ACNUR: jovem refugiado da Guiné carrega Tocha Olímpica em Curitiba

Abdoulaye Kaba é o segundo refugiado a carregar a Chama Olímpica no Brasil. O jovem de apenas 18 anos veio para o Brasil em 2012 e mora no Rio de Janeiro. Seu sonho é ser jogador profissional de futebol. Atualmente, ele joga como meio-campista da equipe Sub-20 do São Gonçalo Futebol Clube.

Para o refugiado Abdoulaye Kaba, conduzir a Tocha Olímpica foi um momento de muita honra e responsabilidade, pois ele representou os refugiados de todo o mundo. Foto: ACNUR / L.F.Godinho

Para o refugiado Abdoulaye Kaba, conduzir a Tocha Olímpica foi um momento de muita honra e responsabilidade, pois ele representou os refugiados de todo o mundo. Foto: ACNUR / L.F.Godinho

Com um largo sorriso estampado no rosto e o fôlego de quem pratica futebol profissionalmente, o refugiado guineense Abdoulaye Kaba, de 18 anos, participou na quinta-feira (14) do revezamento da Tocha Olímpica em Curitiba, no Paraná, e venceu com velocidade os 200 metros mais emocionantes de sua vida.

“Me senti muito bem e feliz. Estou orgulhoso. Tinha muita gente gritando e tirando fotos comigo. Foi tudo muito rápido, e parece que corri um quilômetro”, afirmou Abdoulaye após participar do revezamento.

Ele é o segundo refugiado a carregar a Chama Olímpica no Brasil, que iniciou sua trajetória por diferentes cidades do país no dia 3 de maio. Naquela data, em Brasília, um dos principais símbolos dos Jogos Olímpicos foi conduzido pela refugiada síria Hanan Daqqah, de 12 anos.

O revezamento da Tocha se encerra no dia 5 de agosto, na cerimônia de abertura das Olimpíadas Rio 2016.

“Foi uma uma honra muito grande. É uma oportunidade que todo atleta quer ter e algo grandioso em minha carreira de jogador que ficará escrito no meu coração. É também muita responsabilidade, pois sinto que representei todos os refugiados do mundo”, afirmou Abdoulaye, que vive no Brasil desde 2012.

Morando no Rio de Janeiro, ele atua como meio-campista da equipe Sub-20 do São Gonçalo Futebol Clube — time que disputa a segunda divisão do Campeonato Carioca.

Assim como a refugiada síria Hanan, o guineense Abdoulaye Kaba foi escolhido pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos Rio 2016 para ser um dos condutores da Chama Olímpica a partir de uma sugestão da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

A condução da Tocha por refugiados é um gesto de solidariedade dos Comitê das Olimpíadas e Paralimpíadas para com as milhões de pessoas forçadas a fugir por causa de guerras e perseguições.

Em todo o mundo, existem mais de 65 milhões de deslocados por causa de conflitos armados, sendo que 21,3 milhões são refugiados. Ou seja: cruzaram uma fronteira internacional em busca de proteção. As atuais estatísticas, referentes ao final de 2015, representam um aumento de 10% em relação ao final de 2014.

O crescimento do deslocamento forçado no mundo tem impactado o Brasil. Segundo dados do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE), as solicitações de refúgio no país cresceram 2.868% nos últimos cinco anos. Passaram de 966, em 2010, para 28.670, em 2015. Até 2010, haviam sido reconhecidos 3.904 refugiados.

Em abril deste ano, o total chegou 8.863, o que representa um aumento de 127% no acumulado de refugiados reconhecidos – incluindo reassentados.

Entre eles está Abdoulaye, que foi forçado a deixar seu país por causa da perseguição sofrida por sua família. Sua familiaridade com o futebol – ele já praticava o esporte em Conacri, capital da Guiné – o levou aos gramados brasileiros e agora, ele quer se firmar como jogador profissional.

“Estou correndo atrás do meu sonho”, diz Abdoulaye, repetindo o mantra de vários jovens que pretendem ganhar a vida como profissionais do esporte mais popular do país.

“Sou jogador de futebol e, ao carregar a Tocha Olímpica, entrei para a história das Olimpíadas do Rio. É uma grande coisa na minha vida”, afirma Abdou – como é chamado pelos amigos brasileiros. Ele diz que não tem planos de voltar para a Guiné e pretende, inclusive, trazer para o Brasil os irmãos e outros familiares que ainda vivem no país. “Sempre fui bem tratado pelos brasileiros. Gosto muito do país.”

Sobre seu futuro, diz que quer concluir os estudos colegiais e cursar a faculdade de Educação Física porque “o esporte é a minha vida”.

Jovens de Curitiba conversam e pedem autógrafos a Abdou. Foto: Luiz Fernando Godinho

Jovens de Curitiba conversam e pedem autógrafos a Abdou. Foto: Luiz Fernando Godinho

A participação de Abodulaye no revezamento da Tocha Olímpica em Curitiba foi bem recebida pelas autoridades municipais. Para o coordenador da Assessoria de Direitos Humanos da Prefeitura, Igo Martini, a vinda de um refugiado africano à cidade para participar do evento “ajuda a quebrar muitos preconceitos, num momento em que enfrentamos graves situações de racismo, intolerância e xenofobia”.

“Receber o refugiado Abdoulaye em nossa cidade para o revezamento da Tocha Olímpica não é importante apenas pela representatividade das Olimpíadas, mas é também uma inspiração para as organizações curitibanas que têm atuado na causa dos refugiados”, afirmou Martini.

A escolha de Curitiba como local da participação do refugiado no revezamento da Tocha Olímpica se justifica pelo crescimento no número de refugiados e solicitantes de refúgio que vivem no Paraná.

De acordo com dados do Comitê Estadual de Refugiados e Migrantes, de 2011 a 2015, o estado recebeu cerca de 2,4 mil solicitações de refúgio — 22 vezes mais se comparado aos pedidos existentes até 2011.

Equipe Olímpica de Refugiados

Outras iniciativas entre o ACNUR e o Comitê Rio 2016 estão dando visibilidade ao tema dos refugiados na agenda dos Jogos Olímpicos deste ano. Em parceria com a Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, 38 refugiados que vivem na cidade foram selecionados para atuar como voluntários nos Jogos.

Além disso, a realidade dos refugiados é um dos temas do “Desafio da Trégua Olímpica” do Transforma – programa de educação do Comitê Organizador que leva os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 para dentro das escolas, envolvendo mais de 6 milhões de alunos em cerca de 10 mil escolas dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal.

Com o apoio do ACNUR, o Comitê Olímpico Internacional (COI) organizou a Equipe Olímpica de Atletas Refugiados – a primeira desse tipo em toda a história dos Jogos Olímpicos. A equipe é composta por dez atletas refugiados que competirão sob a bandeira do COI.

Por Luiz Fernando Godinho e Michele Bravos, de Curitiba.