Alto-comissário da ONU para refugiados encoraja reconciliação entre comunidades de Mianmar

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Em outubro de 2016, cerca de 20 mil pessoas foram deslocadas nos arredores de Maungdaw, em Mianmar, em uma operação de segurança organizada em resposta a diversos ataques a postos de fronteira. Também no mesmo país, na região de Sittwe, 120 mil indivíduos ainda moram em campos para deslocados internos. Esse contingente teve de deixar seus lares durante uma onda de violência cujo estopim foi em 2012.

O alto-comissário do ACNUR, Filippo Grandi, se encontra com Masoota Hatu, de 55 anos. Foto: ACNUR/Roger Arnold

O alto-comissário do ACNUR, Filippo Grandi, se encontra com Masoota Hatu, de 55 anos. Foto: ACNUR/Roger Arnold

Em sua primeira visita oficial ao Sudeste da Ásia, o alto-comissário das Nações Unidas para Refugiados, Filippo Grandi, foi a Mianmar, na primeira semana de julho (4), quando conheceu vítimas de deslocamento forçado vivendo no estado do Arracão. Dirigente fez um apelo às comunidades da região para que se unam “contra o medo, a desconfiança e o subdesenvolvimento”.

Em outubro de 2016, cerca de 20 mil pessoas foram deslocadas nos arredores de Maungdaw em uma operação de segurança organizada em resposta a diversos ataques a postos de fronteira. Grande parte retornou aos seus lares, mas muitas continuam sendo acolhidas por membros das vilas locais e dependem de acordos que ofereçam a possibilidade de retorno, bem como residências para relocação.

Na região de Sittwe, 120 mil indivíduos ainda moram em campos para deslocados internos. Esse contingente teve de deixar seus lares durante uma onda de violência cujo estopim foi em 2012.

Massota Hatu morou no acampamento de Sittwe’s Dar Paing por cinco anos, lidando com problemas de saúde que não tinha condições de tratar. Só dois de seus quatro filhos estão na escola, já que não existe ensino médio no campo. “É muito difícil”, afirmou a viúva de 55 anos. “O que mais desejo é voltar à minha vila para que possamos melhorar nossas vidas.”

Como muitos muçulmanos no estado do Arracão, pessoas apátridas não podem se deslocar livremente sem autorização e tampouco têm facilidade para acessar serviços básicos como saúde, educação e meios de vida.

“Essas pessoas merecem um futuro melhor do que as condições atuais de extrema pobreza, escassez e isolamento. Precisamos sair do modo de sobrevivência para a vida real com oportunidades”, defendeu o alto-comissário. “É uma situação de alta complexidade, mas é possível trabalhar em direção a soluções.”

Grandi visitou comunidades, moradores e autoridades das cidades de Sittwe e Maungdaw para melhor entender suas necessidades. Em março desse ano, um relatório provisório feito pela Comissão Consultiva indicada pelo governo para o estado do Arracão definiu ações para acabar com o deslocamento e promover diálogo entre os diferentes grupos vivendo no estado. O governo aprovou o relatório e concordou em implementar as recomendações.

Em encontro membros da etnia Rakhine que moram ao lado de uma comunidade muçulmana em Maungdaw, Grandi ouviu dos habitantes que as comunidades costumavam viver e trabalhar juntas. “Mas depois dos conflitos de outubro, ficamos com medo de sair de nossas casas e buscar madeira ou peixe para sobreviver. Nossos filhos não estão indo à escola. Precisamos de ajuda até que a situação melhore”, informou um líder comunitário.

O alto-comissário encorajou que as duas comunidades voltem a dialogar. “Vocês têm os mesmos medos por suas famílias e as mesmas ansiedades em relação a como vão cuidar delas”, disse. “Ajuda humanitária é importante, mas não vai durar para sempre. Ao aprender a viverem juntos em paz, poderão pavimentar o caminho da prosperidade e do desenvolvimento.”

ACNUR promove convivência pacífica

Em Maungdaw, Grandi visitou um projeto apoiado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) para promover a coexistência pacífica por meio de aulas de treinamento vocacional. Vinte mulheres muçulmanas e Rakhine se reúnem para aprender a costurar e se alfabetizar. Elas também recebem orientações sobre cuidados básicos de saúde e higiene.

May Than New, de 23 anos, abandoou a escola primária porque seus pais não conseguiam custear seus estudos. A jovem vendia combustível em uma loja antes de frequentar as aulas de costura. Agora, ela planeja trabalhar como alfaiate e ensinar costura após a graduação.

“Meus pais sempre receberam amigos muçulmanos em nossa casa e acreditamos que a discriminação só traz problemas”, afirma. “Essa aula me ajudou a entender melhor meus amigos muçulmanos.”

Sua colega Somira, de 19 anos, acrescentou: “Não conhecia nenhum Rakhine antes, mas agora fiz algumas amizades na aula”.

O ACNUR também ajudou a montar um mercado no centro de Maungdaw, onde cerca de 2 mil famílias muçulmanas, rakhines, hinduístas e de outros grupos minoritários podem receber produtos alimentícios e se conhecer. Questionado sobre o que poderia melhorar suas vidas, um morador muçulmano de uma vila em Maungdaw afirmou: “Só queremos viver pacificamente, ter um cartão de identidade e os mesmos direitos que os outros”.


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