2007, enquanto assistia ao programa ‘Televisão pela Identidade’, que descrevia o trabalho das Avós, ouvi o relato de um caso que soube imediatamente ser o meu”, declarou. “Comecei a chorar e minha namorada me convenceu a procurar a Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (CONADI).”

A história de Guillermo é apenas uma das nove que estão em uma nova publicação intitulada “Do horror à cura: uma viagem capaz de salvar vidas apoiada pelo fundo da ONU para vítimas de tortura”. A administração do fundo, que este ano completa seu 35º aniversário, está a cargo do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), com sede em Genebra.

A publicação traz histórias tanto de pessoas torturadas como de profissionais que ajudaram as vítimas a recuperar a dignidade e a buscar a reabilitação, a verdade e a reparação, um caminho que exige longo percurso. Os relatos foram compilados por organizações que, com o apoio do fundo da ONU, fornecem a cada ano serviços médicos, psicológicos, sociais e jurídicos de reabilitação a cerca de 50 mil vítimas de torturas e seus familiares.

Em dezembro de 2007, Guillermo recorreu ao Banco Nacional de DNA, mas não obteve respostas imediatas. Quatro meses depois, foi informado que seu perfil genético não correspondia a nenhum dos núcleos familiares registrados no banco. Mas em 2009 a comissão o convocou para o que seria uma reunião comovente.

“Com lágrimas nos olhos, a diretora me contou a história da minha família”, disse Guillermo.

“A confirmação da minha identidade demorou dois anos, porque ninguém sabia que minha mãe estava grávida quando a prenderam, junto com o meu pai, em 17 de outubro de 1979. De modo que sua família não havia depositado amostras de DNA. Mas um sobrevivente se apresentou e declarou que minha mãe havia dado à luz enquanto estava detida. Assim, o banco solicitou amostras de sangue dos irmãos e irmãs de meus pais e pôde confirmar que eu era filho de Marcel Molfino e Guillermo Amarilla”.

Os pais de Guillermo haviam casado em 1973 e tiveram três filhos antes de sua prisão.

“Foi assim que eu soube, aos 29 anos de idade, que tinha três irmãos e uma família numerosa. Nos reunimos pela primeira vez na sede das Avós. Foi um grande abraço e compreendi então que esse abraço duraria para sempre.”

Desde 1981, o fundo da ONU administrado pelo ACNUDH em Genebra destinou mais de 168 milhões de dólares a mais de 630 organizações que proporcionam assistência médica, psicológica, social e jurídica às vítimas de tortura.

Leia aqui a publicação completa (em inglês).