Agricultora lembra luta por terra e moradia em assentamento em Goiânia

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A busca por terra e moradia faz parte da vida das mulheres do assentamento São Sebastião, localizado no município de Silvânia (GO). Uma das habitantes do antigo acampamento, Sandra Pereira de Faria lembra que as famílias viveram por anos sob ameaças, sendo expulsas da propriedade que ocupavam, com crianças a tiracolo. O relato é da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

No final dos anos 1990, Sandra Pereira de Faria vivia num assentamento em Goiânia com medo de ser expulsa da terra e ficar sem um lugar para morar com seus dois filhos. Imagem: FAO

No final dos anos 1990, Sandra Pereira de Faria vivia num assentamento em Goiânia com medo de ser expulsa da terra e ficar sem um lugar para morar com seus dois filhos. Imagem: FAO

A busca por terra e moradia faz parte da vida das mulheres do assentamento São Sebastião, localizado no município de Silvânia (GO). Uma das habitantes do antigo acampamento, Sandra Pereira de Faria lembra que as famílias viveram por anos sob ameaças, sendo expulsas da propriedade que ocupavam, com crianças a tiracolo.

Em janeiro de 1997, a agricultora morava com seus dois filhos em lonas provisórias na fazenda São Sebastião. O terreno era o lar de outras 17 famílias. Ninguém tinha recursos para se manter, e a população do local se sustentava com cestas básicas doadas pela igreja da cidade.

Sandra não havia terminado seus estudos, mas ensinava o que podia para os moradores em uma tenda de alfabetização solidária.

As famílias foram despejadas duas vezes do acampamento, mas por não terem onde ficar, voltavam para o mesmo lugar. Todos os assentados sofriam com as ameaças do gerente da propriedade.

“Lembro-me de uma noite que me abriguei na mata para poder dormir com os meus filhos, pois destruíram minha barraca”, recorda.

Aos poucos, as mulheres do assentamento foram se articulando politicamente para reivindicar mais direitos. As agricultoras conseguiram criar uma lavoura comunitária de arroz. Depois, os grupos passaram a plantar milho, feijão, mandioca e deram início à criação de gado. Com a permissão da posse da terra e o desenvolvimento da produção, a luta passou a ser a construção de um lar para o conforto e a segurança das famílias.

“Passamos por muitas dificuldades, pois não tínhamos recurso suficiente para pagar os pedreiros”, diz Sandra.

A comunidade organizou um mutirão para construir uma casa por vez, priorizando as famílias mais necessitadas. Todos ajudaram com a mão de obra, inclusive as trabalhadoras rurais.

“As mulheres do assentamento são fortes e guerreiras, eram elas que preparavam a argamassa, faziam reboco de parede e carregavam os tijolos”, conta Sandra.

“O momento mais importante da minha vida foi a construção da minha casa, a emoção de poder ver o meu espaço, pois desde a minha juventude eu não tinha um lar, um lugar para chamar de meu.”

A residência da agricultora foi a última a ser construída, já que ela deu prioridade às outras famílias que estavam mais necessitadas. Depois que as famílias conseguiram se estabilizar, a mobilização das mulheres do assentamento ganhou outro objetivo — trazer luz elétrica para o município. Em 2003, foram instalados os postes de iluminação na cidade.

“A chegada da luz foi uma imensa alegria para nós. Principalmente para as nossas crianças, que não conheciam a televisão nem a geladeira”, conta Sandra.

Atualmente, vivem no município 33 famílias. Em sua maioria, os jovens da comunidade possuem formação superior. Ainda assim, preferem voltar e trabalhar com a agricultura familiar. “Hoje a nossa vida é um paraíso, temos uma produção muito boa e diversificada”, explica Sandra. As agricultoras produzem pimenta, açafrão, rapadura, melado, leite e também artesanato.

“A mulher é o esteio da casa e na agricultura mais ainda. São elas que produzem e dão assistência à comunidade, são autoras de tudo e não são reconhecidas. São as agricultoras as primeiras a levantar, vão à luta e são as últimas a dormir”, acrescenta a agricultora.

15 dias pela autonomia das mulheres rurais

Os papéis desempenhados pelas mulheres rurais são tão numerosos quanto suas lutas e vitórias. O que não faltam são histórias de vida inspiradoras. No entanto, elas ainda não têm o reconhecimento merecido. Sofrem com o preconceito e a desigualdade de gênero.

Ainda há um longo caminho para a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres no campo. A fim de mostrar que a equidade de gênero e o respeito são valores necessários cotidianamente, a ONU decretou 2018 como o Ano da Mulher Rural.

A partir de 1º de outubro, serão publicadas no portal da FAO uma série de reportagens que fazem parte da Campanha Regional pela Plena Autonomia das Mulheres Rurais e Indígenas da América Latina e do Caribe – 2018. Serão 15 dias de ativismo em prol das trabalhadoras rurais que, de acordo com o censo demográfico mais recente, são responsáveis pela renda de 42,2% das famílias do campo no Brasil.

Para acessar todas as matérias da campanha, clique aqui.


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