ACNUR e parceiros premiam vídeos do Festival do Minuto sobre refúgio e deslocamento forçado

Na popular feira de Jequié, a 365 quilômetros de Salvador, na Bahia, o cineasta Dado Galvão surpreendeu vendedores e frequentadores ao entregar em suas mãos fotos de refugiados fugindo da guerra e da violência. Com sua câmera, registrou 22 imagens – mãos calejadas e rostos espantados entre barracas de carnes e algodão-doce – e editou o material em um vídeo de um minuto de duração.

O resultado – o filme Ninguém Fica de Fora – foi um dos seis premiados pela edição especial do Festival do Minuto que teve como tema a crise de deslocamento forçado que já afeta 65,3 milhões de pessoas. A escolha dos vencedores aconteceu no último sábado (18), em São Paulo, como parte das comemorações do Dia Mundial do Refugiado (20).

“As mesmas lonas da feira de Jequié podem ser as das tendas para refugiados espalhadas pelo mundo”, disse Galvão, ao receber seu prêmio. “Ninguém fica de fora é uma causa nossa, seja em Jequié, no Acre ou aqui.”

O vídeo de Dado Galvão e dois outros filmes – The Stranger, de Diana Shabazyan, e Travessias de Sangue, de Ailton da Costa – foram premiados de acordo com critérios adotados pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Já os curtas Maré ou Jogo do Homem, de Jeannie Helleny, Gritos e Choros de Marie, de Rodrigo Vrech, e Congolese Refugee, Serge Makanzu Kiala, de Kim Badawi, foram premiados pela curadoria do Festival do Minuto.

Encerramento da premiação foi conduzido à capela pelo grupo “Os Escolhidos”, composto por refugiados da República Democrática do Congo e de Angola. Foto: ACNUR / F. Faria

A edição do Festival dedicada especialmente à temática do refúgio foi fruto de uma parceria entre as duas entidades em conjunto com o Serviço Social do Comércio — SESC São Paulo. No total, mais de 140 filmes foram inscritos. Desses, 22 foram exibidos como finalistas e concorreram aos seis prêmios.

A exibição das produções finalistas foi um momento delicado para a plateia reunida no sábado, no auditório do SESC Vila Mariana. Formado especialmente por refugiados de diferentes nacionalidades, além de profissionais e voluntários envolvidos na recepção, proteção e integração desta população no Brasil, o público se deparou com cenas e relatos de sofrimento, de desespero e de rejeição — mais frequentes do que as de acolhida e de amparo aos estrangeiros.

“Não há muito que possamos fazer daqui do Brasil e deste evento para impedir que pessoas sejam forçadas a se deslocar mundo afora. Mas juntos podemos fazer muito para que elas se integrem e reconstruam suas vidas, para construir pontes entre nós mesmos e para tornar essa convivência rica para todos nós”, destacou a chefe do escritório do ACNUR em São Paulo, Isabela Mazão.

Nomeado na véspera para presidir o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), o secretário nacional de Justiça, Gustavo Marrone, afirmou que a causa do refúgio é um tema caro para si mesmo e para o governo brasileiro.

Sua família, lembrou Marrone, foi forçada a deixar a Itália durante a Segunda Guerra Mundial, anos antes da criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Convenção de 1951, que trata sobre o refúgio.

“Temos de melhorar o processo de ingresso de refugiados e agilizar o reconhecimento e a integração deles para que possam dar os primeiros passos de reconstrução de suas vidas no Brasil e desempenhar uma função social no país”, afirmou.

Apresentação do coral Coração Jolie Belas Artes abriu evento de premiação dos curtas do Festival do Minuto sobre refugiados. Foto: ACNUR / F. Faria

Diretor da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo — uma das parceiras do ACNUR na organização da premiação —, o padre Marcelo Monge lembrou ser “sagrado” o direito de toda pessoa de migrar, assim como o de não migrar. A organização é a principal instituição de acolhida de refugiados em São Paulo e uma referência para a maioria dos deslocados forçados que chegam à capital.

A abertura da cerimônia contou com uma apresentação do coral Coração Jolie Belas Artes — um grupo de crianças refugiadas criado e conduzido pela organização não governamental “I Know My Rights” (IKMR). Vestidos de branco, 18 meninos e meninas cantaram, entre outras canções, a brasileiríssima “Aquarela”, do compositor Toquinho.

O encerramento da premiação foi conduzido à capela pelo grupo “Os Escolhidos”, de refugiados da República Democrática do Congo e de Angola.

Confira aqui todos os seis vídeos premiados por esta edição do Festival do Minuto.

Por Denise Chrispim, de São Paulo