No Afeganistão, mulheres jornalistas desafiam a violência – e o machismo

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Os perigos do trabalho como jornalista no Afeganistão foram relembrados em um novo ataque na capital Cabul no final de abril. Nove fotógrafos e repórteres afegãos foram mortos. Os profissionais, que estavam na região para reportar um ataque suicida, foram alvejados por um segundo homem-bomba ao chegar ao local.

Fora da capital afegã, os perigos de realizar reportagens, particularmente para mulheres jornalistas, nunca foram tão claros. Confira nessa matéria especial.

Interior de um estúdio de rádio afegão, onde mulheres reivindicam democracia e direitos humanos. Foto: UNAMA/Fardin Waezi)

Interior de um estúdio de rádio afegão, onde mulheres reivindicam democracia e direitos humanos. Foto: UNAMA/Fardin Waezi)

Os perigos do trabalho como jornalista no Afeganistão foram relembrados em um novo ataque na capital Cabul no final de abril. Nove fotógrafos e repórteres afegãos foram mortos. Os profissionais, que estavam na região para reportar um ataque suicida, foram alvejados por um segundo homem-bomba ao chegar ao local.

Os assassinatos ocorreram poucos dias antes do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, celebrado anualmente no dia 3 de maio. Fora da capital afegã, os perigos de realizar reportagens, particularmente para mulheres jornalistas, nunca foram tão claros.

Sediqa Sherzai é diretora de notícias da emissora de TV e rádio Roshani, uma organização de mídia em Kunduz, no norte do país. Suas repórteres estão sob constante ameaça não apenas de insurgentes, mas também de homens que não querem mulheres trabalhando na mídia.

“Quando insurgentes tomaram Kunduz em 2015, vieram imediatamente para nossa estação porque não apreciavam o conteúdo focado nos direitos da mulher”, afirmou. “Embora a maioria de nossas repórteres tenha fugido antes da chegada [dos insurgentes], eles roubaram nosso equipamento e destruíram o que não puderam levar.”

Eleições

Apesar dos desafios que mulheres enfrentam ao trabalhar na mídia em um país conservador e afetado por conflitos, Sediqa Sherzai está comprometida em garantir que as vozes das mulheres afegãs sejam ouvidas previamente às eleições, marcadas para outubro desse ano.

Na volátil província de Kunduz, onde parte do território não está sob controle do governo, mulheres dizem ter medo de falar com a imprensa e se pronunciarem sobre direitos humanos. Também não há liberdade para defender mudanças e uma democracia aberta.

Até mesmo Sediqa Sherzai e sua equipe de mulheres evitam fotografias, cautelosamente protegendo suas identidades.

As eleições são consideradas essenciais para solidificar os frágeis avanços na proteção de direitos humanos e questões sociais conquistados ao longo dos últimos 17 anos. A luta pelo voto feminino no Afeganistão, reminiscente a movimentos similares que tiveram palco nos séculos passados em outros países, ganhou maior apoio internacional nas últimas duas décadas.

ONU no Afeganistão

Lutando por mudança, a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA) tem prestado apoio a iniciativas que oferecem espaço para mulheres afegãs em todos os setores da sociedade para lutar contra a opressão e o conflito – e também defender direitos humanos básicos, incluindo o direito ao voto.

O chefe da UNAMA, Tadamichi Yamamoto, disse – marcando o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa – que a ONU continua a pressionar o governo para implementar medidas que melhorem a segurança de jornalistas e garantam uma mídia aberta “onde nenhuma voz é silenciada devido ao medo”.

“As mulheres não querem falar porque estão sob ameaça, mas também por causa das restrições tradicionais, incluindo pais e maridos as proibindo de falar.”
– Sediqa Sherzai, jornalista

Sherzai afirmou que um código não escrito para silenciar as mulheres é forte em Kunduz. “Mulheres não querem falar porque estão sob ameaça, e também por conta de restrições tradicionais, incluindo pais e maridos as proibindo de prestar declarações.”

Como diretora de notícias em uma cidade ameaçada pela guerra, Sherzai enfrenta um dilema ao tentar despachar repórteres para o campo. “Não podemos dizer que estamos de fato refletindo a visão das mulheres quando até mesmo nossas próprias repórteres estão sob constante ameaça”, completou.

Democracia

Mesmo se Kunduz, uma movimentada cidade de cerca de 500 mil habitantes, não estivesse em conflito de maneira quase constante, ainda haveria grandes obstáculos à participação total de mulheres na democracia, dizem oficiais e ativistas dos direitos humanos.

“Existe um problema prevalente em nossa sociedade, onde até mesmo homens com destreza em negócios e política não querem que suas mulheres votem”, disse Lida Sherzad, uma ativista que trabalha com a Afghanistan Women’s Network (AWN).

“Existe um imenso preço a ser pago em termos de danos psicológicos e pressão em mulheres e suas crianças. Essas mães me perguntam por que devem participar em eleições se ninguém está as protegendo.”

O direito das mulheres ao voto acompanha os diversos esforços da AWN para criar redes sociais e conectar diferentes grupos de mulheres. Criando, assim, um esforço comum para lutar pelo fim da violência contra as mulheres e a favor de lideranças femininas.

Ativistas dos direitos da mulher afirmam que, embora o progresso tenha sido lento em determinados aspectos, os últimos 17 anos representaram grande avanço para as mulheres afegãs. Durante o comando do Talibã, no fim dos anos 1990 e no decorrer do ano de 2001, mulheres foram confinadas em suas casas e impedidas de serem educadas.

Muitas mulheres trabalhando na mídia em Kunduz deixaram a prática durante o período do Talibã, mas Sediqa Sherzai diz que se insurgentes entrarem novamente na cidade, pela terceira vez em cinco anos, ela “defenderá a estação se necessário”.


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