Angelina Jolie visita famílias iraquianas que tentam reconstruir suas vidas no oeste de Mossul

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A atriz norte-americana Angelina Jolie, enviada especial da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), visitou no sábado (16) o oeste de Mossul, uma área urbana controlada pelo Estado Islâmico por três anos até 2017.

Após caminhar entre edifícios bombardeados, ruas desertas e se reunir com algumas das primeiras famílias a retornar à região, a atriz pediu que o mundo não se esqueça da agonia que essas pessoas passaram — e não ignore as dificuldades que enfrentam agora.

“Esta é a pior devastação que presenciei em todos os meus anos no ACNUR”, disse Jolie, falando em frente às ruínas da mesquita de al-Nuri, na cidade velha. “Essas pessoas perderam tudo, e o trauma e a perda que sofreram é sem paralelos”.

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A atriz norte-americana Angelina Jolie, enviada especial da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), visitou no sábado (18) o oeste de Mossul, uma área urbana controlada pelo Estado Islâmico por três anos até 2017.

Após caminhar entre edifícios bombardeados, ruas desertas e se reunir com algumas das primeiras famílias a retornar à cidade, a atriz pediu que o mundo não se esqueça da agonia que essas pessoas passaram — e não ignore as dificuldades que enfrentam agora.

“Esta é a pior devastação que presenciei em todos os meus anos no ACNUR”, disse Jolie, falando em frente às ruínas da mesquita de al-Nuri, na cidade velha. “Essas pessoas perderam tudo, e o trauma e a perda que sofreram é sem paralelos”.

A enviada especial da ONU elogiou a capacidade da população local de seguir em frente, apesar da aparente indiferença global.

“Não tenho palavras (para descrever) a força necessária para reconstruir depois de uma perda como essa”, disse. “Mas isso é o que as pessoas desta cidade estão fazendo. Estão em luto e traumatizadas, mas também estão esperançosas. Estão limpando suas casas com as próprias mãos e se voluntariando e ajudando os outros. Mas elas precisam de nossa ajuda.”

A visita marcou a 61ª missão de Jolie — e a quinta no Iraque — com o ACNUR desde 2001. A viagem coincidiu com o segundo dia da celebração muçulmana Eid al-Fitr, durante a qual muitos residentes passaram o dia com parentes para celebrar o fim do Ramadã. Nessa mesma época do ano, fortes tiros, bombardeios e ataques aéreos atingiram a cidade no ano passado, semanas antes da queda do Estado Islâmico.

Pessoas que fugiram para o leste de Mossul ou para campos no sul da cidade estão agora retornando lentamente. Mas ao chegar em casa, presenciam cenas de destruição épica. Nenhuma estrutura ou janela está intacta.

Uma família local mostrou a Jolie os danos em sua casa ancestral, construída um século atrás. Mohamed, de 47 anos, lembrou que nasceu e casou ali, mas em junho do ano passado um morteiro entrou pelo teto, ferindo gravemente sua filha de 17 anos. Quando levaram-na para receber cuidados médicos, foram rejeitados e ela sangrou até morrer, disse.

“Zubayda era muito sociável e enérgica, muito simples e generosa”, disse ele, com lágrimas nos olhos. “Se tivesse apenas um pouco para comer – e a comida era muito limitada – ela dava aos irmãos”.

Por enquanto, amigos próximos estão abrigando Mohamed, sua mulher Hoda e seus três filhos sobreviventes. Mas o espaço é pequeno para ficarem lá por muito mais tempo.

“Eu quero reconstruir a casa e voltar aqui”, disse Mohamed. “Mesmo que tenha lembranças dolorosas desta casa, para onde mais eu iria? Preciso voltar.”

Sem essa assistência, as famílias que retornam correm o risco de mergulhar mais fundo na pobreza. Oprimidas pela falta de abrigo, infraestrutura, serviços e empregos, milhares estão sendo novamente deslocadas e procurando abrigo em acampamentos fora da cidade.

Em toda Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, cerca de 40 mil residências precisam de reabilitação. O ACNUR e seu parceiro, a Human Appeal, começaram a fornecer assistência em dinheiro às famílias que retornam, para que possam reparar ou reconstruir suas casas. A iniciativa visa atingir 1,5 mil famílias este ano.

Até agora, os esforços de reconstrução são modestos. No bairro de al-Zanjely, no oeste de Mossul, vários moradores foram vistos no início da semana misturando cimento, assentando telhas e cabos elétricos para quando a energia ocasionalmente voltar. Jovens levados na carroceria de um caminhão entregavam blocos de gelo para refrigeração.

Uma família que mora na cidade há gerações contou a Jolie seus planos de reconstrução assim que a papelada estiver em ordem. O pai, chamado Mohamed, costumava dirigir uma butique de design de interiores ao lado da residência, que também foi destruída com a casa durante os combates.

Sua filha de 8 anos, Falak, ficou sem tratamento para um distúrbio genético desde que o médico fugiu, há dois anos. Ela testemunhou o assassinato de sua prima, uma experiência traumática que ainda a assombra. “Mesmo agora, quando nossos filhos ouvem fogos de artifício, isso os aterroriza”, disse Mohamed. “Eles estão traumatizados”.

Foi também em al-Zanjely que Jolie conheceu Hassan, um vendedor de vegetais de 33 anos que contou ter perdido sua casa duas vezes: quando os militantes a confiscaram e, posteriormente, quando um ataque aéreo a reduziu a escombros. Ele e sua esposa, Lamiaa, juntamente com seus três filhos pequenos, estão alugando espaço em uma casa modesta com outra família.

As meninas retornaram à escola este ano, e mostraram com orgulho seus boletins à enviada especial. As duas eram as melhores alunas de suas respectivas classes.

Seu pai, enquanto isso, solicitou assistência em dinheiro para reconstruir sua casa. Desde que recebeu a primeira parcela há duas semanas, ele não perdeu tempo. Ele terminou a primeira fase a tempo do Eid, erguendo várias novas paredes, janelas e portas. Logo ele começará a trabalhar no telhado.

“Esta é minha casa. Para onde mais eu iria?”, questionou Hassan. “Este é meu país, meu povo, meus vizinhos. Por que eu iria embora? Ninguém deixa a casa para trás”.

Tal resolução pode ser um elemento crucial na construção de um futuro estável em Mossul, no Iraque como um todo e na região. Mas pessoas como Hassan precisarão de mais apoio de um mundo que desviou os olhos.

“É profundamente perturbador”, disse Jolie, “que as pessoas que suportaram uma brutalidade incomparável tenham tão pouco enquanto tentam, de alguma forma, reconstruir as vidas que já tiveram”.


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