Agência da ONU leva assistência psicológica para refugiados rohingya em Bangladesh

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

Quando o barco de pesca abarrotado de pessoas parou de funcionar durante a tempestade, Nurus Salam foi arremessado ao mar segurando seu único filho. Ele o agarrou tão forte quanto podia, mas as ondas afrouxaram seus braços. De repente, Abdul, de dois anos, se foi. “Quando fecho os olhos, eu continuo ouvi-lo a chorar: ‘papai, papai'”, lamenta o sobrevivente, que deixou seu país de origem, Mianmar, devido à perseguição ao povo rohingya.

Nurus, de 22 anos, está entre os 27 sobreviventes de um naufrágio ocorrido próximo à costa de Bangladesh. Ele é um dos rohingya que recebem assistência psicológica da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Rashida Begum perdeu seu filho durante o naufrágio de uma embarcação que deixava Mianmar rumo a Bangladesh. Foto: ACNUR/Roger Arnold

Rashida Begum perdeu seu filho durante o naufrágio de uma embarcação que deixava Mianmar rumo a Bangladesh. Foto: ACNUR/Roger Arnold

Quando o barco de pesca abarrotado de pessoas parou de funcionar durante a tempestade, Nurus Salam foi arremessado ao mar segurando seu único filho. Ele o agarrou tão forte quanto podia, mas as ondas afrouxaram seus braços. De repente, Abdul, de dois anos, se foi. “Quando fecho os olhos, eu continuo ouvi-lo a chorar: ‘papai, papai'”, lamenta o sobrevivente, que deixou seu país de origem, Mianmar, devido à perseguição ao povo rohingya.

Nurus, de 22 anos, está entre os 27 sobreviventes de um naufrágio ocorrido próximo à costa de Bangladesh no dia 26 de setembro. O incidente deixou pelo menos 23 pessoas. O número de vítimas é provavelmente maior. Na tragédia, o jovem também perdeu sua esposa, Sanjida, de 18 anos. O rapaz está fazendo sessões de terapia no campo de refugiados de Kutupalong, com uma psicóloga da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Vinte dos sobreviventes se reúnem na sala da Escola Primária Peacock, que está funcionando como acomodação temporária. Sentada de pernas cruzadas no chão, outra refugiada, a jovem Rashida Begum, de 23 anos, conta à terapeuta, Mahmuda, como perdeu sua filha, de sete meses, na arrebentação.

As histórias de morte e sofrimento se repetem. Para esses refugiados, a assistência psicológica é uma necessidade urgente.

Mahmuda, psicóloga do ACNUR, conversa com Nurus Salam, de 22 anos, refugiado rohingya sobrevivente de um naufrágio perto de Cox's Bazar, Bangladesh. Foto: ACNUR/Roger Arnold

Mahmuda, psicóloga do ACNUR, conversa com Nurus Salam, de 22 anos, refugiado rohingya sobrevivente de um naufrágio perto de Cox’s Bazar, Bangladesh. Foto: ACNUR/Roger Arnold

Abder Rashid, de 16 anos, explica que seu pai foi morto a tiros em Mianmar. Sua mãe se afogou quando o barco saiu da praia e, como é o mais velho dos quatro irmãos que restaram, tornou-se o novo chefe da família. “Agora eu tenho que cuidar dessas crianças. Não há mais ninguém”, diz a Mahmuda. “Eu sinto o peso dessa responsabilidade quando tento dormir.”

Psicóloga educacional e terapeuta com cinco anos de treinamento, Mahmuda também estudou psicoterapia e tem especialização em transtorno de estresse pós-traumático. Ela é a única psicóloga que o ACNUR tem nos dois campos de refugiados oficiais do governo de Bangladesh — Kutupalong e Nayapara. A profissional também atua em regiões de moradias precárias, que se expandem sem controle por causa da chegada de novos rohingya vindos de Mianmar. Há outros cinco psicólogos trabalhando com organizações parceiras, mas não há psiquiatras.

Sessões de grupo

Mahmuda realizou uma sessão de grupo com todos os 27 sobreviventes do naufrágio e prestou atendimento individual com 14 dos homens, mulheres e crianças que chegaram à praia com vida.

“Todos os refugiados passaram por muitas experiências traumáticas”, avalia a psicóloga. “Eles caminharam por três ou quatro dias ou vieram de barco. Eles testemunharam massacres, tiroteios, torturas, estupros. Eles viram de tudo.”

Falando com calma e segurança, ela começa a segunda sessão de grupo com uma mensagem clara para os pacientes: “Você está vivo. Você está seguro. Você não está sozinho. Estamos com você”.

Estudos de saúde mental mostram que os refugiados são surpreendentemente resilientes. A maioria reage ao deslocamento e perdas com estresse agudo e reações de dor. Uma proporção menor — geralmente não mais do que um em cada cinco — apresenta formas leves ou moderadas de problemas de saúde mental, incluindo o transtorno de estresse pós-traumático. Um número menor desenvolve distúrbios graves, como transtorno bipolar ou psicose.

Mahmuda tem recursos e tempo extremamente limitados. O psiquiatra mais próximo está em Dhaka, e ela é capaz de oferecer apenas o básico aos médicos do campo — que tiveram um curso intensivo em saúde mental. A terapeuta tem poucas opções de encaminhamento para outras redes de saúde nos acampamentos.

Apesar das dificuldades, os refugiados já mostram sinais de melhoras. Rashida está começando a aceitar a perda de seu bebê. “Quando estávamos em Mianmar, minha filha poderia ter sido morta pelo exército ou qualquer outra pessoa. Estou me dando esse consolo. Eu a perdi, mas tenho que sobreviver.”

Abder diz que está assustado com a responsabilidade de cuidar dos irmãos, de oito, nove e 12 anos. Ele escuta avidamente quando Mahmuda lhe dá informações sobre o apoio disponível. A psicóloga lhe explicou que há um espaço para crianças no campo, onde seus irmãos podem desenhar, jogar bola, fazer brinquedos e recuperar um pouco da infância.

“Essas pessoas têm o direito de viver com dignidade e boa saúde mental, mas somos muito limitados em nossa capacidade.”

Perguntada sobre o que precisa para ajudar seu grupo de pacientes que cresceu 15 vezes em pouco mais de um mês, a terapeuta é objetiva: pelo menos um psiquiatra, dois psicólogos infantis e treinamento para a equipe médica nos campos, para que possam fornecer cuidados básicos de saúde mental para os refugiados rohingya.

“Se houver alguém que possa nos estender a mão, agradeceremos”, completa.


Mais notícias de:

Comente

comentários