ACNUR: Projeto social no Paraná promove autossuficiência de refugiados que vivem no Brasil

No Paraná, irmãos sírios formados em engenharia e odontologia dão aula de culinária árabe para brasileiros e desempenham outras atividades para se manterem financeiramente. A realidade deles é a de muitos refugiados com formação superior que aguardam a revalidação de seus diplomas para começarem a trabalhar em seus ramos de atuação originais, no Brasil.

 Said e Hazuam, vivendo no Brasil, veem na culinária uma possibilidade de se manterem financeiramente no país. Foto: ACNUR / Michele Bravos


Said e Hazuam, vivendo no Brasil, veem na culinária uma possibilidade de se manterem financeiramente no país. Foto: ACNUR / Michele Bravos

Os irmãos sírios Said e Hazuam Kanoush* são, respectivamente, engenheiro e dentista. Na semana passada, porém, eles assumiram o papel de chefes de cozinha para ensinar ao público brasileiro como preparar uma típica comida árabe.

A aula, que aconteceu em Curitiba e permitiu uma troca única de saberes, marcou o lançamento do Projeto Linyon, que busca promover a autossuficiência de refugiados vivendo no Brasil, associando-a ao desenvolvimento das comunidades onde eles se encontram.

Os irmãos sírios explicam que querem trabalhar com comidas árabes, atendendo por encomenda ou realizando jantares típicos a domicílio, enquanto não for possível atuar em suas áreas de especialização.

“Nesta noite, estamos divulgando o que sabemos fazer e conhecendo outras pessoas da cidade”, conta Hazuam.

Ainda que muitos refugiados possuam diplomas universitários, a integração econômica no Brasil tem sido difícil. O processo de revalidação desses diplomas leva tempo. Por isso, mesmo aqueles considerados mão de obra qualificada, com graduação acadêmica, têm que trabalhar em áreas diferentes da sua formação.

A internacionalista Marcela Milano, idealizadora do Projeto Linyon, conta que o projeto está focado em fomentar o empreendedorismo e contribuir para a formação de uma cultura integradora. “Queremos gerar empatia entre os refugiados e os que já vivem na cidade, possibilitando uma quebra de preconceito”.

Milano percebe que alternativas de geração de renda são uma opção para esta população. “Os refugiados precisam ter sua autonomia financeira e se integrarem ao novo país”, disse.

Este primeiro evento foi dedicado à promoção da cultura árabe, mas o Projeto Linyon também tem trabalhado com outras populações, como haitianos e migrantes vindos do continente africano.

Mobilização virtual ajudou irmãos sírios a se reencontrarem

Said, hoje com 30 anos, foi o primeiro dos irmãos a chegar ao Brasil, em 2014. Nos primeiros meses, resolveu abrir um restaurante árabe, sem conhecer o processo burocrático que isso envolveria, nem a dificuldade que teria para criar uma clientela.

Ao ver o restaurante vazio, a escrivã Deborah Torres, de 37 anos, resolveu divulgar o local em um grupo no Facebook. “Pensei que precisava fazer alguma coisa para movimentar aquele lugar e ajudar os refugiados”, diz Deborah. Logo, formou-se uma rede que abraçou a causa da família síria.

Mas com pouco tempo de negócio aberto, o restaurante foi assaltado, causando um enorme prejuízo para Said. Com a ajuda de uma rede de apoio, o refugiado conseguiu se estabilizar e até mesmo trazer o seu irmão Hazuam para o Brasil. “Nós conseguimos arrecadar 6 mil reais para trazer o irmão de Said. Vendemos muitas rifas! ”, conta Deborah. O objetivo agora é trazer a mãe dos rapazes e a esposa grávida de Hazuam.

Os sírios Said e Hazuam posam para uma foto ao lado da equipe que integra o projeto Linyon, em Curitiba. Foto: ACNUR / Michele Bravos

Os sírios Said e Hazuam posam para uma foto ao lado da equipe que integra o projeto Linyon, em Curitiba. Foto: ACNUR / Michele Bravos

A busca pela autossuficiência cria novas perspectivas para Said e Hazuam, vítimas de um conflito que já dura mais de cinco anos.

Said deixou seu país por se recusar a integrar as forças armadas. “Não queria lutar. Não queria morrer”, conta. Após deixar a Síria, foi para o Líbano e conseguiu apoio em uma igreja local. Por meio de contatos desta instituição, acabou vindo para o Brasil e se estabeleceu no Paraná.

Atualmente, ele trabalha em uma lanchonete no centro da cidade, das 19h às 5h. Em seguida, após descansar um pouco, vai para a segunda jornada de trabalho, das 10h às 19h. Dessa vez, como vendedor de pão sírio, distribuindo o produto nos restaurantes. Ele também trabalha como vendedor de roupas que busca em São Paulo.

Até que o diploma seja revalidado e ele possa atuar como engenheiro, Said está confiante quanto à possibilidade de também trabalhar com as encomendas de comida árabe.

O dentista Hazuam, de 35 anos, sempre teve os olhos voltados para o mundo e sonhos que extrapolavam as fronteiras de seu país. Logo que se formou em odontologia, em 2003, mudou-se para o Canadá para poupar dinheiro para a construção do seu consultório. Quatro anos depois, retornou ao país de origem e realizou o seu desejo.

“Sabe quando você passa toda a sua vida para realizar um sonho? Sinto que eu dediquei mais da metade dela para os estudos, para alcançar o que eu queria”. Mas a guerra em seu país destruiu seus sonhos, e ele acabou deixando a Síria novamente – desta vez, para viver como refugiado no Brasil, aonde chegou no começo desse ano.

Dentro de algumas semanas, Hazuam será pai de sua primeira filha, que se chamará Nicolli. “Quando você vai ser pai, você quer que seu bebê cresça em um ambiente melhor. Eu tenho esperança nisso, por isso estou aqui”.

Por Michele Bravos, de Curitiba, para o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

(*) Os nomes dos refugiados nesta matéria foram alterados a pedido dos mesmos.