Agências da ONU e governo inauguram novo abrigo para venezuelanos em Roraima

Para o casal Jan e Sonia, seus filhos e sobrinha, a casa no abrigo Rondon I representa uma nova fase em suas vidas. Foto: ACNUR/Reynesson Damasceno

O Governo Federal e organismos das Nações Unidas inauguraram em Boa Vista, na última sexta-feira (20), o décimo abrigo temporário para venezuelanos em Roraima. Com capacidade para 600 pessoas, as instalações contam com as unidades habitacionais “Better Shelter” (Moradia Melhor, em tradução livre), já utilizadas pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em operações humanitárias e instaladas pela primeira vez na América Latina.

O abrigo Rondon I recebeu venezuelanos que estavam vivendo em situação de rua na capital roraimense. A construção do local foi uma das iniciativas da Operação Acolhida, uma parceria das autoridades brasileiras com o ACNUR e outras instituições da ONU.

Realizada pelas equipes do ACNUR e das Forças Armadas, a seleção dos estrangeiros para o centro de residência priorizou famílias e pessoas em situação de maior vulnerabilidade, como mulheres grávidas, idosas e indivíduos com deficiência. No Rondon I, foram montadas 120 unidades habitacionais conhecidas como “Better Shelter”. As estruturas comportam até seis pessoas, possuem quatro janelas, divisória e são abastecidas com energia solar renovável.

A montagem de cada unidade — incluindo paredes e colocação de parafusos — leva em média quatro horas de trabalho manual. Cerca de 30 militares da Operação Acolhida, funcionários da Associação Voluntários para o Serviço Internacional – Brasil (AVSI Brasil) e voluntários da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Humanos (ADRA) receberam treinamento para erguer as casas.

Os venezuelanos começaram a chegar ao novo abrigo por volta das cinco da manhã de sexta-feira. As feições expressavam cansaço, pelos dias de incertezas e extrema dificuldade. Após uma dura jornada desde que foram forçadas a deixar a Venezuela em busca de proteção e direitos básicos, essas pessoas finalmente tiveram acesso a uma moradia.

Antes de chegar ao Rondon I, os venezuelanos Edgardo e Joselyn estavam vivendo no terminal rodoviário de Boa Vista. Foto: ACNUR/Reynesson Damasceno

Os solicitantes de refúgio Jan, de 39 anos, e Sonia, de 31, chegaram ao Brasil há uma semana, com quatro filhos e um sobrinho. A família estava vivendo nos arredores do terminal rodoviário de Boa Vista. “Estava muito difícil. Estávamos dormindo sob um papelão e, quando chovia, ficava encharcado”, conta Jan.

Ao entrar na casa nova, no Rondon I, as crianças sorriram e aprovaram. Com um olhar de alívio, Sônia via a alegria dos filhos e do sobrinho. “Agora temos o mínimo para recomeçar nossas vidas”, disse.

Edgardo, de 43 anos, e Joselyn, de 28, também estavam vivendo na rua desde que chegaram a Boa Vista, há mais de uma semana. O casal aprovou a unidade habitacional e ressaltou a importância de resgatar a dignidade da moradia. “Queremos viajar para alguma cidade que nos ofereça melhores opções de trabalho”, conta Edgardo que, na Venezuela, trabalhava com construção civil. Os dois planejam deixar o abrigo assim que tiverem condições de ir para outro estado.

As unidades habitacionais “Better Shelter” foram instaladas pela primeira vez na América Latina em Roraima. Residências já são utilizadas pelo ACNUR em operações humanitárias no resto do mundo. Foto: ACNUR/Reynesson Damasceno

Na abertura do Rondon I, equipes de saúde da Prefeitura de Boa Vista vacinaram todas as pessoas recebidas. O ACNUR coletou dados biométricos para produzir os documentos de identificação que darão acesso ao abrigo e aos serviços oferecidos no local. Os moradores do centro recebem alimentação, cuidados médicos e também itens de assistência emergencial, como kits de higiene pessoal.

O abrigo será coordenado pela AVSI, organização parceira do ACNUR, e pelas Forças Armadas, que são responsáveis pela infraestrutura física das instalações e pelo fornecimento de serviços, incluindo transporte e segurança.

Com a abertura do Rondon I, os abrigos de Roraima agora acolhem cerca de 4,6 mil pessoas que antes viviam em situação de extrema vulnerabilidade. O ACNUR e outras agências da ONU têm trabalhado com o Governo Federal na resposta ao fluxo de venezuelanos vindo para o Brasil. Os organismos das Nações Unidas colaboram com as autoridades garantindo o ordenamento na fronteira, acolhimento em abrigos e apoio ao processo de interiorização.