ACNUR: Feirão do Emprego ofereceu vagas de trabalho e capacitação para 550 migrantes e refugiados

Evento em São Paulo contou com apoio da Agência da ONU para Refugiados e buscou promover inserção de estrangeiros no mercado de trabalho brasileiro. Além de empregos, Feirão também disponibilizou oportunidades de formação e serviços de assistência jurídica, social e de saúde.

Feirão do Emprego atendeu a 550 migrantes e refugiados residentes de São Paulo. Foto: Governo de São Paulo

Feirão do Emprego atendeu a 550 migrantes e refugiados residentes de São Paulo. Foto: Governo de São Paulo

Na semana passada, centenas de migrantes e refugiados se reuniram ao amanhecer da segunda-feira (18), à espera da abertura do Centro de Integração da Cidadania do Imigrante, no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Às 9h, as senhas de ingresso foram distribuídas e, aos poucos, um total de 550 pessoas chegou ao terceiro Feirão do Emprego do estado de São Paulo voltado para estrangeiros.

Promovida pela Assessoria Internacional do governo estadual em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o Pacto Global e o Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR), a iniciativa tenta facilitar a inserção de migrantes e deslocados no mercado de trabalho brasileiro.

Em 2016, o número de participantes da feira foi maior do que o dobro registrado em 2015, quando cerca de 250 pessoas compareceram ao evento. Segundo a representante da Assessoria Especial para Assuntos Internacionais do estado, Danielle do Prado, o comparecimento massivo motivou e surpreendeu os organizadores da feira.

“A vinda de imigrantes e refugiados ao Brasil tem crescido constantemente, e o desconhecimento por parte dos brasileiros é ainda muito grande”, afirmou Prado. “É fundamental que trabalhemos para derrubar preconceitos e, principalmente, para esclarecer que o trabalho é um elemento extremamente agregador para os imigrantes e refugiados.”

O Feirão permitiu aos refugiados e imigrantes residentes em São Paulo preencher pelo menos dois grandes cadastros de empregos: o do Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT), do governo estadual, e o do PARR.

O evento também colocou os participantes em contato com oito empresas privadas e outros organismos interessados em contratar.

“Gostaria de chamar mais empresas a se unirem a nós no esforço de integrar imigrantes e refugiados à nossa sociedade”, ressaltou Prado.

A costureira Eveline Keta, de 36 anos, e a enfermeira Carmele Makvanda, de 31 anos, esperaram algumas horas na fila para se cadastrarem. Ambas chegaram a São Paulo em fevereiro, vindas da República Democrática do Congo, e atualmente moram em um abrigo destinado exclusivamente a mulheres refugiadas.

“Nós precisamos de emprego. Qualquer um serve. Não temos escolha”, disse Eveline. “Eu gosto do Brasil. Quero trazer meus três filhos para cá porque eu não vou mais voltar para o Congo. Não volto para lá. Mas sem emprego, fica difícil.”

A ansiedade das congolesas era compartilhada pela maioria dos estrangeiros presentes que, se não conseguiram de imediato o emprego sonhado, puderam ao menos se registrar para futuras vagas.

A empresa Gi Group – que teve o cuidado de ministrar sucessivas palestras sobre como elaborar um bom currículo e como se apresentar para uma entrevista de emprego – cadastrou interessados para vagas disponíveis de vendedor externo, operador de telemarketing, supervisor e executivo de contas júnior.

O Abraço Cultural, organização não governamental voltada para o ensino de idiomas – espanhol, francês, inglês e árabe –, procurava potenciais professores entre os estrangeiros.

“Buscamos pessoas mais capacitadas para dar aulas em empresas ou para atender a demandas mais específicas dos estudantes. Mas não vamos cortar alguém com bom potencial porque não tem experiência como professor. Nós mesmos os preparamos para dar aulas”, afirmou a professora de francês da organização, Karina Noçais.

A produtora Colobe Filmes montou um estande para registrar possíveis figurantes e atores para seus futuros vídeos. Já as empresas de serviços Concentrix e ACP cadastraram potenciais empregados para vagas de menor qualificação profissional, como as de serviços de limpeza.

“Viemos aqui por motivação social. Contratamos os trabalhadores estrangeiros conforme as regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e o piso salarial definido pelo sindicato, exatamente como os brasileiros”, destacou o diretor operacional da ACP, Alexandre José de Oliveira.

A Mapa recrutou potenciais atendentes para bares e restaurantes, e o Centro Integrado do Imigrante colheu cadastros para 50 vagas de costureira, enquanto expunha seus serviços de remessa de divisas e de abertura de conta corrente em bancos do Brasil.

Em um estande do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), os participantes do Feirão puderam ainda receber as primeiras instruções sobre como montar uma microempresa. Inscrições em curso profissionalizantes também foram abertas pelo organismo.

O Fundo de Solidariedade do estado de São Paulo ofereceu 30 vagas para cursos de beleza, moda, construção civil e padaria artesanal. O Centro de Assistência Social e Jurídica para Imigrantes e Refugiados não estava oferecendo vagas de trabalho, mas abriu inscrições para o aprendizado gratuito de português, inglês e francês.

Além de empregos e oportunidades de capacitação, o Feirão ofereceu também outros serviços aos estrangeiros. A Defensoria Pública da União, por exemplo, forneceu aconselhamento e auxílio jurídicos. O Cadastro Único recebeu inscrições de estrangeiros que podem ser beneficiados pelo Bolsa Família.

Refugiados e imigrantes puderam ainda aferir a pressão sanguínea, cortar os cabelos e receber orientação sobre seu acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) e aos postos médicos locais. Também tiveram a chance de se inscrever para atendimento odontológico gratuito oferecido pela universidade UNINOVE.

“Eu era motorista de caminhão, em Angola, e quero voltar à minha profissão aqui no Brasil. Para isso, preciso trabalhar e juntar dinheiro para tirar a carteira de habilitação brasileira. Esse é o meu plano”, relatou Carlo Nzinga, de 32 anos, há três meses em São Paulo, logo depois de ter seu cabelo e barba aparados por um cabeleireiro voluntário.

Por Denise Chrispim, de São Paulo.